Daniel Sá

Daniel Sá Diretor Executivo do IPAM

O mercado de transferências tornou-se maior do que o futebol

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Agosto é um mês curioso no futebol. Os campeonatos começam, os adeptos regressam aos estádios, os treinadores apresentam os novos projetos e os clubes falam em objetivos. Mas, para milhões de pessoas, nada disso é o mais importante. O verdadeiro campeonato continua a decorrer nos telemóveis. Chama-se mercado de transferências.

Durante décadas, as transferências foram um instrumento de gestão desportiva. Os clubes contratavam jogadores para melhorar equipas. Hoje, continuam a fazê-lo, mas o mercado transformou-se em algo muito maior. É um produto mediático autónomo. Tem narrativas próprias, protagonistas próprios, especialistas próprios, canais próprios e uma capacidade de gerar atenção que, em alguns momentos, ultrapassa a da própria competição.

O fenómeno é extraordinário. Há adeptos que não assistem a um jogo completo da pré-época, mas acompanham diariamente rumores de transferências. Há milhões de interações geradas por um potencial reforço que ainda nem assinou contrato. Há vídeos, podcasts, newsletters, contas especializadas, jornalistas dedicados exclusivamente ao mercado e uma comunidade global que vive permanentemente à espera da próxima confirmação.

O mais interessante é que este fenómeno não nasceu por acaso. Nasceu porque o mercado vende aquilo que o futebol mais gosta de vender: esperança.

Quando um clube anuncia uma contratação, não está apenas a apresentar um jogador. Está a vender uma possibilidade. O novo avançado pode marcar 30 golos. O jovem talento pode ser a próxima estrela mundial. O treinador pode finalmente encontrar a peça que faltava. Nada disto é garantido. Na verdade, a maioria das expectativas nunca se concretiza totalmente. Mas isso é irrelevante. O que conta é o potencial.

No marketing, poucas coisas são mais poderosas do que uma promessa de futuro. E o mercado de transferências vive precisamente dessa promessa. Ao contrário dos jogos, que produzem vencedores e derrotados, o mercado permite que quase todos sonhem ao mesmo tempo. Em julho e agosto, praticamente todos os adeptos acreditam que a próxima época será melhor.

O futebol percebeu rapidamente o valor económico desta dinâmica. Os grandes clubes europeus transformaram as apresentações de jogadores em eventos globais. As marcas aproveitam o alcance mediático. As redes sociais explodem com conteúdos exclusivos. As televisões enchem horas de programação. Os patrocinadores ganham novas oportunidades de ativação. O jogador chega antes de jogar e já está a gerar receitas, notoriedade e envolvimento.

É por isso que hoje uma transferência já não vale apenas pelo seu impacto desportivo. Vale pelo seu impacto mediático. Um jogador pode trazer golos, mas também pode trazer seguidores. Pode aumentar vendas de camisolas. Pode abrir mercados internacionais. Pode gerar visualizações, engagement e novos contratos comerciais. A contratação passou a ser simultaneamente uma decisão técnica e uma decisão de marketing.

O problema é que esta realidade também criou uma distorção. Muitas vezes fala-se mais das transferências do que dos jogos. Conhecem-se os valores das cláusulas, os salários, os agentes e os bónus, mas ignoram-se detalhes sobre o rendimento desportivo. O mercado passou a ser uma forma de entretenimento permanente, disponível 24 horas por dia, alimentada por algoritmos que recompensam novidade, especulação e emoção.

E talvez seja precisamente aqui que esteja a grande mudança. O futebol deixou de competir apenas com outras modalidades. Passou a competir pela atenção. Nesse contexto, o mercado de transferências tem vantagens evidentes. Não depende de resultados. Não depende de calendário. Não depende sequer de haver jogo. Funciona todos os dias.

No início de agosto, os campeonatos regressam e os adeptos voltam a olhar para o relvado. Mas seria ingénuo pensar que o mercado é apenas um complemento da competição. Em muitos casos, transformou-se numa competição paralela, com as suas próprias regras, os seus próprios vencedores e as suas próprias audiências.

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