Daniel Sá

Daniel Sá Diretor Executivo do IPAM

Os adeptos não são todos iguais

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Durante muito tempo falámos dos adeptos como se fossem todos iguais. Quem gosta de futebol vê futebol. Mas o estudo que desenvolvemos no IPAM sobre o impacto económico do Mundial 2026 mostra que essa ideia já não corresponde à realidade.

Hoje existem diferentes tipos de adeptos, com comportamentos muito distintos. E essa diferença explica onde e como o futebol gera dinheiro.

O primeiro perfil é o adepto casual. É aquele que aparece nos grandes momentos. Vê os jogos da Seleção, sobretudo quando são decisivos, junta-se à família ou aos amigos e escolhe o café do bairro ou a sala de casa. Compra cervejas no supermercado, uns petiscos, talvez uma pizza, e pouco mais.

Se o entusiasmo crescer, pode comprar uma camisola da Seleção numa loja da Sport Zone ou da Decathlon. No total, este adepto pode gastar entre 40 e 100 euros durante o Mundial. Parece pouco, mas são muitos. É este perfil que enche cafés, aumenta o consumo de marcas como Super Bock, Sagres, Sumol, Continente, Pingo Doce ou Lidl nos dias de jogo.

Depois há o adepto intensivo. Este vive o Mundial todos os dias. Vê vários jogos, mesmo quando Portugal não joga. Organiza jantares em casa, vai mais vezes a restaurantes, acompanha debates, compra merchandising oficial, coleciona cromos da Panini, subscreve a Sport TV ou plataformas digitais, e pode até apostar de forma ocasional.

Em alguns casos, viaja para ver jogos ao vivo ou faz férias alinhadas com a competição. É o adepto que compra camisolas da Nike, Puma ou Adidas, que passa semanas com o Mundial como prioridade. Este perfil pode gastar entre 350 e 3.500 euros, dependendo do grau de envolvimento. É o grande motor do consumo tradicional.

O terceiro perfil é o adepto digital, o que mais cresce e melhor explica a transformação do futebol. Este adepto vê o jogo, mas faz muito mais do que isso. Comenta no X, no Instagram ou no TikTok, partilha vídeos, cria memes, reage em tempo real, consome highlights no telemóvel, segue jogadores, marcas e influenciadores.

Pode gastar menos em restauração, mas gera valor através da atenção. É este comportamento que explica porque cerca de 23% do impacto económico do Mundial já vem do digital. Plataformas, redes sociais e conteúdos já representam quase um quarto do valor total. Este adepto pode gerar entre 200 e 1.500 euros em impacto económico direto e indireto, mesmo sem sair de casa.

O ponto central é simples: o futebol já não vale apenas pelo jogo. Vale pela forma como é vivido. O impacto económico constrói-se em milhares de decisões pequenas como ir ao café, comprar uma camisola, jantar fora, comentar um lance, partilhar um vídeo. Somadas ao longo de várias semanas, transformam-se em centenas de milhões de euros.

Nem todos os adeptos consomem da mesma forma. Mas todos contam. E perceber estas diferenças é hoje essencial para entender o verdadeiro negócio do futebol.

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