Daniel Sá

Daniel Sá Diretor Executivo do IPAM

O tempo dos patrocínios à moda antiga acabou

As marcas deixaram de pagar por emoções vazias. O patrocínio moderno não vive mais da magia do jogo, vive da prova do retorno. Num mercado global onde o investimento em patrocínio ultrapassou os 115 mil milhões de dólares em 2025, segundo dados recentes da Accio, e onde metade desse crescimento é impulsionado por digitalização e dados, a lógica mudou por completo.

 Já não basta aparecer numa camisola ou numa placa qualquer num pavilhão. As marcas querem impacto mensurável, relação direta com o adepto, conteúdos que provoquem comportamento e métricas que expliquem cada euro investido. A Nielsen confirma esta viragem: 72% dos patrocinadores avaliam hoje o sucesso pela profundidade de engagement e pelo alinhamento de valores, e não pela visibilidade isolada.

 É um corte radical com décadas de tradição no marketing desportivo, mas é também um sinal claro de maturidade da indústria. Esta mudança tem uma causa simples: os adeptos mudaram. O consumo é fragmentado, social e personalizado. O que conta não é a presença, é a relevância.

 É por isso que o futebol, responsável por 41% de todos os patrocínios no mundo e com 67% dos seus adeptos mais recetivos a marcas do que a média global, tornou-se o laboratório ideal para novos modelos de ativação. Mas mesmo no futebol, o retorno já não é garantido pois depende da capacidade de transformar audiência em comportamento.

 Ao mesmo tempo, áreas emergentes como o desporto feminino estão a atrair investimento estrutural, não por moda, mas porque o crescimento é real: a WNBA aumentou 31% de base de adeptos em dois anos, segundo a Nielsen, e tornou-se um ativo comercial relevante para marcas que procuram inclusão, progressividade e públicos jovens.

 A isto junta-se uma segunda força decisiva: a consolidação dos investimentos. O relatório Global Sponsorship Trends 2025 mostra que as marcas estão a concentrar os seus portefólios em menos modalidades, mas maiores, melhores e mais mensuráveis. E aqui está o ponto crítico: quando as marcas reduzem parceiros, Portugal tem um problema.

 Não pela falta de talento ou emoção, mas pela falta de escala e de produto. O país continua a vender patrocínio com discursos de paixão e não com dashboards de performance. Fora do futebol, a maioria das modalidades vive de pequenos apoios porque não oferece aquilo que o mercado pede: dados integrados, ativação digital, CRM, métricas e uma narrativa contínua que ligue o adepto à marca.

 No futebol, os três grandes ainda conseguem compensar pela dimensão, mas isso não é sustentável para o ecossistema. E mesmo os grandes terão de se adaptar rápido: no patrocínio moderno, o que vale não é o número de adeptos no estádio, é o que se sabe sobre eles.

 A terceira força é a tecnologia. O crescimento explosivo da inteligência artificial no desporto obriga clubes, ligas e federações a repensar o produto. A personalização já não é uma tendência é um requisito. Quando a Accio destaca que o patrocínio digital e as ativações tecnológicas representam 43% de todo o valor gerado em 2025 e que o mercado caminha para 160 mil milhões até 2030 impulsionado por dados e experiências imersivas, o recado é claro: quem não souber operar em dados será invisível para as marcas.

 Um patrocínio que não permita medir exposição, conversão e retenção deixa de ser patrocínio e passa a ser um custo emocional. E isso já não tem espaço num mercado profissionalizado. Portugal precisa de acelerar esta transição. O país tem talento, narrativa e emoção, mas falta-lhe indústria.

 Continuamos a ver patrocinadores a comprar visibilidade quando o mundo compra performance. Continuamos a negociar propriedades isoladas quando o mercado exige ecossistemas integrados. Continuamos a oferecer inventário quando devíamos oferecer impacto.

 O que está em causa não é o futuro do patrocínio, é o futuro da sustentabilidade do desporto português. As marcas já mudaram. Os adeptos já mudaram. Só falta o sistema mudar também. Porque no desporto moderno, emoção sem dados é poesia, mas impossível de financiar.

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