O canto do Morais

Carlos Barbosa da Cruz
Carlos Barbosa da Cruz Advogado

Uma questão de literacia

1. José Calado tinha 56 anos e era adepto do Sporting. Morreu assassinado por um adepto do Benfica, de 54 anos, domingo passado, após o jogo com o FC Porto.

Desconheço as circunstâncias do homicídio, mas tudo leva a crer que foi o desfecho funesto de uma discussão mais acalorada. Não é a discussão que interessa – quem não as teve –, o que impressiona é que, em Portugal, no século XXI, se mate por causa do futebol.

Percebo mais a violência que existia no campo, no século passado, por motivo de questões de serventia de águas, indispensáveis para o trabalho agrícola, que alguém tire a vida a outro, numa banal querela de café e por mero delito de opinião.

2. No jogo de Portimão, que ainda hoje me custa engolir, uma coisa me entristeceu e incomodou, ainda mais do que o resultado. Havia na claque do Sporting, uma visível tarja a exigir a libertação dos presos preventivos, por motivo da invasão da Academia de Alcochete, em maio passado.

Essa exigência é duplamente inexplicável. Em primeiro lugar, porque a detenção preventiva já foi confirmada pelo tribunal da Relação, o que reforça a sua justeza. Em segundo lugar, porque não vislumbro qual o motivo atendível para libertar pessoas sobre quem impendem fundadas suspeitas da prática de crime violento, cobarde e hediondo pela forma como foi perpetrado e que reúnem todos os pressupostos legalmente estatuídos para esta medida de coação. Que se peça o seu julgamento, ainda compreendo; agora a sua libertação?

Nestas páginas, sempre tenho defendido a coesão e reconciliação da família sportinguista, sobretudo depois dos anos negros da intolerância do consulado brunista; não sinto, contudo, qualquer tipo de leniência, relativamente aos crimes de Alcochete, que me indignam e revoltam enquanto cidadão e sobretudo, enquanto sportinguista. Espero, confiadamente, que a Justiça identifique e puna severamente os responsáveis.

Às vezes parece que o futebol é um mundo à parte, onde os valores e princípios normais da vida comum, como o respeito e a sã convivência não vigoram.

Pelos vistos, há ainda muito trabalho a fazer para que o futebol seja encarado e valorado na dimensão que é a sua e que fenómenos como aqueles que hoje referi – e muitos outros infelizmente se poderiam adicionar – sejam erradicados. Os valores do futebol são a vida, a competição e a paz; não o seu contrário.
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