O até agora treinador da nova equipa de sub-23 do Benfica, aliás a fazer excelente carreira, acaba de ser recrutado pelo Monaco onde vai trabalhar com Thierry Henry. Não sei, com absoluta franqueza, se a sua história já foi contada por alguém, sei que é uma boa história. Quem é este homem e como sai de Lisboa para um dos clubes mais importantes da liga francesa, ainda por cima um clube, de certa forma, "formador" que nos últimos anos identificou vários jogadores – de Martial a Bernardo Silva, de M’bappé a Fabinho – os fez crescer e os vendeu posteriormente por valores muito elevados.
João Tralhão estava há 18 anos nas estruturas de formação do clube encarnado, por certo há muita gente do universo do futebol que o conhece – por alguma razão surge o Monaco, com a mão de Henry, nesta equação - mas, na verdade, trata-se de um ilustre desconhecido para a maioria dos adeptos e, mais relevante, para o exército de comentadores e até analistas que diariamente opinam sobre o tema.
A grande maioria dessas pessoas nada sabe sobre Tralhão e sobre muitos outros que, como ele, têm estado na primeira linha do desenvolvimento do futebol jovem em Portugal de que o Benfica é um bom exemplo, ainda que haja outros que mereçam igual registo. Ainda no verão, o responsável do scouting, também do Benfica, José Botto tinha sido recrutado pelo Shakhtar, de Paulo Fonseca. Botto é tido como um dos melhores do Mundo na identificação e avaliação de talento.
O facto de uma significativa maioria dos jogadores que atuam na nova Liga Revelação, cerca de 70%, serem portugueses é um bom indicador. Para os próprios desde logo, para os clubes com toda a certeza. Esse trabalho feito discretamente – e admito que em parte tem que ser mesmo assim – nos clubes e na Federação é o que permite a um pequeno país como Portugal estar na primeira linha. Está nos resultados, o que é muito importante, na organização, na criação de um padrão que pode (e tem dado) frutos no futebol sénior.
Nos recentes jogos da equipa A entraram em cena (mais) alguns novos jogadores. O mais interessante foi ouvi-los dizer, por exemplo a Hélder Costa, que a integração tinha sido fácil (também) porque estava a reencontrar colegas com quem se tinha cruzado na formação. O momento que a Seleção vive e o inteligente processo de renovação tão (justamente) elogiado não é uma obra do acaso. É o resultado de um trabalho integrado e de uma visão de conjunto.
Em muitas ocasiões é mais tentador minimizar esta faceta no nosso futebol, área em que o país dá de facto cartas como se vê pela criação e exportação permanente de jogadores, treinadores e até executivos, e enfatizar a pequena polémica levando ao limite discussões estéreis embora coloridas e estimulantes para os tímpanos. É uma escolha.
Um assunto resolvido
Frederico Varandas fechou o tema Rui Patrício. O guarda-redes, como se tem visto neste arranque de temporada, pode vir a ser uma das figuras da Premier League – qualidade não lhe falta e, com toda a certeza, vale muito mais do que os 20 milhões de euros que o Sporting realizou, se tivermos em conta o valor global da operação. Havia uma dívida antiga com Jorge Mendes que terá que ser paga. Veremos se no futuro não será o Wolverhampton a fazer um grande negócio, mas esse cenário já não diz respeito ao Sporting. Na situação de contingência, o acordo foi o possível e o envolvimento de Rui Patrício acaba por enobrecer o jogador. Afinal ele quis sair, mas a bem e o facto de ter – de acordo com as notícias avançadas por fontes seguras – prescindido de uma verba significativa também confirma a ligação especial que sempre teve com o clube. Rui Patrício foi uma das faces (mais ou menos) visíveis da luta com o anterior presidente. Por certo toda a razão não estaria de um lado, mas o seu profissionalismo e a dedicação ao Sporting são inquestionáveis.
Seferovic. O terceiro golo em quatro jogos – desta vez pela seleção da Suíça – confirmou o que se sabia: o avançado, que esteve quase com guia de marcha, está em forma e não vai facilitar a vida aos seus concorrentes no ataque do Benfica. Quando foi contratado, há um ano, Seferovic não tinha um registo de golos elevado, mas tinha algumas das qualidades, como a capacidade pressão e a circulação de bola, que são relevantes num avançado moderno.
André Pereira. Fala-se menos da formação do FC Porto, em comparação com Benfica e Sporting – e há razões para tal –, mas alguns bons talentos têm sido gerados no Olival, sobretudo no ataque, um sector onde o futebol português é historicamente frágil. André Silva é o caso principal: deu nas vistas (e garantiu retorno financeiro), Rui Pedro perdeu brilho, Gonçalo Paciência, um pouco mais velho, tem muitas qualidades. André Pereira é um caso à parte porque saiu e voltou. Está na mira de Sérgio Conceição.
