Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

O bombeiro Jiménez

Uma das coisas mais reveladoras do caráter e da personalidade de um jogador – como escreveu Javier Marías – é a forma de gritar e festejar um golo. Quem esteve em Vila do Conde confirmou que Raúl Jiménez é dos que esbraveja com fúria, mas não tanto dos que logo se esgueiram para uma zona isolada para, assim, melhor poderem mercantilizar a façanha. Pelo contrário, opta quase sempre pelo abraço comunitário, como se quisesse dividir as honras. E esse traço pode explicar a razão por que lida tão bem com a situação de reservista e, consequentemente, acaba por entrar com a estabilidade mental necessária sempre que tem de fazer de bombeiro. Dez golos em 40 jogos não impressionam, mas ganham relevância se levarmos em conta que só jogou 1577 minutos e que metade dos golos vieram do banco de suplentes. Marcou cinco golos na Liga, onde só regista oito jogos a titular, o que faz com que se possa especular sobre quais seriam os seus números se tivesse havido continuidade na aposta. Na fase inicial da época ficou a ideia de ser essa a intenção de Vitória, mas um treinador só ganha o respeito de um balneário se for justo. E a verdade é que Mitroglou não facilitou (22 golos em 41 jogos). De Jonas nem vale a pena falar porque o brasileiro vale muito mais do que os 33 golos (31 na Liga). Provam-no as 10 assistências. A verdade é que, pouco a pouco, instalou-se a ideia, duvidosa, de que Mitroglou seria o parceiro ideal para Jonas. A explicação é a de que dá outra dimensão física ao ataque. Na verdade, Mitroglou e Jiménez têm exatamente a mesma estatura (1,88m), mas é verdade que o grego sabe tirar melhor partida da envergadura (importante num futebol em que muitos adversários baixam as linhas e se amontoam à frente da baliza), embora o mexicano lhe ganhe claramente nos duelos aéreos. Há ainda a convicção de que Jiménez é mais útil como elemento desestabilizador na parte final e que só deve ser titular em duelos de dificuldade elevada (Champions), onde melhor se pode rentabilizar a sua maior mobilidade e capacidade pressionante. Mas, não tenhamos dúvidas, o que fez Vitória apostar em Mitroglou foi a sua superior eficácia. E aí o mérito vai inteirinho para o grego: tornou-se importante num Benfica que nem sempre joga bem e que é essencialmente um estado de alma. De facto, este Benfica esquece muitas vezes qualquer pretensão criativa e não conecta com os avançados, como se voltou a ver em Vila do Conde. Mas, mesmo quando o seu futebol é espesso, raramente deixa de criar oportunidades e de marcar.
 
A Jiménez custa-lhe, por vezes, encontrar a baliza. De facto, não tem ainda o talento natural para o golo, até porque nalguns goleadores isso leva tempo a apurar-se. No seu caso não parece ser falta de voracidade, mesmo que o mexicano não passeie a confiança quase insolente do grego. Mas o tempo corre a favor de Jiménez, que tem detalhes cirúrgicos de um predador e que também acabará por adquirir a capacidade resolutiva que transforma um bom avançado num goleador. Até porque já provou ter uma qualidade rara: não entra em campo com um dístico de reservista na testa. O mexicano tem 24 anos e está num momento determinante da carreira. De ídolo no América e medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Londres, passou a carta quase fora do baralho em Madrid. Um golo em 28 jogos não foi grande carta de apresentação, mesmo descontando o facto de só ter sido titular seis vezes. Os madrilenos, que procuravam um substituto de Diego Costa, tinham pago 10,5 milhões de euros por um Jiménez que também interessara ao FC Porto. Mas chegou também um Mandzukic que nas duas épocas anteriores apontara 48 golos no B. Munique. O futebol espanhol é sempre mais exigente com os estrangeiros e Diego Simeone não é conhecido por dar segundas oportunidades (veja-se como caiu Jackson Martinez). Jiménez esteve perto de assinar pelos ingleses do West Ham, mas Jorge Mendes desviou-o para a Luz. Os 9,8 milhões pagos por 50 por cento do passe foram excessivos, mas bem menos do que parecem hoje os 4,9 milhões por Funes Mori, os 3 milhões por Derley, os 2,9 por Taarabt ou os 2,7 por Jonathan Rodrigues. Porque os milhões do mexicano vão provavelmente continuar a ser pagos com golos importantes, como parece ser sua sina.

***** Juve soma ‘scudettos’

Depois de ter chegado a estar a 11 pontos da liderança da Série A, a Juventus acabou por selar ontem o seu quinto ‘scudetto’ consecutivo. E Massimiliano Allegri já vai dizendo que não sai porque quer ganhar a Champions.

**** A semana de Suárez

Luis Suárez conseguiu algo inédito: marcou dois póqueres seguidos em Espanha (no primeiro jogo fez ainda três assistências), acabou com a anunciada crise em Barcelona e passou a grande candidato ao Pichichi e à Bota de Ouro.

*** O prémio de Mahrez

Pode não se gostar do futebol do Leicester, mas ninguém é indiferente à magia de Riyad Mahrez, o argelino nascido em França eleito melhor jogador da Premier League. Nunca tal acontecera a um africano. Nunca ninguém participara em tantos golos: marcou 17 e assistiu para 11.

** Pedro Nuno e o livre de craque

Pedro Nuno tem apenas 21 anos e 1,74 m de estatura, mas, independentemente de jogar a médio-ofensivo na Académica, só precisou de 630 minutos em campo para marcar quatro golos. O livre direto ao FC Porto foi de craque.

* Zenit cai em Rostov

Após grande recuperação, o Zenit ficou desenganado no que ao título diz respeito, ao perder (0-3) em casa do líder Rostov, que está a produzir outro milagre futebolístico: tem um orçamento de 40 milhões de euros, contra os quase 200 milhões da equipa de André Villas-Boas.

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