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Daniel Sá
Daniel Sá Diretor Executivo do IPAM

2025 em revista: um ano inteiro a olhar para o desporto como uma indústria

O ano de 2025 confirmou, mais uma vez, que o desporto já não vive apenas no jogo – vive na economia, na tecnologia, na cultura e no comportamento social. Ao longo de dezenas de crónicas, procurei analisar ao longo deste ano esta transformação constante, cruzando dados, tendências e casos concretos que mostram como o desporto se tornou um ecossistema global em aceleração permanente.

Começámos o ano com a análise ao impacto da globalização do futebol português, analisando o crescimento do investimento estrangeiro nas SAD, a multipropriedade e a profissionalização das estruturas. Mostrei como este fenómeno está a reposicionar o futebol nacional num mercado internacional exigente, mas também como levanta desafios de governança, transparência e sustentabilidade.

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Ligando este tema ao consumo cultural, dediquei uma crónica à comparação entre uma ida ao futebol e ao cinema em Portugal – preço, conforto, serviços, experiência e previsibilidade – e concluí que, para competir por atenção e rendimento disponível, os clubes terão de oferecer muito mais do que noventa minutos de jogo. A experiência é, hoje, o produto.

Essa ideia regressaria mais tarde quando discuti a proibição da venda de álcool nos estádios portugueses. Defendi que é tempo de rever a legislação, citando exemplos internacionais de enorme sucesso. O caso do cocktail Honey Deuce no US Open foi o mais ilustrativo: 738.459 unidades vendidas a 23 dólares cada, num total impressionante de 17 milhões de dólares, transformando uma simples bebida num símbolo do torneio e num ativo económico poderoso. Um estádio moderno precisa de produtos exclusivos, memoráveis e com margem – e Portugal está atrasado nessa corrida.

Ao longo do ano, falei também da moda no desporto, com destaque para o Venezia FC, talvez o melhor caso europeu de como os equipamentos podem evoluir de uniforme para objeto cultural. A colaboração com marcas de moda, a estética cuidada das campanhas e a utilização de Veneza como cenário transformaram um clube modesto numa marca global que vive tanto nas passerelles como nos relvados. A tendência é clara: o adepto já não compra apenas a camisola do clube, compra identidade, estilo e pertença.

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A nível internacional, 2025 foi o ano em que analisámos a estratégia desportiva da Arábia Saudita, que transformou o desporto num instrumento de projeção global, diplomacia e diversificação económica. O impacto do PIF atravessou futebol, golfe, desportos motorizados e eSports, mostrando que o futuro do desporto estará inevitavelmente ligado a novos centros de poder económico capazes de investir em larga escala, atrair atletas e comprar ativos estratégicos. Quase em paralelo, discutimos a compra da EA Sports por um consórcio liderado pelo PIF, a maior aquisição da história da indústria de videojogos, e o que isso revela sobre a convergência entre gaming, espetáculo e desporto.

Na área dos protagonistas, destacámos a força da marca José Mourinho que agora regressou a Portugal. Não pela tática ou pela carreira, mas pela sua dimensão enquanto ativo comercial, mediático e global. Mourinho é um caso raro de treinador cuja visibilidade, influência e valor de marca ultrapassam o campo desportivo, com impacto direto em audiências, patrocínios e posicionamento de clubes e ligas. Mostrei como a sua presença multiplica a atenção mediática e gera receitas que vão muito além do que acontece no banco.

No ciclismo, analisámos a performance extraordinária de João Almeida na Vuelta 2025 – segundo lugar, vitória no Angliru e impacto mediático internacional – e como os protestos pró-Palestina que interromperam a última etapa afetaram patrocinadores, direitos televisivos e visibilidade dos atletas. Foi um exemplo claro de como o desporto, mesmo quando não quer, está sempre exposto às tensões sociais e políticas do mundo.

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Um dos momentos altos do ano foi também o regresso anunciado da Fórmula 1 a Portugal, tema que associei ao crescimento global do negócio da F1. Mostrei como a competição vive um período de prosperidade histórica, com 677 milhões de dólares em patrocínios ao nível da série, mais de 2 mil milhões entre as equipas e uma transformação cultural promovida pela Liberty Media que tornou a modalidade num fenómeno transversal a moda, música, lifestyle e tecnologia. O regresso do Grande Prémio a Portugal não é apenas desportivo – é económico, turístico e reputacional.

E, claro, tivemos espaço para refletir sobre grandes eventos internacionais como o US Open, a final da Champions, a dinâmica dos mercados de merchandising, os novos modelos de conteúdo nas redes sociais e as mutações no comportamento dos adeptos numa era dominada por digitalização, inteligência artificial e consumo fragmentado. Cada artigo procurou reforçar a ideia central que tem guiado estas crónicas ao longo dos últimos anos: o desporto é, antes de tudo, uma poderosa indústria cultural, económica e emocional – e só quem o entender como tal estará preparado para o futuro.

2025 foi um ano cheio de casos, dados, protagonistas e transformações. Em 2026, continuaremos a acompanhar o que muda, o que importa e o que realmente explica o desporto para lá do resultado.

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Por Daniel Sá
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