O Mundial ainda não começou, mas já está a gerar dinheiro em Portugal
O estudo do IPAM que apresentamos esta terça-feira aponta para um impacto económico em Portugal que pode chegar aos 945 milhões de euros em caso de vitória no Campeonato do Mundo de Futebol, que está prestes a começar. E há um detalhe (grande) que muda tudo: Portugal não organiza sequer o Mundial.
Então a pergunta é simples. De onde vem este dinheiro? Vem das pessoas. E da forma como as pessoas vivem o futebol. O impacto económico do Mundial não aparece do nada. Constrói-se ao longo de várias semanas, em pequenas decisões que todos tomamos sem pensar muito nisso.
Começa antes dos jogos começarem. Quando as pessoas compram equipamentos novos para ver os jogos em casa, subscrevem canais, falam do Mundial nas redes sociais, começam a planear onde vão ver os jogos com amigos.
Depois vem a fase mais visível. Restaurantes e cafés cheios. Casas com televisão ligada durante horas. Mais consumo em supermercados, mais bebidas, mais refeições. Tudo aquilo que normalmente já fazemos, mas com mais intensidade.
Há também o consumo emocional. Camisolas, cachecóis, cromos, merchandising. São gastos que não seguem uma lógica racional. São decisões ligadas ao entusiasmo, à identidade, ao sentimento de pertença. E que continuam a ter um peso real.
Mas há uma parte do impacto que não se vê tão facilmente. Cada vez mais, uma parte importante vem do digital. Pessoas que comentam jogos, que partilham vídeos, que enviam mensagens, que seguem jogadores e marcas. Pode parecer que não há dinheiro envolvido, mas há. Está na publicidade, nas plataformas, no conteúdo criado e distribuído todos os dias.
O jogo já não vale apenas pelos 90 minutos. Vale pelo que acontece à volta desses 90 minutos. E é aqui que está a grande mudança. Antes, o valor do futebol vinha de consumir. Hoje, vem também de amplificar. Quanto mais se fala, mais se partilha, mais se comenta, mais o futebol vale.
Portugal tem uma característica particular: pode não ser um grande mercado em dimensão, mas é um mercado muito ativo. Vive o futebol com intensidade. E isso transforma-se em valor.
O estudo mostra precisamente isso. O impacto não vem de um grande investimento público, nem de infraestruturas, nem de estarmos a organizar o evento. Vem da soma de milhares de comportamentos individuais ao longo de várias semanas.
E é por isso que o Mundial já não depende da geografia. Depende das pessoas. E há aqui uma consequência importante, já a olhar para 2030. Portugal vai organizar o Mundial. Mas isso, por si só, não garante impacto.
O impacto já sabemos como se cria. Está nas casas, nos cafés, nos ecrãs, nas redes sociais, nos hábitos de consumo. Está nas pessoas. A diferença é que, em 2030, temos a oportunidade de transformar essa dinâmica em algo maior. Mas só se percebermos uma coisa simples.
O valor do futebol não nasce no estádio. Nasce fora dele.