Daniel Sá

Daniel Sá Diretor Executivo do IPAM

O amor à camisola já não chega: o adepto quer ser tratado como um cliente

Adicione como fonte preferencial no Google

 

Durante décadas, os clubes portugueses olharam para os adeptos como apaixonados incondicionais, cuja lealdade era garantida pelo amor à camisola. Mas essa lógica já não funciona. O adepto de hoje é um consumidor exigente, que compara experiências, procura valor e espera ser tratado como cliente.

 Esta transformação silenciosa está a redefinir o marketing desportivo e a forma como os clubes geram receitas. Os números não deixam dúvidas: 77% dos consumidores afirmam que a experiência com uma marca é tão importante quanto o produto ou serviço e 86% estão dispostos a pagar mais por uma experiência superior.

 No desporto, isso significa que não basta vender bilhetes ou camisolas; é preciso oferecer uma experiência completa, personalizada e memorável. Clubes que ignoram esta realidade estão a perder oportunidades milionárias.

 A tecnologia acelerou esta mudança. Aplicações móveis, plataformas de streaming, redes sociais e programas de fidelização transformaram a relação entre clubes e adeptos. Hoje, o adepto não é apenas espetador; é um participante ativo, comentador, criador de conteúdo e, muitas vezes, investidor.

 Estudos mostram que 71% dos consumidores esperam interações personalizadas e que empresas que apostam na personalização geram 40% mais receita do que as que não o fazem. No futebol, isso traduz-se em CRM, segmentação e campanhas orientadas por dados.

 Muitos clubes europeus já perceberam esta tendência. O Paris Saint-Germain relançou o programa global MyParis, que integra gamificação, conteúdos exclusivos e e-commerce numa única plataforma. Com uma versão premium a €19,90 por época, oferece benefícios como visitas ao estádio, descontos e experiências digitais, consolidando dados para personalização e aumentando o valor para patrocinadores. Este modelo não é apenas uma estratégia de marketing; é uma nova fonte de receita recorrente.

 Em Portugal, a maioria dos clubes continua presa ao modelo tradicional, dependente de bilhética e direitos televisivos. Mas há alguns sinais de mudança. Alguns começam a explorar apps, conteúdos exclusivos e programas de sócios com benefícios adicionais. No entanto, falta escala, integração e visão estratégica. A gestão dos adeptos ainda é vista como um custo, quando deveria ser encarada como um investimento com retorno direto e indireto. Dados recentes mostram que adeptos fidelizados gastam até 67% mais ao longo do ciclo de vida do que novos consumidores.

 O desafio é cultural e tecnológico. É preciso abandonar a ideia de que a paixão garante tudo e adotar práticas de gestão orientadas para dados. Isso inclui conhecer o perfil do adepto, mapear comportamentos, criar ofertas segmentadas e medir resultados.

 A monetização passa por cinco pilares: bilhética inteligente, merchandising personalizado, conteúdos premium, experiências exclusivas e ativação de patrocinadores baseada em dados. Cada interação é uma oportunidade para reforçar a relação e gerar receita.

 A pergunta que fica é simples: os clubes portugueses querem continuar a tratar adeptos como elementos passivos ou estão prontos para vê-los como clientes ativos, com expectativas e poder de escolha? A resposta determinará quem vai liderar o futuro do futebol nacional.

 Porque, no novo jogo do marketing desportivo, a vitória não está apenas no campo — está na experiência.

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder