Daniel Sá

Daniel Sá Diretor Executivo do IPAM

A indústria do desporto passou a viver de eventos. Não de épocas!

Durante muitas décadas, o desporto foi organizado em torno de uma lógica simples e estável: épocas longas, jornadas regulares, rotinas previsíveis e um consumo sustentado pelo hábito. Essa lógica está a desaparecer. O desporto moderno passou a viver de picos e não de continuidade, de eventos e não de processos, de momentos concentrados e não de épocas inteiras.

Hoje, o valor não está em acompanhar tudo, mas em não perder aquele momento especial. E essa mudança tem implicações profundas para ligas, clubes, modalidades, marcas e, naturalmente, para a realidade portuguesa.

O exemplo mais evidente vem do futebol europeu. A UEFA redesenhou há 23 anos a Champions League não apenas para aumentar receitas, mas para criar mais noites de decisão, mais jogos com consequência e mais momentos capazes de dominar a agenda mediática global. A última jornada da fase de liga, com dezenas de jogos em simultâneo, não é uma solução logística: é um produto.

É um evento dentro da época, pensado para gerar emoção concentrada, consumo simultâneo e conversa global em tempo real. O mesmo acontece com finais, sorteios transmitidos como espetáculos televisivos, apresentações públicas de jogadores e até anúncios de calendários. A época continua a existir, mas o valor migrou para os pontos altos.

Esta lógica não é exclusiva do futebol. A Fórmula 1 deixou de ser vista como um campeonato de 20 e tal corridas para se transformar numa sequência de grandes eventos, cada um com identidade própria, narrativa local e ativação comercial específica. A NBA constrói a sua temporada em torno do All-Star Weekend, das finais de conferência, das Finals e, mais recentemente, de formatos intermédios pensados para capturar atenção num mercado saturado. 

Até os Jogos Olímpicos, historicamente o maior evento desportivo do mundo, passaram a ser comunicados não como uma competição contínua, mas como uma sucessão de finais, histórias humanas e momentos virais.

Porque é que isto acontece? Porque o mercado da atenção mudou. O consumidor já não organiza a sua vida em função do calendário desportivo; o desporto é que tem de se inserir num ecossistema onde concorre com séries, redes sociais, gaming, música, creators e experiências on-demand. Neste contexto, a regularidade perdeu poder. O que vale é a exceção. O que prende é o evento. O que converte é a sensação de urgência. E é por isso que as indústrias mais bem-sucedidas não tentam vender tudo, mas sim criar momentos que ninguém quer perder.

Em Portugal, esta mudança ainda não foi totalmente assimilada. O nosso modelo continua excessivamente dependente da época regular, das jornadas semanais com pouco impacto fora do público fiel e de uma narrativa centrada no resultado e não no momento. Fora dos jogos grandes, clássicos, derbies, finais ou decisões europeias a maioria dos encontros vive num ruído mediático quase invisível.

Isso não é apenas um problema de exposição; é um problema de produto. Se cada jogo for apresentado como mais um, o mercado vai tratá-lo como mais um. E, num calendário global saturado, mais um é sinónimo de irrelevância.

As marcas, naturalmente, já perceberam isto. O investimento está a deslocar-se para ativações concentradas, eventos âncora, finais, grandes jogos e experiências premium. Patrocinar uma época inteira sem momentos claros de ativação tornou-se ineficiente. O que gera retorno é o evento bem desenhado, com storytelling, experiências no recinto, conteúdos antes, durante e depois, e métricas claras de impacto.

Quando o desporto não oferece esses momentos, perde espaço nos orçamentos. E quando perde espaço nos orçamentos, entra num ciclo de dependência exclusiva do apoio institucional ou do financiamento tradicional.

O risco maior desta lógica é evidente: ao viver de eventos, o desporto pode perder densidade entre eventos. Entre picos de atenção, instala-se o vazio. É aqui que muitos produtos falham. Criam um grande momento e desaparecem durante semanas. O desafio estratégico é outro: aceitar que o valor está no evento, mas garantir que cada evento alimenta o próximo. Não é voltar à rotina antiga, é construir uma sequência inteligente de momentos, cada um com identidade, consequência e narrativa própria. Uma época moderna não é uma linha reta; é uma série de capítulos.

Para Portugal, esta mudança é crítica. Num mercado pequeno, sem escala internacional natural, a única forma de competir é desenhar eventos relevantes, protegidos no calendário e pensados como produtos completos. Jogos decisivos tratados como espetáculos, finais valorizadas, fases finais compactas, janelas mediáticas claras, experiências no estádio que justifiquem a deslocação e conteúdos que prolonguem o impacto do evento para lá do apito final. Continuar a vender “jornadas” quando o mundo compra “momentos” é insistir num modelo que já não corresponde à forma como o desporto é consumido.

Quem continuar preso à lógica da rotina vai cumprir calendário, mas deixar de contar. Porque no desporto atual, já não vence quem dura mais tempo. Vence quem cria momentos que ficam na memória.

Deixe o seu comentário