Daniel Sá

Daniel Sá Diretor Executivo do IPAM

Porque é que ver futebol ficou mais caro

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Há uma sensação que muitos adeptos já têm, mesmo sem fazer contas: ver futebol hoje custa mais do que há alguns anos. Não é apenas impressão, é sim uma consequência direta da forma como o futebol mudou.

Durante muito tempo, ver futebol era simples. Ligava-se a televisão, via-se o jogo e pouco mais. Hoje, o futebol é uma experiência muito mais completa. E quanto mais completa é, mais cara se torna.

Comecemos pelo essencial: o acesso. Onde antes muitos jogos eram em sinal aberto, hoje o consumo exige subscrições com televisão premium, apps, streaming. Para acompanhar uma competição como o Mundial ou uma liga europeia, é comum pagar por várias plataformas. É um custo base que antes não existia.

Depois vem o tudo que acontece à volta do jogo. O futebol deixou de ser um momento individual para ser um momento social. Vai-se ao café, ao restaurante, junta-se gente em casa. Um jogo da Seleção enche espaços e aumenta o consumo. Dias com jogos de Portugal significam mais vendas para marcas como Super Bock, Sagres, Sumol e Coca-Cola, mais refeições em cadeias como McDonald’s ou Telepizza, mais movimento em supermercados como Continente, Pingo Doce ou Lidl.

Há também o lado emocional. As camisolas da Seleção vendidas na Sport Zone ou Decathlon, os cachecóis, as coleções de cromos da Panini. Não são compras obrigatórias, mas fazem parte da experiência. E quando o entusiasmo cresce, o consumo acompanha.

Mas há uma dimensão nova, e é aqui que o custo aumentou mais. Hoje ninguém vê futebol apenas com um ecrã. Vemos o jogo e, ao mesmo tempo, estamos no telemóvel. Comentamos no X, vemos vídeos no YouTube, seguimos páginas no Instagram, discutimos lances em grupos de WhatsApp. Recebemos notificações da RTP Play, da Sport TV, do Record, do Maisfutebol ou do zerozero.

Pode parecer que isto não custa nada, mas custa. Está nas subscrições, no consumo de dados, na publicidade que alimenta o ecossistema digital, no tempo que passamos ligados. O estudo mostra que cerca de 23% do impacto económico do Mundial já vem do digital. Ou seja, quase um quarto do valor já não está nos cafés ou nas lojas, mas sim nos ecrãs.

Há ainda outro fator: o tempo. O futebol passou a ocupar mais dias e mais momentos. Há mais jogos, mais conteúdos, mais programas, mais análises. O jogo começa antes do apito inicial e continua muito depois do fim.

Mais tempo a consumir significa mais oportunidades para gastar. Mas há um ponto essencial que explica tudo. Não é apenas que ver futebol ficou mais caro. É que hoje fazemos muito mais com o futebol.

Antes víamos o jogo. Hoje vivemos o jogo. E quando o futebol deixa de ser apenas algo que se vê e passa a ser algo que se vive, comenta, partilha e consome em vários momentos… o custo acompanha essa realidade. Ver futebol não ficou mais caro por acaso. Ficou mais caro porque ocupa mais espaço na nossa vida.

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