O canto do Morais

Carlos Barbosa da Cruz
Carlos Barbosa da Cruz Advogado

Reflexões sobre dinheiro e futebol

1. Há uns anos achava o Manuel Machado insuportável, com a sua linguagem arrebicada de futebolês, a ponto de o Miguel Esteves Cardoso o ter considerado o pai de um novo dialeto da língua portuguesa, o "manuelmachadês".

Com os anos, Manuel Machado foi-se deixando desses pretenciosismos e tornou-se uma voz inteligível e respeitada.

E, a propósito da derrota do Moreirense, que agora treina, no jogo com o Porto, Manuel Machado limitou-se a considerar o resultado natural e inevitável, comparando o orçamento anual da sua equipa de três milhões de euros, com qualquer dos três grandes, todos para cima dos cinquenta milhões.

Manuel Machado pôs o dedo na ferida; o três grandes açambarcam o dinheiro da UEFA, os direitos de transmissão e os patrocínios mais relevantes e numa economia débil como a portuguesa, o que fica para os outros são migalhas, que mal dão para a subsistência.

No futebol, ao contrário do que diz a sabedoria popular, o dinheiro normalmente traz felicidade e a comprová-lo está o fosso cada vez maior entre os grandes e os outros. Talvez o Rio Ave, este ano, se distinga, mas esta equipa é um epifenómeno, que tem mais a ver com as reservas do empresário Jorge Mendes, do que com recursos próprios.

O campeonato português está em riscos de se tornar uma sensaboria, com apenas seis jogos que interessam, e os restantes para tomar balanço.

Em minha opinião, há que pensar seriamente no tema da redistribuição de recursos, se não queremos acabar como a Escócia.

2. Sempre tive admiração pela UEFA como a casa da inclusão do espaço europeu no futebol, muito à frente da política e das conveniências.

Com a UEFA, não houve a cortina de ferro na guerra fria, países politicamente controversos como a Albânia e Israel, foram admitidos a competir e hoje em dia, até soberanias limitadas com as Ilhas Faroe, São Marino e Gibraltar, disputam o Europeu.

E, do mesmo modo, é de realçar o modo eficaz como implementou políticas estruturantes, como a guerra ao racismo, o fair-play financeiro ou o combate ao match-fixing. Para não falar no sucesso desportivo e financeiro da Champions League.

Só que a UEFA, agora, está a falhar, por omissão, em toda a linha.

Explico porquê; está a assistir-se na Europa, a um fenómeno de super-capitalização de algumas equipas, que as dotam de capacidade financeira imbatível, para ir buscar os melhores jogadores.

O futebol está a tornar-se um imenso casino, onde até o oligarca russo que é dono do Mónaco, faz figura de parente pobre perante os clubes apoiados por fundos soberanos ou investimentos politicamente motivados.

É preciso que a UEFA acuda a este movimento de compra de títulos, porque é disso que se trata, uma vez que contende com a essência da competição desportiva, que tanto apregoa defender.

A solução é fácil; basta colocar um limite máximo naquilo que uma equipa pode gastar por ano, ou uma fasquia no valor máximo do plantel.
Faltará a coragem de o fazer.

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