O que os desportos de raquetes perceberam antes do futebol
Enquanto o futebol discute investidores, calendários intermináveis e direitos televisivos de milhares de milhões, uma das maiores transformações do desporto mundial está a acontecer noutro lado, mais propriamente do outro lado da rede.
O fenómeno é impressionante, apesar de nem sempre podermos confiar totalmente nos números que vão sendo divulgados. O ténis continua a ser o maior desporto de raquete do planeta, com mais de 100 milhões de praticantes. O padel ultrapassou os 35 milhões de jogadores a nível global e continua a crescer a dois dígitos em vários mercados. Nos Estados Unidos, o pickleball tornou-se um dos fenómenos desportivos da década, passando de menos de 9 milhões de praticantes em 2020 para mais de 48 milhões de pessoas que já experimentaram a modalidade. E o squash prepara-se para entrar nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028, depois de décadas à procura de reconhecimento global.
O mais interessante não é o crescimento. É a razão deste crescimento. Durante décadas, a indústria do desporto acreditou que o futuro passava por criar eventos maiores, audiências maiores e contratos televisivos maiores. Os desportos de raquete seguiram outro caminho. Em vez de pensarem apenas no espetáculo, pensaram sobretudo no praticante.
E perceberam algo que muitas modalidades tradicionais ainda resistem a aceitar: o consumidor moderno procura experiências compatíveis com a sua vida.
Uma partida de padel pode ser organizada em minutos. Um jogo de pickleball cabe facilmente na agenda de um profissional ocupado. O ténis continua a oferecer competição, exercício físico, socialização e longevidade. O squash beneficia do impulso olímpico e de uma nova visibilidade internacional. Todos eles respondem à mesma necessidade: praticar desporto sem ter de reorganizar a vida em função do desporto.
O futebol vive o desafio oposto.
Milhões adoram vê-lo. Muito menos pessoas conseguem praticá-lo regularmente na idade adulta. É difícil reunir 22 pessoas. É difícil encontrar instalações. É difícil conciliar horários. O futebol continua a ser o rei da audiência. Mas já não é necessariamente o rei da participação.
E isso importa mais do que parece. A história mostra que as modalidades mais resilientes são aquelas que conseguem equilibrar duas economias distintas. A economia do espetáculo e a economia da prática. O espetáculo gera audiências, patrocínios e direitos televisivos. A prática gera comunidades, fidelização e renovação geracional.
Os desportos de raquete estão a conseguir combinar as duas. O ténis continua a atrair quase dois mil milhões de espectadores acumulados nos torneios do Grand Slam. Ao mesmo tempo, a sua base global de praticantes continua gigantesca. O padel cresce porque mistura competição e convívio. O pickleball cresce porque é simples, inclusivo e fácil de aprender.
Em muitos países, os clubes já não escolhem entre ténis, padel ou pickleball. Estão a integrar as três modalidades sob o mesmo teto para maximizar utilização, receitas e envolvimento dos sócios. Esta é a verdadeira lição.
Durante demasiado tempo, muitas organizações mediram o sucesso através das audiências televisivas, dos seguidores nas redes sociais ou do valor dos contratos comerciais. Todas essas métricas continuam a ser importantes. Mas existe uma pergunta ainda mais relevante: quantas pessoas querem efetivamente jogar?
Os desportos de raquete perceberam primeiro que o consumidor moderno procura saúde, bem-estar, flexibilidade, pertença e interação social. Não quer apenas assistir. Quer participar.
É por isso que os investidores estão a construir clubes de padel. É por isso que o pickleball continua a expandir-se. É por isso que o squash vê nos Jogos Olímpicos uma oportunidade histórica. É por isso que o ténis continua a reinventar-se.
O futebol continua a dominar o mundo. Mas talvez esteja a ignorar uma mudança silenciosa. Porque o futuro do desporto pode não ser decidido apenas nos estádios. Pode estar a ser decidido nos campos onde as pessoas pegam numa raquete e entram em jogo.