Daniel Sá

Daniel Sá Diretor Executivo do IPAM

Porque é que um jogo da Seleção mexe tanto com a economia

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Quando Portugal entra em campo, como ontem contra a Espanha, milhões de portugueses fazem exatamente a mesma coisa: param para ver futebol.

 Parece uma afirmação simples. Mas por detrás desse hábito aparentemente banal existe um dos fenómenos económicos mais interessantes do país. O estudo que desenvolvemos no IPAM sobre o impacto económico do Mundial 2026 mostra precisamente isso: um jogo da Seleção não gera apenas emoções, gera também consumo, negócios e atividade económica.

 O futebol tem uma característica que poucas atividades conseguem replicar. Consegue mobilizar milhões de pessoas ao mesmo tempo. Quando Portugal joga num Mundial, o impacto sente-se muito antes do apito inicial. Nos dias anteriores, os canais de televisão reforçam a programação, os jornais aumentam a cobertura, as marcas lançam campanhas e as redes sociais enchem-se de previsões, comentários e debates.

 Mas é no próprio dia do jogo que a economia acelera. E muito.

 Os cafés e restaurantes registam um aumento significativo de clientes. As esplanadas enchem-se. Muitas famílias e grupos de amigos escolhem reunir-se para acompanhar os jogos. O consumo de cerveja, refrigerantes, snacks e refeições aumenta. Supermercados como Continente, Pingo Doce, Lidl ou Auchan sentem esse efeito nas vendas dos dias de jogo. Marcas como Super Bock, Sagres, Coca-Cola ou Sumol beneficiam diretamente desta concentração de consumo.

 O fenómeno também se faz sentir dentro de casa. Há quem organize almoços, jantares ou churrascos para acompanhar a Seleção. Outros aproveitam para renovar equipamentos, trocar de televisão ou melhorar a experiência de visualização. São pequenas decisões individuais que, multiplicadas por milhões de pessoas, geram um efeito económico muito relevante.

 O estudo mostra que o impacto económico mínimo do Mundial 2026 em Portugal será de cerca de 378 milhões de euros, podendo atingir 945 milhões de euros no cenário mais favorável. E uma parte importante deste valor está diretamente relacionada com o desempenho da Seleção. Quanto mais Portugal avança na competição, mais tempo dura o consumo associado ao evento.

 Mas há uma diferença importante em relação aos Mundiais do passado.

 Hoje o jogo não se vê apenas na televisão. Vê-se também no telemóvel. Comenta-se no X, discute-se no WhatsApp, partilha-se no Instagram e no TikTok, acompanha-se através do Record, do Maisfutebol, do zerozero ou da RTP Play. O adepto moderno vê o jogo e participa ao mesmo tempo.

 Não surpreende, por isso, que cerca de 23% do impacto económico identificado no estudo já resulte de plataformas digitais, redes sociais e criação de conteúdos. Quase um quarto do valor gerado pelo Mundial nasce hoje fora dos estádios e até fora dos ecrãs tradicionais.

 Talvez seja essa a maior conclusão do estudo. Um jogo da Seleção já não vale apenas pelos 90 minutos que decorrem dentro das quatro linhas. Vale pelas conversas que gera, pelas compras que provoca, pelos conteúdos que produz e pelo tempo que ocupa na vida dos portugueses.

Quando Portugal joga, não é apenas a bola que entra em movimento. É uma parte significativa da economia que acelera ao mesmo ritmo.

 E isso ajuda a perceber porque é que o futebol continua a ser muito mais do que um jogo. É um dos maiores fenómenos de consumo coletivo que existe em Portugal.

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