Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

Perder sem ser derrotado

Rui Vitória foi factual ao dizer que, "muitas vezes, os jogos têm de ser ganhos de forma estratégica". Mas, sendo uma verdade irrefutável no sentido lato, não passa de uma dedução no mínimo exagerada e até algo desajustada quando relacionada com o recente triunfo do Benfica sobre o Sporting. O campeão nacional não venceu pelo método e muito menos pela engenhosidade tática. E, dizer o contrário, é quase tão capcioso e ilusório como ouvir Jorge Jesus dizer que o Sporting só foi derrotado pelo árbitro Jorge Sousa. Há, no entanto, uma diferença substancial entre as duas teses. Jesus mostrou, mais uma vez, que não dominar o léxico e a sintaxe não o impede de ser poderoso e cirúrgico no passar da mensagem, principalmente junto dos mais deslumbrados. Vitória, por seu lado, terá tão-somente visto uma oportunidade de contrariar um pouco os enunciados que falam num Benfica que é maciço e versado com os adversários mais quebradiços e bem mais despreparado e imperfeito quando lhe surgem antagonistas mais valorosos. A sua réplica terá cativado, como era de esperar, aqueles que sempre acabam por refletir apenas os resultados, o que não encerra nada de novo. Mas quem escapa a esta ditadura e procura levar em conta que no futebol também se ganha jogando um futebol sofrível ou mesmo mauzinho (e, por vezes, até pior do que o adversário) percebeu que, no domingo, o Benfica teve exatamente as mesmas virtudes e os mesmos defeitos que já lhe tínhamos visto frente ao Nápoles, ao Besiktas ou no Dragão, só para citar exemplos recentes. E foi, de resto, o saldo dessas aptidões e disformidades que fez com que o Benfica só tenha conseguido vencer cinco dos 18 jogos de nível de dificuldade elevado (somatório da Champions com os clássicos nacionais) disputados desde que Rui Vitória chegou à Luz no verão de 2015.

Dito de outra maneira: o Sporting foi uma equipa mais sólida e poderosa durante a generalidade do tempo. Teve sempre melhores argumentos, tanto em organização defensiva como atacante. E mostrou, desde logo, ter estudado melhor o adversário. Viu-se isso, por exemplo, na forma como, aqui e ali, Rúben Semedo ajudava a criar superioridade numérica na saída de bola e também se viu no posicionamento quase sempre alto de William (com exceção das situações em que Semedo se aventurava) e na forma como Adrien surgia entre linhas, conseguindo com isso não só outra qualidade na criação, mas também obstruir a primeira fase de construção de um Benfica a quem, como é hábito, falta convicção e segurança no controlo da bola. Em muitos momentos, o Benfica pareceu uma equipa martirizada, um problema acrescido porque o que se faz com dor não pode sair (tão) bem.

Como se explica então que o Benfica tenha acabado por vencer? Primeiro que tudo, porque mantém a rara qualidade de não precisar de construir muito para marcar golos (antes de abrir o marcador praticamente só tinha tido outro contra-ataque perigoso de Rafa). Depois, porque com Rafa teve ainda mais vitalidade e poder energético, o que não é despiciendo numa equipa que parece só saber jogar quando carrega a fundo no acelerador. Também porque Ederson pode só ter 23 anos, mas é já o melhor guarda-redes da liga portuguesa e um dos mais prometedores na cena internacional. E a sua importância no dérbi não pode ser medida apenas em função das defesas pasmosas e do domínio aéreo. Viu-se também na forma como ajudou a resolver os problemas na saída de bola, com lançamentos longos que pareciam teleguiados e que ajudam a explicar as observações de Guardiola. E, finalmente, porque o Sporting, como mais à frente se verá, também deu tiros nos pés.

O jogo não foi apenas marcado pela titularidade de Rafa (já agora, Salvio marcou o golo, mas no resto apenas confirmou a má forma e a tendência para acentuar a vertigem descontrolada), mas também pelas opções dos treinadores nos ‘bancos’. E aqui Vitória esteve melhor do que Jesus. Arriscou na entrada de um Danilo com pouco ritmo e que teve contra si o posicionamento demasiado a par de Fejsa, o que só veio acentuar o baixar de linhas e a pressão do Sporting – após a entrada de Samaris subiu no terreno, mas não ficou mais cómodo, antes pelo contrário. O erro da colocação de Cervi na direita foi prontamente retificado. Pior, bem pior, esteve Jesus. Não tanto pela entrada de Campbell, que se impunha, mas por tirar Bruno César e deixar em campo Bryan Ruiz, o que só serviu para retirar unidade à equipa. Alan Ruiz continua atrasado na adaptação ao futebol europeu e foi uma aposta falhada. Mas muitíssimo mais grave foi substituir o espantado Bas Dost por André. Terá sido um dos maiores disparates de que há memória na longa carreira de Jesus.

5 estrelas -- Ronaldo e os outros

Era a notícia mais mal guardada do ano: Ronaldo ganhou a quarta Bola de Ouro e volta a estar a uma de Messi (que já teve vantagem de 4-1). Mais um tónico para um craque que não pára de se reinventar e que irá jogar cada vez mais perto da baliza. O lugar de honra de Pepe é justo. Patrício merecia algo mais.

4 estrelas -- Messi não desarma

Messi continua na luta e marcou 50 golos em 2016, números que não são superados por ninguém nas grandes ligas (Luis Suárez somou 47). Este registo está na linha do que vem fazendo desde 2009, sendo que o apogeu foi atingido em 2012 (78). E se a isso acrescentarmos as assistências e tudo o resto…

3 estrelas -- Falcão é grande

Devem estar a corar de vergonha aqueles que antecipavam o fim de Falcão. Leonardo Jardim soube dar-lhe o carinho e a confiança que lhe faltava e o colombiano, que se cuida como ninguém, voltou a ser um dos melhores avançados do Mundo. Marcou três em Bordéus, um espetacular, e já vai com 14 golos em 16 jogos oficiais.

2 estrelas -- Contra o antijogo, marchar

O Conselho de Arbitragem apresentou uma proposta para que seja aumentado o tempo útil de jogo, como forma de lutar contra o antijogo em Portugal. A medida, que já foi secundada pelo Sindicato de Jogadores, devia motivar uma onda geral de apoio.

1 estrela -- A entrevista profilática

A última entrevista do ganês Kevin-Prince Boateng devia ser distribuída nas escolas e na formação. Assumir que esbanjou, em apenas dois anos, todos os milhões que ganhou no futebol em carros, relógios, sapatos, discotecas, restantes e falsos amigos pode ser um mea-culpa profilático junto de quem se inicia.


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