Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

O Benfica e a submissão ao génio

O Benfica recuperou a autoestima, continua a aguentar-se no topo da classificação e, por vezes, até consegue atropelar como um trem os adversários mais débeis. Mas o jogo no Bessa confirmou algumas deformidades que continuam por resolver e que a vitória afortunada e tardia não pode nem deve mascarar. Os adeptos funcionam demasiadas vezes apenas em função da ditadura dos resultados e os correligionários da estatística também não deixarão de assinalar que o Benfica soma apenas menos um ponto do que os registados na época passada à passagem da mesma jornada. De facto, mesmo boa parte da crítica especializada prefere ressaltar a proeza inédita que foi o 11.º triunfo consecutivo fora de portas. Mas uma radiografia desapaixonada, não só ao último jogo frente ao Boavista, mas também à generalidade das exibições benfiquista, bastará para provar uma verdade insuspeita: o Benfica depende excessivamente da inspiração individual. Como diria Eduardo Galeano, muitas vezes exigimos aos treinadores não só a subtileza de Freud e a excelência de Einstein, mas também a capacidade milagreira da Virgem de Lourdes e a fleuma de Gandhi. E é verdade que Rui Vitória tem sido um mestre na forma como, primeiro, foi colando os cacos e, depois, soube forjar peças que nem sequer faziam parte do catálogo original. Fê-lo num período crítico em que a desgraça uniu a equipa e ao mesmo tempo que cativava os adeptos, o gabinete presidencial e principalmente o balneário com o seu discurso plácido e agregador, marcando com isso uma rotura enorme com um antecessor que, entretanto, na Luz se havia transformado em Belzebu. E conseguiu-o, mesmo que Luís Filipe Vieira nunca tenha cumprido a promessa que iria dar ao novo técnico as mesmas armas que o Benfica oferecera no passado a Jorge Jesus. Mas alguém que é probo e escrupuloso como Rui Vitória também terá de consentir que ao Benfica tem faltado organização, um plano e um processo de jogo que ajude a resolver os problemas e diminua a dependência do génio oferecido pelas unidades mais prodigiosas. Um exemplo entre vários outros possíveis: precisa definir melhor as zonas e os 'timings' de pressão, uma qualidade que normalmente distingue as grandes equipas das medianas. Mas também já devia ter soluções alternativas suficientemente oleadas para quando o seu jogo interior é anulado, como aconteceu frente a um Boavista que não merecia a derrota.

O Benfica não tem ainda os seus processos suficientemente consolidados e é demasiadas vezes uma equipa anárquica e sem capacidade de interpretar o jogo. Tem o modelo, os princípios, mas falta-lhe cuidar dos subprincípios, e isso nota-se ainda mais, naturalmente, quando joga sem vários dos habituais titulares. Por vezes, dá a ideia de resumir os jogos aos assaltos que consegue fazer. Notou-se, desde a primeira hora, a vontade de ter um controlo mais cerebral do jogo, por contraponto com o que acontecia no futebol feito de vertigem de Jesus. Mas enquanto o atual técnico do Sporting acabou por conseguir atenuar essa tendência em Alvalade, Rui Vitória continua excessivamente sujeito a um lampejo e a uma centelha e tarda a resolver um problema que só poderá ser colmatado com um trabalho mais detalhista. Não é de excluir a possibilidade de o retardamento resultar da herança de um sistema de jogo (4x4x2 clássico ou, se preferirem, 4x1x3x2) que não fazia parte das escolhas habituais de Rui Vitória, que certamente teria mais facilidade em resolver a questão se tivesse optado pelo 4x2x3x1 ou por qualquer outra variante em que se especializou. A manutenção do desenho percebe-se e acabou por resultar vantajosa tanto na organização defensiva herdada (designadamente nos lances de bola parada) como na rentabilização de Jonas, até porque um grande jogador está muitas vezes por cima de uma boa ideia. O brasileiro tem detalhes cirúrgicos de um verdadeiro predador e foi também à sua custa que o campeão mascarou a tremedeira que alguns dos seus companheiros acusaram no Bessa e que, sem excluir o mérito da estratégia boavisteira, esteve na base de tantos passes errados, más definições e segundas bolas perdidas. Mas, nesta fase decisiva do campeonato, essa até é a questão mais fácil de resolver num treinador que se tem principalmente distinguido pela gestão emocional do balneário.

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Buffon é grande
Após bater o recorde da imbatibilidade (deixou-o em 973 minutos), Buffon mostrou que não é só um dos melhores guarda-redes da história. É também um homem com caráter. Mostrou-o ao dividir o mérito com os colegas num texto com referências individuais. Fê-lo porque, explicou, "nenhum recorde é filho único".

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A lição do PSV

O PSV já identificou três dos adeptos que participaram na cena inenarrável de humilhação às mulheres que pediam dinheiro na Praça Mayor, em Madrid, antes do jogo com o At. Madrid. É também assim que se defende o futebol.

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Löw e a disciplina
Joachim Löw expulsou dos convocados da Alemanha Max Kruse por falta de profissionalismo, após o avançado do Wolfsburgo ter tido uma altercação com uma jornalista. Diz só querer jogadores concentrados no futebol.

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Penáltis é com Navas

O costa-riquenho Keylor Navas não se deixa afetar com os rumores da contratação de De Gea e continua a brilhar na baliza do Real Madrid. Esta época defendeu três dos quatro penáltis que lhe foram marcados (no total, leva sete defendidos em 15).

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Terrorismo vence

O dérbi de Istambul entre o Galatasaray e o Fenerbahçe foi adiado por haver riscos de atentado. O terrorismo também começa a ganhar a guerra ao futebol.

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