Ludopédio

Bruno Prata
Bruno Prata

Uma escala acima de outros génios

Quando a luminosa Times Square paralisa para observar a bola a planar sobre a cabeleira de Busquets (antes de entrar como um relâmpago na baliza) e até os insuspeitos ‘The New York Times’ e ‘The Wall Street Journal’ dão as honras da imagem na primeira página a uma façanha futeboleira fica claro que Ronaldo já não é apenas um membro da restrita lista dos mais supernos desportistas mundiais. De facto, tornou-se um ícone exclusivo não só por ser já o melhor finalizador da história do futebol mundial, mas também por ser capaz de inventar coisas raras nos momentos mais solenes e determinantes. E é essa voracidade e essa autoconfiança quase insolente que o fazem estar, muitas vezes, uma escala acima de outros génios com moral mais quebradiça. Ronaldo gosta de se exibir nas melhores passerelles, em que outros ficam encalhados. E é também nisso que o português marca a diferença.

Frente à Espanha, Ronaldo maquilhou o jogo insatisfatório que Portugal ofereceu, após aquela entrada prometedora no primeiro quarto de hora. Depois, saltaram à vista as dificuldades na gestão do jogo e no controlo da bola, reflexo de uma equipa que parece bloquear psicologicamente quando se lhe pede que não viva apenas das transições, mas também de alguma organização. Confirmaram-se também as debilidades numa organização defensiva com excesso de referências individuais (o que condicionou em muito o jogo, por exemplo, de Bernardo Silva e Bruno Fernandes) e com um bloco passivo e demasiado recuado – José Fonte parece estar sempre com receio que a bola lhe entre nas costas e não disfarçou as marcas do tempo quando Diego Costa dançou à sua frente. O próprio Fernando Santos teve a franqueza de assumir vários destes pecados. Mas não é talvez ainda o momento de tirar grandes ilações, desde logo porque a Espanha era, como é óbvio, um adversário fortíssimo e com características e méritos muito próprios. Haverá tempo para Portugal crescer nos próximos dois jogos frente a Marrocos e ao Irão. E, convenhamos, não será assim muito diferente entre terminar o grupo no primeiro ou no segundo lugares, até por ser discutível se é mais complicado defrontar, sucessivamente, a Rússia (ou o Egipto), a Argentina e a Alemanha ou, em alternativa, o Uruguai, a França e o Brasil.
Fixemo-nos, por agora, então apenas na admirável atitude competitiva de CR7. O impacto que ele cria na equipa quando sai para a pista só tem paralelo nos números e na assombrosa produção de golos que espelham suficientemente o grau de intimidação que ele exerce sobre os adversários. No dia em que se soube que aceitou pagar 18,8 milhões de euros para saldar as contas com as finanças espanholas, marcou o 51º hat trick da sua carreira e tornou-se no primeiro futebolística a apontar golos em oito fases finais de campeonatos europeus (2004, 2008, 2012 e 2016) e mundiais (2006, 2010, 2014 e 2018).

Nunca havia marcado à Espanha, recordava-se antes do jogo. E também nunca marcara de livre no conjunto de todos os europeus e mundiais, num total de 44 tentativas. De facto, já não marcava de livre desde há meio ano, quando a 16 de dezembro bateu o guarda-redes do Grémio de Porto Alegre, no Mundial de Clubes. Mas não se limitou a ultrapassar apenas essas barreiras: marcou três golos em apenas quatro tentativas, quando nos anteriores quatro mundiais tinha marcado o mesmo número de golos em 70 remates.

"Quando Ronaldo está ao seu melhor nível, tudo é possível", explicava Bernardo Silva no final. O pequeno prodígio tem toda a razão, porque CR7 voltou a ter características que já não lhe revíamos há um bom par de anos. A sua figura voltou a estar esguia, como nos tempos em Manchester: nas últimas épocas perdeu um quilo por ano para melhor combater a perda de velocidade. Voltou aos 84 kg, a massa gorda está nos 7% (o normal é 10/11% num atleta de elite), mas a massa muscular ronda os 50% (o normal vai até aos 46%). Nesta gestão foi também importante o facto de Zidane o ter convencido de que também é humano e não pode jogar os jogos todos. Resultado: ganhou em explosão, elasticidade e impulsão, como se viu naquele maravilhoso pontapé de bicicleta em Turim. E está mais rápido: aumentou de 30 para 32 kms/h a velocidade de ponta, e frente ao Espanyol atingiu mesmo os 33,6 km/h. E este trabalho de apuro físico permitiu também reconverter-se como jogador e voltar a ser mais participativo do ponto de vista coletivo. No particular com a Argélia, por exemplo, fez 18 passes de construção e três para finalização e nos últimos 12 jogos antes do Europeu tinha feito seis assistências. Estes números, bem como a exibição frente à Espanha, em que teve diversas ações desaproveitadas principalmente por Gonçalo Guedes, desmentem a tendência para se tornar apenas num finalizador. E confirmam a sua ‘eternidade’…


FIFA tem mais olhos que barriga

Quem observou com atenção a indigente prestação da Arábia Saudita no jogo de abertura, frente à anfitriã Rússia, não pode ter deixado de se interrogar sobre a vontade da FIFA de voltar a aumentar o número de países participantes no Mundial. A globalização do futebol é uma ideia que faz sentido, mas querer aumentar o mercado e as receitas televisivas e publicitárias a todo o custo é uma via muito perigosa. Pode matar a galinha dos ovos de ouro.


Golovin transpira talento

Denis Cheryshev, o ala esquerda do Villarreal que não ia à seleção russa há dois anos, saltou do banco para marcar dois golos, um deles com uma ‘trivelada’ impressionante, e recebeu o prémio de melhor em campo, num jogo que serviu para a Rússia lamber as feridas. Mas quem vê o jogo acima da espuma confirmou que a figura da equipa é Golovin, o polivamente médio do CSKA que já tinha sido uma das revelações na Taça das Confederações. Tem talento para dar e vender e, agora com 22 anos, o seu jogo está cada vez seguro e com melhor critério.



Dinamarca também é de Sisto

O Peru pagou a sua falta de eficácia finalizadora com uma derrota frente a uma Dinamarca que já se sabia ter um craque (Eriksen) e uma propensão histórica para o futebol pouco estético e assente na dimensão física. Até por isso se notou mais a presença do afrodescendente Pione Sisto, um pequeno (1,71m) jogador com uma história invulgar: nasceu há 23 anos num campo de refugiados no Uganda e tinha nacionalidade sudanesa, antes de se naturalizar pela Dinamarca, onde sempre jogou até se mudar, há dois anos, para o Celta de Vigo.



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