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Daniel Sá
Daniel Sá Diretor Executivo do IPAM

O Mundial no telemóvel

Durante décadas, acompanhar um Mundial era simples: ligar a televisão e ver o jogo. No tempo do Eusébio, em 1966, muitos portugueses ouviram os relatos na rádio e leram as crónicas nos jornais. No tempo do Ronaldo, em 2026, o futebol já não se consome assim. O futebol vive hoje em vários ecrãs ao mesmo tempo, e isso está a mudar profundamente o seu impacto económico.

O estudo que desenvolvemos no IPAM mostra que cerca de 23% do impacto económico do Mundial 2026 já vem do digital. Isto significa que quase um em cada quatro euros gerados pela competição não está ligado a restaurantes, cafés ou merchandising tradicional, mas a plataformas, redes sociais e conteúdos online.

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Na prática, o que é isto do consumo digital do futebol?

É o adepto que vê o jogo na televisão e, ao mesmo tempo, comenta no X, no Instagram, no TikTok ou em grupos de WhatsApp. É quem partilha vídeos de golos, quem consome resumos no YouTube, quem vê highlights no telemóvel enquanto está no comboio ou no intervalo do trabalho. É quem segue a Seleção, os jogadores e os clubes através das redes sociais e das apps dos media.

Pode parecer que aqui não há dinheiro envolvido, mas há. E muito. Está na publicidade digital, nos conteúdos patrocinados, nas parcerias com plataformas, nos dados e, sobretudo, no tempo de atenção. Cada visualização, cada comentário, cada partilha gera valor económico, mesmo que não seja tão visível como uma mesa cheia num restaurante.

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Em Portugal, este fenómeno é fácil de reconhecer. Basta olhar para um dia de jogo da Seleção. O jogo pode estar na RTP, na Sport TV ou numa plataforma de streaming, mas o telemóvel não sai da mão. As notificações chegam da RTP Play, da app da Sport TV, do Record, do Maisfutebol, ou do Zerozero. Circulam vídeos no Instagram, comentários no X, memes no TikTok e discussões intermináveis no WhatsApp. As marcas estão lá, integradas na conversa, não apenas nos intervalos.

É por isso que as plataformas digitais e o streaming já representam cerca de 10% do impacto económico, a interação nas redes sociais outros 7%, e a chamada content economy como vídeos, memes e conteúdos criados pelos próprios adeptos cerca de 6%. Isto é novo. E veio para ficar.

O mais interessante é que o adepto digital não precisa de gastar muito dinheiro de forma direta. Pode até ver o jogo em casa, sem sair. Mas gera valor porque prolonga o jogo para lá dos 90 minutos. O futebol começa antes do apito inicial e continua muito depois do apito final.

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Hoje, o jogo não acaba quando o árbitro termina a partida. Continua nos comentários, nos vídeos, nas discussões e nos conteúdos que circulam durante horas ou dias. É essa atenção prolongada que faz crescer o impacto económico.

O futebol deixou de ser apenas um espetáculo para ser visto. Passou a ser um fenómeno para ser vivido, comentado e partilhado.

E é isso que explica porque o consumo digital já é uma das grandes forças económicas do futebol moderno. O Mundial de 2026 vai jogar-se em três países. Mas uma parte importante do seu valor vai ser criada nos ecrãs, e nos dedos, dos adeptos portugueses.

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Por Daniel Sá
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