Ele foi todos nós

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1 - O PRIMEIRO apito do árbitro tem o mesmo efeito do tiro de partida para o corredor de 100 m. Por detrás da expressão serena e do corpo franzino que explica afinal a alcunha que em tempos lhe puseram, está um homem concentrado e distante, mais próximo da obstinação do “sprinter” a milésimos de segundo da final olímpica, que propriamente do futebolista consciente de uma responsabilidade a repartir por dez camaradas de armas. Petit tem nessa altura o coração a bater ao ritmo de quem espera ordem para iniciar a tarefa, como se o Mundo, para ser resgatado às forças do mal, dependesse da sua generosa contribuição. Três, dois, um... e começa a corrida alucinante. Só o tempo ajudará a decifrar os mistérios criados a partir das primeiras imagens.

2 - PARECE um lutador que desafia as leis da natureza, mas é jogador de corpo inteiro; aos sinais de ideias e movimentos sem nexo aparente responde com o perfeito domínio dos terrenos que pisa; tem a dinâmica de um super-homem, junta-lhe coragem para assumir lutas aparentemente desiguais e logo a seguir ilumina a estrada com lucidez e inteligência que lhe permitem participar na circulação da bola. Se a primeira imagem é marcada pela abrangência da acção e pela solidariedade com dez amigos pelos quais fará o que for preciso para os ver sorrir, Petit surpreende quando mostra habilidade para definir a aproximação à baliza, articulando todas essas características sem cometer o pecado de querer fazer coisas que não sabe.

3 - PETIT encerra o fenómeno do TGV que pára em todas as estações e apeadeiros, locomotiva que percorre centenas de quilómetros em velocidade máxima e que, apesar dos desvios da rota, chega sempre no horário previsto. Acelera e trava; arranca e muda de velocidade; está na esquerda e dobra à direita; desarma à frente e ajuda atrás. Dito de outra maneira, percorre uma maratona em pequenas séries de 100 metros e encolhe os ombros manifestando estranheza quando lhe falam de egoísmo, desalento e cansaço. Chega a parecer um fantasma, porque ninguém acredita ser humanamente possível estar em sítios diferentes a fazer tanta coisa ao mesmo tempo. Mas nele podemos depositar toda a confiança: é incapaz de cometer qualquer traição.

4 - EM DUBLIN, Petit jogou pelo significado de atingir o topo da hierarquia; pela concretização de um sonho que o devolveu à infância; pelo respeito a uma época fantástica ao serviço do Boavista; pela confiança do seleccionador corajoso que o juntou a uma geração de ouro à espera de pisar o grande palco. Em Dublin, Petit foi exemplo de disponibilidade e carácter, confirmação de que um jogador para ser grande pode não ser feito apenas de talento natural. Em Dublin, Petit rebocou a equipa e deu argumentos sucessivos para entrar no imaginário daqueles que, nas bancadas, o elegeram como inesquecível ainda a viagem só ia a meio. Em Dublin, Petit ganhou assim todo o crédito para conquistar um posto na selecção e o coração dos adeptos. No fundo, ele foi todos nós.

Figura - Fernando Couto

MEMÓRIA - Nas imediações de Lansdowne Road, os vendedores irlandeses mostravam particular sensibilidade para a vitória do Liverpool na Taça UEFA. Entre “posters”, cachecóis, bandeiras e camisolas alusivas ao feito, lá estava a célebre frase que os adeptos de Anfield adoptaram como lema em memória de Bill Shankly: “You’ll never walk alone” (nunca caminharás sozinho).

CÂNTICOS - No momento de seguir para o aeroporto, alguns adeptos portugueses furaram o cordão de segurança para incentivar Fernando Couto (que já estava dentro do autocarro) e entoaram um cântico de apoio. Consumada a solidariedade da FPF, dos companheiros e da equipa técnica, o capitão sentiu, ao cabo de três dias de tormenta, o apoio de adeptos anónimos.

DECISÃO - Fernando Couto tem mostrado espantosa força interior na reacção ao caso de “doping” que lhe é imputado. Já o vimos triste, abatido e esperançado. Mas na Irlanda o golpe foi duro de mais para manter o sorriso e pela primeira vez deu sinais de desânimo. Em primeira análise pediu justiça mas acima de tudo exigiu uma decisão. E ninguém lhe pode negar esse direito.

AGITAÇÃO - O jogador mais internacional do futebol português já não consegue viver descansado com o mar de dúvidas que agita o seu futuro imediato. Por muito boas que sejam as opções geradas entretanto (Litos, Beto e Jorge Andrade), está em causa um pilar da selecção nacional que, se tudo correr bem, dentro de 12 meses estará a jogar a fase final do Campeonato do Mundo.

SOZINHO - Há quem contribua para aliviar o sofrimento e quem procure ir mais longe assumindo a tentativa de resolver mesmo o problema. Seja como for, todos devemos assumir um papel nesta história, em nome do passado brilhante e não pelos prejuízos da ausência. É preciso que Fernando Couto saiba que nunca caminhará sozinho.

Passe curto

Ian Harte previu o duelo com Luís Figo deixando escapar palavras nervosas - sejamos simpáticos... O génio respondeu nos limites da insolência: evitou o confronto directo e aos 4’ só não fez golo porque rematou mal; quando percebeu que afinal estava em luta com um bom rapazinho liquidou-o aos poucos e fez o empate.

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Dizem que muitos grandes jogadores no passado se diminuíam ao serviço da selecção. Jorge Costa é um exemplo da nova mentalidade: vai na 38ª internacionalização e não há memória de ter feito um jogo mau. Esteja ou não em forma, tenha ou não problemas físicos no seu clube, é sempre um dos melhores na selecção.

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Manuel Fernandes recuperou ideia antiga e utilizou Beto como médio-centro. Oliveira colocou-o agora ao lado de Petit e ainda o fez jogar a central, para terminar sobre o flanco esquerdo. Óptimo, desde que percebamos o essencial: a polivalência tem tanto de boa para os treinadores como de perigosa para os jogadores.

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Luís Boa Morte está na selecção porque fez uma época espectacular. Jogou frente à Irlanda pouco mais de 5’, por isso, porque foi dos poucos que se salvaram em Paris e porque há momentos em que o treinador precisa de enviar mensagens para o campo. Esta ouviu-se em toda a parte: “Estou fulo com o empate.”

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Ricardo foi o rosto mais visível da ousadia de Oliveira na partida de Lansdowne Road. Quim nunca deixou ficar mal quem nele confiou e mesmo atravessando momento de forma menos exuberante era defensável que permanecesse entre os postes. O importante é que a selecção tenha ganho um sem perder o outro.

Lá por fora

Luís Lourenço foi o melhor marcador da selecção nacional de sub-20 que nove anos depois cometeu a proeza de vencer o prestigiado Torneio de Toulon - em 1992 com Rui Costa, Jorge Costa, Capucho, Hélder, Abel Xavier, entre outros. Para além de ser o mais novo da equipa, foi o mais jovem da final. Por isso e não só ninguém levará a mal que seja apresentado como exemplo: o futebol português continua a criar jogadores em quantidade e qualidade para não estarmos preocupados - isto sem perder de vista que, apesar dos 18 anos e da ligação ao Sporting, terminou a época com uma experiência no estrangeiro.

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