Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

Patrício e outras histórias

Quem viu o último Rio Ave-Sporting teve uma boa oportunidade para enxergar por que razão há quem defenda que o guarda-rede e o ponta de lança não são posições, antes profissões – no sentido da mais alta especialização. Curiosamente, sendo ambos ofícios para verdadeiros peritos, o que se lhes pede é diametralmente oposto: evitar e marcar golos. E é em função da mestria e infabilidade com que uma e outra funções são desempenhadas que, em muitas circunstâncias, os resultados se estabelecem e, não raras vezes, surgem desfechos mentirosos e desmerecidos. Atente-se no que se passou de mais relevante nos nove minutos finais (contando com os três de descontos) do referido jogo em Vila do Conde: aos 84’, Rui Patrícia estira-se para travar um remate forte de Nuno Santos e o avançado Guedes, com a baliza completamente à sua mercê, falha espalhafatosamente a recarga; na jogada seguinte, Bas Dost aproveita o cruzamento de Battaglia e marca com mestria, pouco importando aqui se está ou não uns centímetros adiantado, uma vez que o vídeo-árbitro só deve alvitrar se não houver a mínima ambiguidade; finalmente, aos 90’+3, Rúben Ribeiro esgueirou-se pela direita, fez primeiro gato-sapato de Battaglia, mas o seu cruzamento fez a bola atravessar toda a área do Sporting sem que os três pontas-de-lança (Guedes, Yazalde e Karamanos) que o Rio Ave tinha, na altura, nas bordas da linha de golo conseguissem empurrar a bola com as barbas. O Rio Ave acabava assim por perder um jogo em que teve muitíssimo mais método, estratégia, engenho e oportunidades. Em função da sua organização e boas ideias, conseguiu até disfarçar a ausência de Francisco Geraldes, o mestre da casa das máquinas, bem como de metade da sua defesa (Bruno Teles e Marcão cumpriram castigo). Mas foi um esforço inglório porque do outro lado estava um Patrício capaz de fazer cinco defesas providenciais (incluindo uma, aos 32 minutos, que é bem capaz de ser, até ao momento, a melhor estirada na liga) e também porque Bas Dost custou 12 milhões de euros precisamente por ter aquela faceta de marcar muitos golos (41 em 42 jogos na liga portuguesa, quase metade dos 85 que o Sporting apontou neste período), bem como a particularidade de os conseguir em momentos determinantes (já tinha sido à sua custa que o Sporting batera, nos instantes finais, o Setúbal e o Feirense).

Mas a verdade é que a sua voracidade teria sido bem menos impactante se lá atrás não estivesse um guarda-redes capaz de ser diferente e de assumir as responsabilidades de uma forma integral e absoluta. O brasileiro Yustrich, que defendeu as redes antes de se tornar um técnico durão (ajudou o FC Porto a ganhar o título de 1956 e a interromper um ‘jejum’ de 16 anos), costumava dizer que "os guarda-redes não ganham jogos, só os perdem". Independentemente de o também ex-selecionador brasileiro mais não querer do que enfatizar o facto de os guarda-redes ficarem sempre com a culpa, mesmo quando não a têm, guardiões há que se distinguem precisamente por ganharem jogos. São os que são capazes de jogar um jogo coletivo de forma quase individual e se recusam a vestir a pele de eternos vilões. E são os que, aqui e ali, também sabem fazer de heróis. Rui Patrício faz parte dessa espécie rara, dos que são capazes de evitar o que tantas vezes parece inevitável.

Na última ronda do campeonato, o FC Porto e o Benfica, tal como o Sporting, também jogaram menos do que era suposto e sua obrigação. E também ganharam. Curiosamente, ambos acabaram igualmente salvos pelos seus guarda-redes e avançados (embora os portistas tenham também beneficiado do ‘harakiri’ de Jorge Simão, quando o técnico boavisteiro, a perder apenas por um golo, desconjuntou completamente a sua equipa com uma estratégia que teve tanto de ofensiva como de suicida). Mas o que se viu, na maior parte do tempo, foram duas equipas do Boavista e do Feirense capazes de jogarem no campo todo. Com muitíssimos menos recursos, mostraram um futebol honrado e proficiente, com o Boavista até a jogar mais do que quando conseguira bater o Benfica. Mas nesta galeria de derrotados honrados, a ênfase principal tem mesmo de ir para o Rio Ave. O que Miguel Cardoso está a fazer em Vila do Conde só está à altura de um técnico iluminado e documentado, sendo certo que, depois de Luís Castro, o Rio Ave voltou a ser certeiro na escolha do treinador, até no cuidado de não haver uma rotura com o passado. Mas esta versão de Miguel Cardoso, sendo menos dada ao contragolpe, é ainda mais resoluta e sedutora. É arrebatadora a forma como sobe as linhas e pressiona lá na frente. Enfim, joga como um ‘grande’. Claro que o reverso da medalha são as dificuldades sentidas frente a adversários assustadiços e que jogam de forma poltrona.


Cinco estrelas -- O City ganha e faz sonhar

Nove vitórias nas dez primeiras jornadas da Premier League e 13 triunfos seguidos nas várias provas já seriam feitos notáveis, mas o M. City continua a conseguir juntar aos resultados um futebol de encantar. Guardiola nasceu para nos fazer sonhar.

Quatro estrelas -- Barça também vive de Ter Stegen

Ter Stegen teve em Bilbao uma atuação estelar, com um conjunto de defesas tão ou mais importantes que os golos de Messi e Paulinho. O alemão é cada vez mais importante num Barça que prossegue demolidor.

Três estrelas -- Gomes faz bem ao futebol

Depois das medidas sugeridas na Assembleia da República para combater o ódio e a violência, Fernando Gomes acordou com a Liga de Clubes que o vídeo-árbitro vai manter-se e continuar a ser pago pela FPF na próxima época. Mais uma semana a fazer bem ao futebol.

Duas estrelas -- Phil Foden é a joia da coroa

Há muito que não surgia, em Inglaterra, uma geração tão talentosa como a que goleou a Espanha (5-2) e venceu o Mundial de Sub 17. A joia da coroa é Phil Foden, que Guardiola está a burilar em Manchester. Marcou dois golos e fez mais um exercício de classe.

Uma estrela -- Twitter e falta de vergonha

Depois de tanto tempo a queixar-se dos tweets dos diretores de comunicação do Sporting e FC Porto, o Benfica criou um twitter que parece essencialmente existir só para se queixar das arbitragens dos dois rivais. A falta de vergonha é contagiosa.

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