Daniel Sá

Daniel Sá Diretor Executivo do IPAM

Voleibol, basquetebol, andebol e hóquei: está na hora de jogar em equipa

Adicione como fonte preferencial no Google

Em Portugal há, pelo menos, quatro modalidades que vivem no mesmo habitat competitivo, partilham os mesmos pavilhões, disputam a mesma atenção do público e das marcas e, ainda assim, continuam a agir como projetos totalmente separados: voleibol, basquetebol, andebol e hóquei em patins.

Todas têm massa crítica suficiente para criar um produto conjunto robusto e, em simultâneo, nenhuma tem escala individual para competir sozinha com o futebol ou com o entretenimento digital. Segundo o INE, o voleibol conta com cerca de 60 mil federados, o andebol com 50 mil, o basquetebol com 30 mil e o hóquei em patins com quase 10 mil. Somadas, estas quatro modalidades de pavilhão, representam perto de 150 mil praticantes federados.

Estes números mostram uma base de praticantes e adeptos suficiente para uma proposta comercial integrada, com calendário coordenado, direitos agrupados, ticketing conjunto e uma plataforma de CRM única para conhecer e ativar adeptos ao longo do ano.

O diagnóstico dos líderes federativos é inequívoco: faltam infraestruturas, o parque existente está envelhecido e a “rutura de espaços de pavilhão” impede responder à procura — no voleibol, por exemplo, o crescimento feminino tem sido “fora do normal” e os clubes já não conseguem acolher todas as atletas; no andebol e no hóquei em patins, a competição nacional continua a ser de excelência, mas esbarra na disponibilidade de horários e condições.

Esta é uma dor comum às quatro federações e, por isso mesmo, um motivo para trabalharem juntas: uma carteira de pavilhões partilhada, com padrões técnicos harmonizados e planeamento central de datas, reduziria conflitos, aumentaria a ocupação útil, melhoraria a experiência do espetador e libertaria mais horas-prime para transmissões e ativações.

Também no patrocínio o caminho é evidente. O andebol consolidou um naming de longo curso com o Placard, que hoje dá nome ao campeonato, à Taça e à Supertaça Ibérica; o hóquei em patins renovou igualmente com o Placard e reforçou o fornecimento técnico com a Azemad; o voleibol atraiu a Solverde.pt para a Liga feminina e para a Seleção, acompanhando a evolução competitiva e mediática da modalidade.

Se cada federação já consegue contratos relevantes sozinha, um pacote intermodalidades — com presença cruzada em pavilhão, televisão e digital, momentos 'festival' e uma narrativa conjunta de desporto de pavilhão — teria maior valor incremental para as marcas, sobretudo para categorias que procuram continuidade e frequência (retalho alimentar, telecomunicações, banca, energia ou o gaming regulado).

Com alguma criatividade podemos pensar em várias soluções. Imaginem a 'Liga dos Pavilhões': oito fins-de-semana por época, com jornadas temáticas que rodassem entre capitais de distrito, um bilhete único diário, um 'passe família' e uma grelha televisiva coordenada para que o adepto pudesse ver, no mesmo dia, dois jogos de modalidades diferentes com uma só experiência de recinto.

O ticketing seria centralizado e dinâmico, com preços que respondessem à procura em tempo real e com um projeto que combinasse lugares, merchandising e experiências de proximidade (clínicas com atletas, visitas guiadas, meet & greet com técnicos e atletas). No digital, uma app única permitiria acumular pontos, trocar por vantagens e construir um perfil de consumo que as federações partilhariam entre si, respeitando a privacidade, para personalizar comunicação e ofertas. O resultado esperado seria simples: mais lotações em jogos médios, melhor conversão dos jogos grandes e uma redução dos custos unitários de aquisição de público.

No plano de conteúdos, há um espaço óbvio a ocupar: programação semanal com highlights multi-modalidades, narrativas cruzadas de atletas e treinadores, estatísticas visuais e formatos curtos para redes sociais que expliquem regras, táticas e protagonistas. O basquetebol tem hoje uma janela internacional rara, com as seleções em fase final europeia e um português a competir na NBA; o andebol vem de um ciclo de resultados que elevou a perceção do produto; o hóquei em patins mantém um campeonato de referência; e o voleibol feminino cresceu de forma acelerada e tem procura latente por espaços e competições.

Para fechar o círculo, as quatro federações podem alinhar-se em três frentes de eficiência. Primeiro, compras e operações: centralizar a contratação de segurança, bilhética, produção televisiva, pisos e equipamentos homologados baixa custos e eleva padrões. Segundo, dados e medição: um painel único de audiências, assistências e retorno por patrocinador, com acesso partilhado e governança clara, permitiria transformar o patrocínio de visibilidade em patrocínio de performance. Terceiro, calendário e desenvolvimento: encontros semestrais com Ligas, autarquias e tutela para planear janelas, candidaturas conjuntas a eventos internacionais e requalificações de pavilhões com financiamentos europeus e municipais.

O desporto de pavilhão português tem tudo para dar um salto — massa crítica de praticantes, história, rivalidades, talento exportável e campeonatos competitivos — mas continua a vender-se em pacotes pequenos, desencontrados e com custos de estrutura redundantes.

Se voleibol, basquetebol, andebol e hóquei em patins se sentarem à mesma mesa e tratarem adeptos e marcas como um ecossistema comum, passarão de quatro produtos bons a um produto irresistível. O país precisa de mais gente nos pavilhões; as federações precisam de mais receita previsível; as marcas querem mais eficiência; e as autarquias necessitam de projetos que deem vida aos equipamentos.

Quando o todo vale mais do que a soma das partes, a estratégia é óbvia: trabalhar em conjunto e transformar as modalidades de pavilhão num verdadeiro negócio integrado — com calendário inteligente, bilhete único, conteúdos modernos e métricas que provem aquilo que já intuíamos há muito tempo: em Portugal, o pavilhão pode ser a casa mais valiosa do nosso desporto.

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder