Os cinco dias tétricos do Sporting

Adicione como fonte preferencial no Google

Gordon Strachan costumava dizer que "o mundo parece um lugar totalmente distinto depois de duas vitórias seguidas", mas o futebol tem sempre um lado kafkiano e Jorge Jesus acaba de confirmar que a máxima do mítico treinador escocês pode ter ainda mais precisão e rigor quando se acumulam dois desaires. Até porque, já se sabe, se o êxito pode suscitar vertigem, o fracasso acaba quase sempre por gerar o medo. De facto, o futebol tem sempre algo de misterioso e, quase num estalar de dedos, o Sporting passou de um estado de relativa e justificada euforia para um quadro bem mais depressivo e nunca visto em Alvalade desde que Bruno de Carvalho anunciou ter rapinado o treinador ao Benfica. E não tenhamos dúvidas: a luta contra essa inquietude passou ser o próximo grande desafio colocado a Jesus. Ele, melhor do que ninguém, sabe que o desaire na Madeira aconteceu num dos piores momentos possíveis para o Sporting. A possibilidade de receber o FC Porto na próxima jornada com, pelo menos, dois pontos de vantagem garantia ao Sporting uma enorme margem de conforto e uma ainda maior superioridade mental, até porque a eventual derrota portista em Alvalade iria deixar o contestado Lopetegui num cenário ainda mais tóxico e, por isso, praticamente insustentável. O basco continua a não estar nas boas graças da generalidade dos portistas – não é sequer de excluir a possibilidade de os seus contestatários mais alucinados terem entendido a inopinada e enigmática publicidade nas camisolas (Sinta+) usadas na última jornada como uma mensagem subliminar enviada ao próprio Lopetegui… Mas o tropeção leonino não só pode ajudar a sarar algumas dessas feridas, como permitirá ao FC Porto entrar em Alvalade com a certeza de que sairá favorecido com dois dos três resultados possíveis. A própria derrota deixará o Sporting apenas com um ponto à frente e não será tão devastadora para o FC Porto como o seria na conjuntura anterior. E não é sequer despiciente o facto de o desaire na Choupana ter tido um efeito regenerador também num Benfica que começava a ficar desenganado. E como a memória futebolística é sempre muito seletiva, muitos benfiquistas não deixarão de ter em conta que Jesus perdeu em Braga, onde Rui Vitória venceu, e que foi derrotado no campo do União da Madeira, onde o Benfica empatara dias antes… Haverá ainda quem aproveite o desprazer leonino para recordar que o Sporting tinha ganho pela margem mínima em sete das suas 11 vitórias e que algumas das suas deslavadas exibições (principalmente frente a Estoril, Belenenses e Arouca) já eram um prenúncio de que o acidente iria surgir numa das próximas curvas (mesmo que essa tese acabe por não levar em conta o facto de o despiste ter surgido num jogo em que o Sporting fez o suficiente para justificar uma vitória até relativamente rechonchuda).

Acresce que o facto de ter juntado a eliminação na Taça de Portugal ao falhanço na pré-eliminatória da Champions resulta, para Jesus, quase numa necessidade imperativa de vencer o campeonato (a alternativa, bem mais inverosímil, seria o triunfo na Liga Europa), sob pena de poder ser indiciado de fazer pior do que Marco Silva, que venceu no Jamor e interrompeu o último longo jejum sem títulos. E esse quadro seria ainda mais embaraçoso para o presidente Bruno de Carvalho, que inflacionou a folha salarial para dar a Jesus o que nem lhe passou pela cabeça dar ao ex-treinador. E, como o azar é quase sempre favorável ao homem prudente, aí está a decisão do Tribunal Arbitral do Desporto que deverá obrigar o Sporting a transferir para a contestada Doyen a maioria dos 20 milhões de euros recebidos à conta da venda de Rojo. No espaço de apenas cinco dias, o Sporting sofreu três importantes contratempos. Mas se os dois primeiros devem ser lidos com a indulgência que resulta de sabermos que no futebol há sempre o imponderável de a bola entrar ou não na baliza, já a derrota jurídica faz-nos recordar que boa parte dos nossos erros nascem do facto de sentirmos quando devíamos pensar e de pensarmos quando devíamos sentir…

Cinco estrelas -- Barça também tem treinador

Messi, Neymar e Luiz Suárez formam um tridente incomparável, mas a glória em Yokohama e o ano quase perfeito (cinco títulos em seis possíveis) do Barcelona têm também a marca indelével de Luis Enrique, um treinador que o mundo do futebol demorou demasiado a reconhecer como um dos grandes entre os grandes.

Quatro estrelas --A juventude de Higuaín

Com os dois golos à Atalanta, Higuaín ajudou o Nápoles na perseguição ao líder Inter de Milão e tornou-se no segundo melhor marcador da Europa. Soma 16 tentos em 17 jogos e é apenas superado pelos 18 golos do gabonês Aubameyan. 'Pipita' está a viver a segunda juventude.

Três estrelas -- Quique Flores está imparável

Pode ser um eterno mal amado dos benfiquistas, mas Quique Flores está a mostrar trabalho em Inglaterra. Destroçou o Liverpool agora de Klopp, somou a quarta vitória consecutiva e o modesto Watford já vai no sétimo posto da Premier League.

Duas estrelas -- Mourinho e a vizinhança…

José Mourinho tem o condão de ser "special" até na hora de ser despedido. Vai ser muito interessante descobrir como irá, provavelmente, conviver com Guardiola na mesma cidade... Manchester será suficientemente grande?

Uma estrela -- A FIFA voltou a ser do futebol

Ontem foi um dia bom para o futebol. Mesmo que Blatter e Platini esperneiem e não queiram aceitar a reforma forçada, o mundo perverso da FIFA ruiu mesmo e, a partir de agora, nada será como dantes. Já era tempo.

Deixe o seu comentário

Pub

Publicidade