Ludopédio

O xeque-mate do Barça

O duelo do meio dia (hora espanhola) foi ganho por Ernesto Valverde, um amante de fotografia que soube restaurar o Barcelona com um banho de realismo. Num "clássico" exportado para 182 países (audiência de 650 milhões), esta versão catalã mais industrial voltou a amarrotar (no mesmo Bernabéu onde já tinha ganho nas duas épocas anteriores) um Real que ainda há dias se banhara de confetes para celebrar o seu segundo título mundial consecutivo. Mérito de um técnico que soube dar sossego e sensatez a um Barça que no início da época viveu um autêntico deboche e que, no sábado, deixou o campeão moribundo e humilhado. A mesma equipa que havia saído assarapantada da Supertaça (1-5 no conjunto das suas "mãos), que se afligiu a orfandade, primeiro, por Luis Enrique e, depois, pelo "traidor" Neymar, que teve de descartar as contratações de Coutinho, Di Maria e Mbapé por não ter dinheiro em caixa e que logo viu o reforço Dembélé lesionar-se gravemente fez praticamente um xeque-mate ao rei quando, imagine-se, ainda faltam duas jornadas para o fim da primeira volta da liga espanhola. O Real ainda tem um jogo em atraso em Leganés, mas 14 pontos de diferença são mais difíceis de anular do que convencer um elefante a saltitar. E, com as derrotas do Valência e do A. Madrid, o título deve estar no bolso. Será a quinta liga no conjunto das últimas oito edições, justo emolumento a quem reinventou e respeita uma receita futebolística que nos regala a todos.

Este Barça prima por ser compacto e não é tão deslumbrante como as suas versões anteriores. Mas não perde para nenhuma em termos de eficácia. Ao fim da 13ª jornada já tinha mais oito pontos do que em 2016/17. Passou por uma crise recente em que empatou quatro de seis jogos. Curiosamente, tinha andado a ganhar quando jogava mal e depois somou tropeções quando a qualidade de seu jogo subiu em flecha. Frente ao Valência e ao Celta, por exemplo, teve momentos brilhantes, mas pagou a má pontaria e o azar (chegou a haver uma contabilidade de 22 remates à madeira, 14 dos quais de Messi). Mas Suárez foi voltando à normalidade (nos últimos seis jogos apontou sete golos) e bem mais difícil de resolver foi a lesão de Umtiti e os problemas físicos e a vontade de sair de Mascherano. Foi então altura do Vermaelen ser resgatado das catacumbas, ele que nunca havia feito tantos jogos seguidos na Catalunha. E Neymar acabou por ser substituído por um médio maduro que se pensava já estar jubilado na China (Paulinho). Discutiu-se muito a sua contratação, mas o brasileiro tem provado que não serve só para dar ordem e pressão. Valverde tinha dito em Agosto que o queria também para ter mais "chegada" à área rival. Paulinho, que aos 30 anos rendeu 40 milhões de euros ao Guangzhou, respondeu de forma implacável. Move-se ao som de Messi, está sempre com um olho no argentino para complementar o seu jogo ofensivo ou, ao invés, para compensar na defesa. Sem contar com o jogo no Bernabéu, somava 41 recuperações de bola na liga espanhola e 25 na Champions e, bem mais surpreendente, seis golos na liga espanhola. Foi entrando pouco a pouco na equipa, até ser imprescindível. Salta à vista a química entre ele e Messi e Suárez, sendo que o trio soma 31 golos, mais um do que todo o Real em La Liga. O que fará Valverde quando voltar Dembélé?

Sem Neymar, Varverde foi deixando cair o 4x3x3, não só porque Dembélé se lesionou, mas também por Deulofeu não se ter encaixado. Na Supertaça já tinha usado um 3x5x2 que se revelou desconexo e que contribuiu para que, a certa altura, Piqué deixasse escapar que a sua equipa estava a "levar baile". "Pela primeira vez desde que voltei ao Barça vi um Madrid superior", reconheceria o central no final. Mas Valverde lá foi colando os cacos e apostando, cada vez mais, num 4x4x2 que perfilou uma equipa mais correlacionada, mais robusta e comprimida entre Ter Stegan e Messi. Joga sem extremos, mas mantendo o ADN do Barça e as pequenas triangulações que vão abrindo o campo. Em Madrid preferiu usar um 4x1x3x1x1, que deixou Paulinho sobre a direita e que foi suficiente para aniquilar um Real que pagou caro o desgaste do Mundial de Clubes e que também mudou, mas para pior. Em vez do losango surgiu um 4x1x3x2, com Kovacic à frente de Casemiro e no meio de Modric e Kroos. É difícil decidir se foi pior deixar Isco esquecido no "banco" ou se mandar novamente Kovacic vigiar Messi: no primeiro golo, o croata estava tão concentrado na vigília que nem fechou o corredor a Rakitic. A verdade é que Valverde aproveitou muito bem os quatro meses que leva na Catalunha. Como alguém disse, o Barça encontrou neste treinador com ar franciscano o seu melhor curandeiro. Melhorou a organização defensiva sem prejudicar o potencial ofensivo e o Barça foi crescendo a partir daí, perdendo a dependência do tridente ofensivo que havia sido decisivo em 9 títulos (em 13 possíveis) com Luís Enrique e em 14 (em 19 possíveis) com Guardiola. Agora, os golos são bem mais repartidos. Claro que é sempre mais fácil quando se tem Messi. O astro esteve na base da metamorfose: voltou a jogar mais por dentro, o que até o ajuda na criação, e tanto funciona como "quarterback" como, logo a seguir, surge no papel de atirador. A verdade é que este é um Barça ao serviço de Messi. Agora mais do que nunca.



Uma estrela - Só falta um golo a Harry Kane
Harry Kane marcou o hat-trick que deu a vitória ao Tottenham sobre o Burnley e pode tornar-se o melhor marcador das grandes ligas em 2017 se marcar frente ao Soutampton, no dia 26. Soma 53 golos, menos um do que o líder Messi.

Quatro estrelas - Juventus não desiste
A Juve não desiste da perseguição ao Nápoles e conseguiu um importante triunfo sobre a Roma. De regresso ao 4x3x3 (Dybalo é suplente há três jogos), beneficiou do golo de Benatia e continua a um ponto do líder.

Três estrelas -As propostas do Sporting
A resposta do Sporting às propostas do G15 resultou nalgumas sugestões aceitáveis, algumas duvidosas (como permitir o "resgate" dos emprestados em Janeiro) e outras que não disfarçam muitos e variados rancores.

Duas estrelas - Humores vários em Manchester
Os humores estão cada vez mais distintos nos rivais de Manchester. Guardiola continua a somar pontos e exibições e o título já é uma formalidade; Mourinho já nem consegue ganhar quando joga mais e melhor.

Uma estrela - A treta da solidariedade
Foi pior do que levar um soco a notícia de que os responsáveis do Sevilha não resistiram a três desaires e despediram um treinador (o argentino Eduardo Berizzo) que há um mês anunciou padecer de um cancro na próstata (e que voltou ao trabalho poucos dias após ser operado).A solidariedade é uma treta.

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