O Mundial acabou. A FIFA ganhou outra vez
No Mundial há sempre uma seleção que levanta a taça. Mas há uma organização que levanta o negócio. Em 2026, a grande vencedora voltou a ser a FIFA.
O Mundial organizado nos Estados Unidos, México e Canadá foi vendido ao mundo como o maior de sempre. E foi. Pela primeira vez, participaram 48 seleções, distribuídas por três países anfitriões, num torneio com 104 jogos entre 11 de junho e 19 de julho. Tudo parece desportivo. Mas tudo é, cada vez mais, económico.
Mais seleções significam mais jogos. Mais jogos significam mais horas de transmissão. Mais horas significam mais inventário comercial. Mais inventário significa mais patrocínios, mais ativações, mais bilhetes, mais hospitalidade, mais conteúdos e mais dados. A bola continua a rolar, mas a máquina está cada vez mais bem desenhada.
A FIFA percebeu antes de muitos aquilo que várias ligas ainda fingem não ver: no desporto moderno, o produto já não é apenas o jogo. O produto é o ecossistema. É a viagem, o estádio, o conteúdo digital, a experiência VIP, o vídeo curto, o patrocinador, o videojogo, a camisola, o algoritmo, o turismo e a emoção convertida em receita.
O Mundial de 2026 é talvez o maior exemplo desta transformação. Não é apenas uma competição entre países. É uma plataforma global de entretenimento com 39 dias de atenção mundial concentrada.
Os números ajudam a perceber a dimensão. No orçamento inicial para o ciclo 2023-2026, a FIFA projetava receitas de 11 mil milhões de dólares, mais 4,5 mil milhões do que no ciclo anterior. Só os direitos televisivos estavam orçamentados em 4,2 mil milhões de dólares, os direitos de marketing em 2,6 mil milhões e a bilhética e hospitalidade em 3,1 mil milhões. Ou seja, mesmo antes de a competição começar, o Mundial já era um negócio de escala planetária.
Depois, as estimativas subiram. Relatórios mais recentes apontam para uma projeção de cerca de 13 mil milhões de dólares no ciclo 2023-2026, muito impulsionada pela expansão do Mundial e pelo novo Mundial de Clubes. Segundo a análise publicada pelo The Guardian, quase 9 mil milhões de dólares deverão ser gerados em 2026, ano do Mundial, tornando esta edição a competição desportiva mais lucrativa da história. A comparação é esclarecedora: os Jogos Olímpicos de Paris 2024 geraram 4,48 mil milhões de euros, cerca de 5,24 mil milhões de dólares. O Mundial joga noutra liga económica.
É por isso que discutir apenas se o novo formato é melhor ou pior para o jogo é ficar a meio da conversa. Sim, há argumentos desportivos: mais países representados, mais histórias, mais mercados envolvidos, mais oportunidades para seleções fora do centro tradicional do futebol. Mas há uma razão ainda mais poderosa: escala. A inclusão é a narrativa. A monetização é o modelo. A FIFA vende democratização, mas cobra por expansão.
A grande genialidade do modelo está aqui: a FIFA não depende verdadeiramente de quem ganha. Os adeptos dependem. Os países dependem. Os jogadores dependem. Os treinadores dependem. A FIFA não. Se ganhar uma potncia histórica, há audiência. Se ganhar uma surpresa, há narrativa. Se cair uma favorita, há drama. Se houver polémica, há atenção. E, no negócio contemporâneo do desporto, atenção é a matéria-prima mais valiosa.
Enquanto os clubes vivem presos à volatilidade do resultado semanal, a FIFA gere um ativo raro: um evento que mobiliza identidades nacionais, marcas globais e audiências massivas ao mesmo tempo. Nenhum clube possui esta combinação. Nenhuma liga consegue juntar, numa só plataforma, emoção nacional, rivalidade global, turismo internacional, marcas multinacionais e direitos televisivos planetários. O Mundial é o único produto desportivo que transforma bandeiras em receitas com esta eficácia.
O problema é que esta vitória económica também deve obrigar o futebol a fazer perguntas mais difíceis. Até onde se pode expandir sem diluir? Quantos jogos cabem na atenção dos adeptos? Em que momento a lógica comercial começa a alterar a essência competitiva? A FIFA ganhou outra vez, mas o futebol precisa de garantir que não perde demasiado pelo caminho.
No futebol moderno, os campeões mudam de quatro em quatro anos. A FIFA ganha sempre.