Nunca houve tanto desporto disponível. E talvez nunca tenha sido tão caro consumi-lo.
Durante décadas, ser adepto era relativamente simples. Comprava-se um bilhete para o estádio, subscrevia-se um canal de televisão e apoiava-se o clube do coração. Hoje, a experiência é muito diferente. Para acompanhar uma equipa, uma modalidade ou uma competição, o adepto tem de navegar entre múltiplas plataformas, serviços de streaming, subscrições, aplicações, merchandising, programas de sócio e experiências premium. A paixão continua a ser a mesma. A fatura é que mudou.
O fenómeno não acontece apenas em Portugal. A indústria global do desporto vive um momento paradoxal. Nunca houve tantas formas de chegar aos adeptos e nunca se investiu tanto em melhorar a experiência do consumidor. Ao mesmo tempo, nunca o desporto esteve tão segmentado economicamente. O que antes era um produto massificado está a transformar-se, gradualmente, num conjunto de produtos diferenciados para diferentes capacidades de pagamento.
Basta olhar para o que aconteceu nos últimos anos. Os direitos televisivos cresceram para valores históricos. As plataformas de streaming multiplicaram-se. Os clubes descobriram novas formas de monetização. Os estádios passaram a dedicar áreas cada vez maiores à hospitalidade corporativa e às experiências premium. O adepto deixou de ser apenas espectador para se transformar num cliente com diferentes níveis de acesso.
Do ponto de vista do negócio, a lógica é compreensível. As organizações desportivas procuraram novas fontes de receita para responder ao aumento dos salários, dos custos operacionais e da concorrência global. O problema é que cada nova fonte de receita representa, muitas vezes, mais uma despesa para o consumidor.
Hoje, um adepto que queira acompanhar várias competições pode ter de acumular diferentes subscrições. Se quiser assistir aos jogos ao vivo, comprar uma camisola oficial, deslocar-se ao estádio algumas vezes por época e consumir conteúdos exclusivos, o investimento anual pode facilmente ultrapassar aquilo que muitas famílias estão dispostas ou são capazes de suportar.
É aqui que surge uma questão que a indústria do desporto ainda não está a discutir suficientemente. O que acontece quando a paixão começa a ficar demasiado cara? A resposta pode não surgir imediatamente, mas os sinais já são visíveis.
Muitos consumidores não abandonam o desporto. Mudam apenas a forma de o consumir. Veem resumos em vez de jogos completos. Seguem conteúdos gratuitos nas redes sociais. Acompanham atletas individuais em vez de competições inteiras. Substituem presença física por experiência digital. Procuram alternativas mais acessíveis para continuar ligados àquilo de que gostam.
Paradoxalmente, a tecnologia que prometia democratizar o acesso ao desporto também contribuiu para a sua fragmentação. O consumidor tem hoje mais oferta do que nunca. Mas para usufruir de toda essa oferta precisa, frequentemente, de pagar várias vezes.
A situação torna-se ainda mais sensível quando analisamos as novas gerações. Os jovens têm hoje à sua disposição um universo praticamente infinito de entretenimento. O futebol, o basquetebol ou a Fórmula 1 já não competem apenas entre si. Competem com Netflix, YouTube, TikTok, videojogos, podcasts e milhares de criadores de conteúdo. Quando o custo de entrada aumenta e as alternativas se multiplicam, a fidelização deixa de ser garantida.
Isto não significa que o desporto esteja em crise. Pelo contrário. A procura continua forte, as audiências mantêm relevância global e as grandes competições continuam a mobilizar milhões de pessoas. O problema é outro. A indústria parece assumir que os adeptos vão continuar a pagar cada vez mais porque sempre pagaram.
Essa é uma aposta perigosa.
O verdadeiro valor do desporto sempre esteve na sua capacidade de unir pessoas de diferentes idades, origens e rendimentos em torno das mesmas emoções. Se essa experiência se transformar gradualmente num privilégio acessível apenas a determinados segmentos, o desporto corre o risco de perder uma das características que o tornou único.
A questão central não é saber se os clubes, ligas e competições devem ganhar dinheiro. Devem. A questão é saber até que ponto a monetização pode avançar sem enfraquecer a relação emocional que sustenta todo o sistema.
Porque os adeptos são muito mais do que consumidores. São o ativo que nenhuma organização consegue comprar. E talvez a pergunta mais importante para o futuro da indústria não seja quanto vale um adepto. Mas quanto tempo continuará o adepto disposto a pagar para o ser.
Por Daniel Sá