Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

Porque desafinou o Benfica

"Quando Karajan [maestro austríaco que ficou conhecido pelo seu perfecionismo] saiu da Orquestra Filarmónica de Berlim, ao fim de décadas à sua frente, até eu teria conseguido passar por maestro se tivesse tomado o seu lugar! Bastaria deixar que os músicos continuassem a tocar como aprenderam. Mas quando alguns dos músicos começassem a sair e a entrar novos, a orquestra iria inevitavelmente desafinar".

Esta frase foi retirada de um dorido SMS que me foi enviado por um experimentado e não menos ardente adepto do Benfica, alguém que, não sendo obviamente do mundo das partituras e das melopeias, tem notabilidade no mundo das artes. Importa aditar que este malcontente benfiquista sempre foi um adepto incondicional de Jorge Jesus, o que ajuda a captar melhor o alcance da alegoria em que envolveu Herbert Von Karajan. Mas o seu dolorido e cândido desabafo tem mais autenticidade porque não espelha apenas a dor pelas desventuras somadas pelo Benfica nas últimas semanas, antes a posição de quem há muito percebeu que o Benfica tinha um problema. Claro que nos últimos dias saíram, debaixo das pedras, uma série de repentinos censores que esquecem as loas recentes, acusam a estrutura de aburguesamento e até já exigem o despedimento do treinador, se perder o segundo lugar. A lógica destes últimos é a habitual: se não podemos melhorar o que causa a febre, pelo menos temos de melhorar a qualidade do termómetro… Falhar o inédito "penta" para um FC Porto em risco de insolvência, perder para os portistas os mais de 40 milhões (contando com novas verbas que advirão do ranking na UEFA) que só a presença na fase de grupos da Champions poderia representar à partida e ficar atrás do impugnador Sporting tornou-se um cenário que, para os benfiquistas, tem hoje tanto de macabro como de verosímil.

Primeiro ponto a reter: o problema existe porque a SAD talvez nunca tenha percebido que o sucesso, como diria Kissinger, resulta de cem pequenas coisas feitas de forma um pouco melhor e o insucesso de cem pequenas coisas feitas de forma um pouco pior. Claro que é legítimo que uma administração abdique de um treinador com um registo de sucesso muito interessante por preferir alguém menos reivindicativo e que olhasse sem desconfiança para o Seixal. Mas pensar que não haveria redução de capacidade quando se trocava titulares como Ederson, Nélson Semedo, Lindelof, Mitroglou e Gonçalo Guedes por jovens ainda com o ovo na cabeça (Svilar, Kalaica, Diogo Gonçalves e João Carvalho) ou sem provas dadas (Pedro Pereira, Hermes, Chrien) fez tanto sentido como tentar vender raspadinhas numa funerária. E as apostas em Douglas e Gabriel Barbosa também não acrescentaram nada a uma equipa que nunca teve soluções credíveis para a baliza e para várias posições da defesa ou uma alternativa aceitável para Fejsa. Ou seja, soluções nada de acordo com quem se gabava de estar dez anos à frente da concorrência.

Mas, sendo verdade que o plantel perdeu qualidade e variedade de soluções no sector defensivo, mantenho a opinião de que o Benfica continuava a ter um conjunto de jogadores de primeiríssima água, perdendo talvez apenas na comparação (e por pouco) para o Sporting. Acresce que o Benfica foi a pior equipa da Liga dos Campeões, tendo apenas de se preocupar, durante cinco meses, com a liga portuguesa, porque nas taças internas também esteve abaixo do mínimo exigível. E é a partir daqui que fica impossível não questionar os méritos de Rui Vitória. Não tanto pelas escolhas estratégicas (como o jogo especulativo utilizado frente ao FC Porto) e as opções duvidosas (como a não inscrição, na Champions, de Krovinovic, cuja aposta demorou em demasia, o ostracismo a que chegou a ser vetado Zivkovic e até o próprio Rafa, que precisa é de treino de finalização de qualidade, ou o regresso do provecto Luisão, após 19 jogos fora). Isso foram situações importantes, mas pontuais, e bem mais decisivo é o desfalque que o Benfica vem sofrendo no seu desempenho coletivo desde há quase três épocas. Basta estar atento para se perceber que, por exemplo, a organização defensiva é cada vez menos fiável e que o ataque funciona cada vez mais em função da inspiração individual. A mudança para o 4x3x3, a certa altura, ainda deu para disfarçar um pouco as maleitas (viram-se então algumas associações interessantes e bem trabalhadas, especialmente na esquerda), mas a moléstia nunca foi totalmente resolvida. Daí que não se possa reduzir os seis pontos desperdiçados (em 12 possíveis) apenas às ausências forçadas de Jonas, bastando, como resposta, sublinhar que o Benfica sofreu três golos na Luz do Tondela.

Em março, Luís Filipe Vieira tinha garantido que o treinador iria continuar, independentemente de conquistar ou não o pentacampeonato, o que até é uma posição mais aceitável do que estabelecer agora que o terceiro lugar (ou até o quarto…) lhe custará o cargo. Porque, para o Benfica, mais importante do que o resultado do próximo duelo em Alvalade será o presidente analisar e descobrir se o atual treinador tem margem de evolução suficiente – e uma forma de o conseguir até poderia ser melhorar e dar mais valências à restante equipa técnica. A resposta a essa questão é que devia definir o futuro de Rui Vitória, mais do que a minudencia de um resultado.



Cinco estrelas - O Barça é bárbaro
Um hat-trick de Messi ajudou o Barça a vencer o seu 25º título e a confirmar-se como o grande dominador da liga espanhola no século XXI, com 9 títulos em 18 anos, incluindo 7 nas últimas 10. Valverde mudou e (também) ganhou.

Quatro estrelas - Wenger nunca perdeu
A homenagem que Ferguson, Mourinho e todo Old Trafford prestaram a Wenger foi apenas uma lição, entre tantas, dada pelo futebol inglês. Justo para quem nos deleitou, mesmo quando insistia em perder.

Três estrelas - Real Fair-play Clube
O fair-play não se apregoa, pratica-se, como fez o Real Madrid quando, através do Twitter, deu os parabéns ao Barça por mais um título e mais uma Taça do Rei. Ora aí está uma moda que devia contagiar-nos…

Duas estrelas - Nápoles tropeça em Simeone
Giovanni Simeone deve ter estragado o sonho do Nápoles e de quem gosta do bom futebol de Sarri. O filho do técnico do A. Madrid marcou os três golos da vitória à Fiorentina. A Juve respira de alívio.

Uma estrela - Bis negativo de Montella
Despedido do Milan, Vincenzo Montella também não resistiu aos maus resultados no Sevilha (entrou no final de 2017). Sete jogos sem vencer, as eliminações na Champions e na Taça do Rei marcaram o destino de um técnico que gosta de jogar bonito.





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