Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

Os árbitros-proveta e o polvo

Este artigo é em defesa dos árbitros e contra aqueles que, de forma cobarde e burlesca, os usam como escudo protetor das suas próprias imbecilidades e/ou despreparos. Mas não vale a pena tapar o sol com a peneira: existe mesmo um problema na arbitragem portuguesa. A última prova disso está aí bem patente no facto de terem sido dadas as insígnias da FIFA a uma série de árbitros-proveta sem a bagagem e o amadurecimento necessários. Não é normal que Luís Godinho, o tão discutido juiz do não menos polémico Moreirense-FC Porto, tivesse passado ao primeiro escalão em 2015/16 e chegasse a internacional com apenas 14 jogos no escalão principal. E há casos piores, como os de João Pinheiro (dois jogos), Tiago Martins (dois) e Fábio Veríssimo (cinco). São todos eles juízes com potencial para a função, mas que ainda há pouco tempo andavam no futebol amador, onde as assistências rondam as poucas centenas de espectadores e onde não há a pressão da comunicação social, das repetições até à exaustão na TV, nem o impacto público de arbitrar um ‘grande’. Nem de propósito, tive oportunidade de ler, numa revista do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Ensino em Fisiologia do Exercício, um trabalho sobre a influência que o escarcéu vindo das bancadas tem nas decisões dos árbitros. Sustentado numa parafernália de artigos científicos publicados nos mais diversos países, o exercício conclui que o barulho da multidão tem um efeito dramático nos julgamentos dos árbitros. Cita mesmo uma experiência efetuada com dois grupos de árbitros qualificados. Numa sala fechada, e em separado, a cada um desses grupos foram mostrados lances de jogos da Premier League. Em cada jogada, os árbitros tinham de avaliar se era falta ou não. A diferença é que o vídeo mostrado a um dos grupos tinha o som bem audível, enquanto o outro estava a zero. Ora, aqueles que enfrentaram o desafio com o barulho das bancadas ficavam mais inseguros na hora de decidir e marcaram significativamente (15%) menos faltas contra a equipa que jogava em casa, quando comparado com os que assistiam em silêncio. Além de recomendar que o futuro vídeo-árbitro venha a funcionar no exterior ou numa cabine à prova de som, os estudos apresentados deixam ainda claro que a equipa com adeptos mais barulhentos é maioritariamente beneficiada nas decisões mais complicadas, como sejam a validação ou não dos golos ou a marcação de penáltis. Mais: o árbitro dá mais tempo de desconto se a equipa que joga em casa está a perder (no caso português, mais do que o local deve contar, arrisco dizer, se se trata de um ‘grande’, porque são sempre estes que têm mais adeptos no estádio). Mas a conclusão que mais nos interessa relevar é a que nos diz que os árbitros menos influenciáveis pela pressão das bancadas são os mais experientes. De facto, a isenção e a equidade parecem aumentar até um pico de 16 anos de experiência ao mais alto nível, observando-se um declínio a partir daí.

Voltanto aos árbitros-proveta, a génese do problema, mesmo para quem não é especialista, parece ser a falta de quadros suficientes. A Alemanha, onde a arte se aprende desde muito cedo nas escolas, tem mais árbitros do que Portugal tem praticantes. Esta realidade foi-se agravando, obrigando a alargar a malha de deteção de talentos. Coincidentemente, terminaram a carreira árbitros com o prestígio de Pedro Proença, Duarte Gomes e Olegário Benquerença, enquanto Marco Ferreira foi despromovido, ficando então clara a dificuldade em encontrar dignos sucessores (a exceção é Soares Dias, porque Jorge Sousa já tem 41 anos). Vítor Pereira, que deu condições aos árbitros como ninguém havia feito em Portugal, decidiu então que só juízes com menos de 35 anos e fluentes no inglês poderiam ser promovidos a internacionais. Era uma forma de potenciar a sua afirmação internacional e de deixar pelo caminho outros sem potencial (e com maus hábitos?). Mas o reverso da medalha foi ter-se quase eliminado uma geração, o que obrigou à tal aposta em juízes imberbes. Mas, chegados aqui, a única solução é mesmo dar-lhes a necessária tarimba e, gradualmente, nomeá-los para jogos cada vez mais difíceis. Nesse processo, fez todo o sentido a aposta recente do Conselho de Arbitragem na Taça da Liga. Pena é que a muitos dos responsáveis pelos clubes falte a necessária indulgência e também cultura desportiva para o perceber e aceitar. Em vez disso, preferem um discurso que insinua a premeditação e que exagera nos erros arbitrais, procurando com isso esconder os seus próprios fiascos, bem mais gravosos por sinal. E, nesse aspeto, os silêncios são sempre transitórios e estratégicos, não havendo ninguém inocente. Esse é que é o verdadeiro mundo tentacular do futebol português, mesmo que seja um polvo camaleónico e que vai mudando de cor conforme dá jeito.

5 estrelas -- CR7 e o peso do Euro

Ronaldo juntou o ‘The Best’ à Bola de Ouro, ao MVP da UEFA e a uma lista infindável de prémios. Foi quem mais golos marcou em 2016 (55, mais quatro que Suárez). Não foi o ano em que mais marcou e melhor jogou. Mas foi o seu melhor ano – os títulos europeus pesam muito.


4 estrelas -- Santos, o 'vero the best'

Ranieri ganhou porque conseguiu um milagre, mas o futebol do Leicester nunca deixou de ser um subproduto. Zidane teve um ano de sonho, mas no Real o sucesso está sempre ali à mão de semear. Fernando Santos, o nosso engenheiro do Euro e ainda por cima um homem bom, é que foi o ‘vero the best’.

3 estrelas -- A tolerância de BdC

Atendendo ao investimento, BdC diz não compreender os oito pontos de atraso do Sporting. "As exibições não têm sido fantásticas, mas a arbitragem teve peso". Até aqui ok, o pior veio a seguir: "Foi a última vez que o clube fez intervenções ponderadas; não vamos aturar mais isto". Explique lá isso melhor…

2 estrelas  -- 'Banco' portista faliu

Jogar com um ataque de mancebos não é a mesma coisa que ter Bas Dost, Jonas, etc. etc.. Mas, pior do que isso, é olhar para o ‘banco’ e não encontrar melhor do que um sub-18, um sub-23 e, claro, Varela (mesmo assim mais fiáveis do que o 1,91m de um certo belga…).

1 estrela -- Assobios pouco fixes

Uma minoria de adeptos do Benfica, FC Porto e Sporting foi suficiente para apequenar o que devia ter sido a homenagem a Mário Soares. Habituados a assobiarem o árbitro, também desrespeitaram o principal político português do século XX e o pai da democracia.





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