Daniel Sá
Daniel Sá Diretor Executivo do IPAM

Andebol e futsal dão o palco. Porque continuamos a vender‑nos como amadores?

Durante este mês de janeiro, Portugal entrou simultaneamente em dois palcos onde soma respeito competitivo e atenção mediática: o Europeu de andebol, disputado entre 15 de janeiro e 1 de fevereiro na Dinamarca, Noruega e Suécia, e o Europeu de futsal, entre 21 de janeiro e 7 de fevereiro na Eslovénia, Letónia e Lituânia. Trata-se de um arranque de ano que coloca as Seleções Nacionais no centro da agenda e abre espaço a uma conversa maior: estamos a capitalizar comercialmente esta relevância competitiva ou continuamos a vender abaixo do nosso valor real?

Num calendário global saturado, estes torneios colocam Portugal no ecrã certo, na hora certa, com jogos em janelas europeias de alta afinidade e com potencial de cross-selling para patrocinadores e media digitais; a questão não é se há audiência, é se a transformamos em receita, dados e fidelização de longo prazo.

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O andebol chega a 2026 com um capital simbólico adicional: o quarto lugar no Mundial'2025 elevou as expectativas e consolidou a perceção de Portugal como presença regular entre as melhores seleções, com nomes que o público já reconhece e que a comunicação pode (e deve) trabalhar como ativos de marca: Martim Costa e Francisco Costa, são exemplos óbvios de um produto desportivo com história, carisma e métricas de performance, enquanto Rui Silva ou Gustavo Capdeville compõem um núcleo de referência que permite construir narrativas de continuidade e maturidade competitiva.

Esta ancoragem de storytelling é ouro para patrocinadores que procuram associar-se ao talento nacional com prova social e para broadcasters que precisam de histórias para além do resultado. O torneio decorre em países com tradição de consumo de andebol, o que significa janelas de exportação de marca Portugal e, se houver estratégia, possibilidade de ativação dirigida à diáspora e aos nichos B2B desses mercados.

No futsal, Portugal carrega um estatuto incrível: bicampeão europeu em 2018 e 2022, campeão mundial em 2021 e com a hipótese de um tricampeonato inédito nesta edição, um posicionamento que, do ponto de vista de marketing, permite precificar melhor inventário, exigir KPIs de conversão nas ativações e negociar conteúdos premium de bastidores para OTT e plataformas sociais.

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O calendário joga a nosso favor: os jogos do Europeu de futsal encaixam entre as fases da Liga dos Campeões e antes do Super Bowl, evitando o 'tsunami' mediático de fevereiro e permitindo janelas de pico em mercados lusófonos e de emigrantes. Em termos de produto, o futsal oferece aquilo que o mercado digital quer: ritmo alto, highlights abundantes, probabilidade elevada de clipes virais e um ciclo de conteúdos que se estende para lá dos 40 minutos regulamentares.

O que ainda falta? Métrica e ambição. A maioria dos patrocínios nestas modalidades continua a ser vendida como visibilidade, quando deveria ser vendida como performance: custo por contacto qualificado, incremento de notoriedade em segmentos jovens, uplift de vendas por código promocional, crescimento de base dos adeptos captados no ciclo competitivo.

Há um último ponto estratégico: a internacionalização. O Europeu de andebol joga-se em casas que respiram a modalidade; o Europeu de futsal dispersa-se por três países que procuram consolidar o produto; em ambos os casos, Portugal tem espaço para negociar conteúdos em inglês e espanhol, vender pacotes de hospitalidade para empresas e, sobretudo, experimentar modelos de distribuição digitais que testem novos conteúdos pera segmentos específicos de adeptos.

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É aqui que se decide se continuamos a depender do futebol para financiar o ecossistema ou se usamos janeiro para provar que modalidades com identidade própria conseguem sustentar um plano de negócios moderno. As seleções já estão dentro do campo a fazer a sua parte; do lado do marketing, a bola também é nossa.

Por Daniel Sá
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