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O Estrela da Amadora foi comprado por 72 mil euros em 2020. Seis anos depois, 90% da SAD é vendida por 40 milhões. Pelo meio, o clube saiu do Campeonato de Portugal, regressou à Primeira Liga e recuperou relevância desportiva. Pode discutir-se o preço, o comprador ou o futuro. Mas há uma conclusão impossível de ignorar: o futebol português entrou definitivamente no mercado global de ativos desportivos.
O grupo comprador é alemão e integra nomes conhecidos como Thomas Müller, Mats Hummels e Yann Sommer. Johannes Mösmang deverá assumir a presidência da SAD, Francisco Lopo continuará como CEO e o clube preserva 10% do capital. Não se trata apenas da entrada de antigos e atuais jogadores num projeto. É mais um sinal da transformação dos atletas em investidores e dos clubes em plataformas de negócio.
A operação impressiona pela valorização. Passar de 72 mil para 40 milhões de euros não significa, de forma simplista, que o investimento inicial se multiplicou mais de 500 vezes, porque houve capital, gestão, risco, estrutura e seis anos de trabalho pelo meio. Mas mostra como um clube pode recuperar valor quando junta promoção desportiva, estabilidade competitiva, acesso à Primeira Liga, localização estratégica e potencial de valorização de jogadores.
O Estrela não foi comprado apenas pelo passado. Foi comprado pelo futuro.
Está na área metropolitana de Lisboa, compete numa liga que ocupa o sexto lugar do ranking da UEFA, opera num país reconhecido pela formação e comercialização de talento e pode funcionar como porta de entrada para mercados maiores. A Liga portuguesa reúne plantéis avaliados em cerca de 1,8 mil milhões de euros, mas mantém clubes acessíveis em comparação com as grandes ligas. Para o investidor internacional, Portugal oferece uma combinação rara: talento, exposição europeia, custos relativamente controlados e uma indústria especializada em comprar, desenvolver e vender jogadores.
O fenómeno ultrapassa a Amadora. Segundo a Deloitte, o capital continua a entrar no desporto e os investidores estão a abandonar o modelo do proprietário romântico ou passivo. Procuram organizações onde possam intervir na operação, explorar dados, conteúdos, direitos de media, instalações, relações comerciais e desenvolvimento de talento. O clube isolado começa a dar lugar ao portefólio integrado.
Esta mudança pode trazer capital, conhecimento internacional, profissionalização e capacidade de crescimento. O Estrela precisa desses recursos para consolidar-se na Primeira Liga, desenvolver infraestruturas e deixar de viver exclusivamente sob a ameaça permanente da descida. Condenar o investimento estrangeiro apenas por ser estrangeiro seria tão superficial como celebrá-lo apenas porque vale 40 milhões.
O dinheiro é o início da conversa. Não é a resposta.
A questão decisiva é saber que valor os novos acionistas pretendem criar. Será o Estrela desenvolvido como clube competitivo, marca relevante e instituição ligada à Amadora? Ou será sobretudo utilizado como plataforma de circulação e valorização de jogadores? Haverá investimento no estádio, na formação, na experiência dos adeptos e na relação com a comunidade? Ou o principal indicador será o resultado financeiro obtido numa futura venda?
Os adeptos continuam a pensar em camisolas, memórias e pertença. Os investidores pensam cada vez mais em ativos, rentabilidade, sinergias e valorização. Nenhuma destas perspetivas é ilegítima. O desafio está em impedir que se tornem incompatíveis.
O futebol português precisa de investimento. Mas também precisa de transparência, governação, estratégia e mecanismos que protejam aquilo que não aparece nos balanços. Uma SAD pode ser vendida. A identidade do clube não deveria estar incluída no negócio.
A venda do Estrela não responde apenas à pergunta sobre quanto vale um clube português. Coloca uma questão muito mais importante: quando o futebol passa das mãos dos dirigentes para os portefólios dos investidores, quem fica verdadeiramente a mandar?
Porque comprar um clube é relativamente simples. Difícil é perceber que há coisas que nunca deviam estar à venda.
Por Daniel Sá