Carlos Janela
Carlos Janela Gestor desportivo

A bola - esse objecto redondo que nos desafia, ou como é tão difícil “jogar à bola”?

Neste texto não vou abordar as grandes diferenças entre "jogar à bola" e "jogar futebol". Abordarei essa importante questão em futura ocasião. Neste pequeno texto pretendo explicar por que "jogar à bola", enquanto actividade desportiva e profissional, tem um grau de dificuldade superior a qualquer outra modalidade lúdica ou desportiva.

Abordarei aquelas que considero serem as três principais dificuldades que um praticante tem que resolver para poder "jogar à bola". A bola, objecto redondo, os seus movimentos e trajectórias, desperta em nós, seres humanos, um dos mais genuínos dos instintos da natureza animal, o fascínio pelos surpreendentes efeitos dos objectos redondos.

Façamos uma experência simples – damos um cubo a um qualquer animal, pode ser um cão ou a um gato, para brincar. Deixemos o animal brincar com esse cubo. Quando ele estiver afeiçoado ao objecto, larguemos uma bola aos saltos num canto da sala e observem o que acontece. Imediatamente, o animal larga o seu objecto e passa a brincar com a bola. E não larga mais a bola, fascinado por ser um objecto difícil de "agarrar", com movimentos, efeitos e trajectórias totalmente inesperados, o que a torna num Objecto Desafiante.

No homem, a bola causa exatamente o mesmo fascínio e os mesmos níveis de sedução. O sucesso e o impacto das muitas modalidades desportivas com bola tem origem neste fenómeno.

No entanto, apenas quando estamos a falar de futebol usamos a expressão "jogar à bola".

Porque é tão difícil "jogar à bola"?

Dificuldade 1 - É uma superfície redonda, o pé, a tentar dominar outra superfície redonda, a bola. Em mais nenhuma outra modalidade isso acontece, pois as restantes usam maioritariamente as mãos, umas garras que agarram a bola e a podem manejar mais facilmente.

Um pé a dominar uma bola é um exercício com um grau de dificuldade limite.

Dificuldade 2 - O pé é a parte do corpo mais distante do cérebro. Já viram a "grande" distância que percorrem todos os mecanismos e transmissões nervosas e sensoriais entre o Cerebro e o Pé. São milhares de estímulos, ordens, decisões, percepções, noções e sensações, entre o cérebro e o pé e entre o pé e o cérebro. Estamos no âmbito da Via ascendente (Gama) e da via descendente (Alfa).

Em nenhuma outra modalidade a distância entre o cérebro e os membros usados na pratica do jogo é tão grande e complexa. É bom precisar neste momento que o Futebol joga-se com o Cérebro e executa-se com os Pés.

Dificuldade 3 - Sempre que um dos pés está em contacto com a bola, todo o corpo fica suportado e equilibrado no solo, apenas no outro pé e perna. Ou seja, "jogar à bola" é um permanente jogo de transformação de desequilíbrios em equilíbrios. Ora, isto não acontece em mais nenhuma modalidade desportiva, pois nessas o jogador está sempre com os membros inferiores em contacto com o solo, tendo por isso menos desequilíbrios a resolver.

São estas 3 grandes dificuldades que têm que ser "resolvidas" simultaneamente em cada instante, em cada movimento, em cada jogada.

Se juntarmos a estes problemas biomecânicos o domínio corporal individual, o domínio total do objecto bola, o domínio do espaço e a integração de todos esses factores num jogo colectivo, fica muito claro e evidente, até para o adepto comum, que "jogar à bola" no Futebol é um exercício com um grau de dificuldade superior a qualquer outra modalidade desportiva.

Termino dizendo que não se "nasce" futebolista, como não se "nasce" determinado para qualquer outra actividade. Nasce-se com certas aptidões e depois as circunstâncias de cada um desenvolvem, ou não, essas aptidões individuais.

Se o Messi ou o Cristiano tivessem nascido em Brooklin jamais teriam sido futebolistas.

*Texto escrito segundo o anterior AO

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