A alma da geração

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1 - VIVE no topo do Mundo, naquela gigantesca feira de vaidades em que o homem corre sempre o risco de deixar de ser dono de si próprio. Com ele não há esse perigo. Se Hollywood e os oscares estão para o cinema, como o calcio e a Lazio estão para o futebol, então Fernando Couto está no sítio certo. É famoso, premiado e rico mas quando volta a casa transporta a felicidade do regresso à infância e do reencontro com os velhos amigos; traz a memória de alegrias e tristezas vividas em conjunto, que lhe moldaram a personalidade e o estilo. No lar começa por recuperar o sorriso, reconquista depois a confiança tantas vezes abalada e quando entra em campo já é um dos melhores da Europa. Aquela é afinal a sua equipa. Aquela é a selecção nacional.

2 - FERNANDO COUTO é hoje um jogador maduro, sóbrio e despojado das grosserias de outrora. Já foi jovem, rebelde e até revolucionário, tempos em que estudou e interpretou à sua maneira a cartilha secreta dos defesas. Costumava dizer um dos melhores centrais brasileiros que algum dia passaram por este país, recorrendo a essa Constituição imaginária, “não podemos jogar sempre a dar porrada, mas há porradas que não podem deixar de ser dadas”. Faz-se notar pelo que distingue os grandes jogadores dos outros: resolve com facilidade as situações mais difíceis. É inteligente, rápido e corajoso; sabe usar o físico; defende bem a posição; é contundente na hora do embate; tem orgulho e acrescentou voz a tudo o que faz.

3 - EXISTE no seu comportamento o respeito pela grandeza do passado que representa e o alimentar do sonho que o motiva. É, pois, um jogador com memória e imaginação, que dimensionou a importância do carácter forte, que não fugiu ao peso das responsabilidades acrescidas, nem dá sinais de ter perdido o bom hábito de ganhar que o acompanha desde os primeiros passos. Ele, o primeiro defesa português a fazer carreira no grande futebol europeu, tem o currículo preenchido, já passou a casa dos 30 anos, ganhou quase tudo e continua a acrescentar argumentos que sustentam a candidatura para à entrada na história: é um dos melhores jogadores de selecção de todos os tempos e cada vez mais a alma da geração de ouro.

4 - QUANDO em Bruxelas, na meia-final do Europeu com a França, os jogadores portugueses estenderam ao relvado a revolta de todos nós, um homem se ergueu com olhar de visionário e comportamento de ser superior. Deixou o árbitro entregue à sua cruz e andou pelo campo a levantar os camaradas caídos. Nessa noite, Fernando Couto assumiu voluntariamente a obrigação moral de dar dignidade a uma derrota penosa, atitude inesquecível de quem escolheu a grandeza de espírito para viver os derradeiros instantes daquela página bonita do desporto português. Amanhã, nas Antas, atingirá a 75ª internacionalização, igualando o máximo de Vítor Baía. Mais que os parabéns, devemos aproveitar a ocasião para lhe dizer obrigado por uma década irrepreensível com as quinas ao peito.

Passe curto

Se recuarmos seis/sete meses e lermos o que foi escrito sobre Van Hooijdonk há muita gente a corar de vergonha. Regressou agora à selecção holandesa, marcou dois golos em meia hora a Andorra e, ironia do destino, tornou-se um perigo para Portugal inteiro. Quem havia de dizer uma coisa destas?

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Litos vai estrear-se como titular na selecção nacional, por lesão de Jorge Costa e Beto. Noutras condições estaríamos todos a fazer contas à vida e a lastimar a falta de sorte. Mas no eixo da defesa portuguesa, é preciso não esquecer, vai estar o capitão e referência máxima da estrutura defensiva do líder do campeonato.

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Por falar em defesas-centrais de qualidade e na reacção tranquila que nos provocam algumas ausências importantes na partida com os holandeses: já repararam que no cômputo geral dos dois jogos entre FC Porto e Sporting, Jorge Andrade foi, muito provavelmente, o jogador com nível exibicional mais elevado?

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Joel vai para a área com Petit, ganha vantagem e quando define o lance para golo é puxado na área. “Penalty”, segundo amarelo para o boavisteiro e possibilidade de o Marítimo elevar para 2-0, jogando em vantagem numérica. O árbitro viu tudo ao contrário (mau) e Jaime Pacheco, no fim, atirou-se a ele (pior).

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Para a Taça de Portugal, Capucho foi decisivo, ao marcar os dois golos que deram a vitória do FC Porto sobre o Sporting. Mas desse jogo a reflexão maior é outra: se não fossem os Super Dragões e a Juventude Leonina, quantas pessoas estariam nas Antas? Mil? Duas mil? Afinal as claques ainda servem para alguma coisa...

Figura -- Quim

CONFLITO - Há coisas que não se explicam: entre os Mundiais e os grandes guarda-redes portugueses existe um conflito que o destino parece ter tornado insanável: os Magriços nasceram entre Carlos Gomes e Vítor Damas; em 1986, no México, Manuel Bento ajudou a ganhar à Inglaterra mas fracturou a perna a seguir; o caminho para 2002 está a ser percorrido sem Vítor Baía.

HISTÓRIA - Se a história das lendas eternas começa em João Azevedo, poucas dúvidas também de que termina em Vítor Baía, o único na dinastia com mais de 60 anos a encarar a selecção como uma sociedade organizada e maior. Ao longo de uma década, Baía nunca precisou de milagres para manter intacta a sua grandeza.

MASSACRES - Em Wembley (20/11/1974), Damas fez milagres para garantir o 0-0; em Hampden Park (15/10/1980), Bento repetiu a dose para o mesmo fim com a Escócia. Gotas de felicidade para quem caminhava para o abismo. Se outras dúvidas não quisermos assumir com a geração de ouro, a ela devemos o fim de massacres que iam arruinando definitivamente o prestígio do nosso futebol.

HERANÇA - Em traços muito gerais, esta é a herança de Quim, melhor guarda-redes português do campeonato, cujo passado nas selecções das camadas jovens, aliado ao que tem feito na baliza de um Sp. Braga cada vez mais forte, oferece toda a tranquilidade neste momento decisivo da qualificação para o Mundial do próximo ano.

CONCORRÊNCIA - Numa altura em que Sporting (Schmeichel), FC Porto (Ovchinnikov) e Benfica (Enke) têm as costas defendidas por estrangeiros, o bracarense continua a mostrar que não defende a baliza da selecção apenas por falta de concorrência. Vítor Baía luta pelo regresso e Ricardo está à espreita. Amanhã, nas Antas, Quim precisa só de repetir a exibição perfeita que fez em Roterdão.

Lá por fora

Filippo Inzaghi, o ponta-de-lança da Juventus que tem cara de bebé chorão, possui um faro especial pelo golo, de tal modo que se transformou num verdadeiro especialista da área. No passado sábado marcou dois ao serviço da selecção italiana na complicada deslocação à Roménia, na vitória por 2-0 da equipa agora comandada por Giovanni Trapatonni. Ao cabo de vários anos de polémicas várias, a squadra azzurra reconquistou o coração dos adeptos pela mão do mais laureado treinador da história do futebol. E cuidado que no seu currículo só lhe falta ganhar à frente da selecção...

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