Grande guarda-redes

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1- O GUARDA-REDES está para o futebol como as forças de segurança para a sociedade: são a última esperança de restabelecimento da ordem em momentos de crise. Durante mais de 50 anos o guarda-redes foi agente policial numa selva tipo Nova Iorque, dia inteiro em acção, a voar de um lado para o outro e a sair a cruzamentos, sempre na defesa das redes que sendo suas como atribuição, eram afinal de todos nós. A história fez-lhe justiça, porque a lenda da primeira metade do século tem a marca das imagens únicas de homens com boina em posições acrobáticas - Zamora (Espanha), Planicka (Checoslováquia), Hiden (Áustria), Carrizo (Argentina), Azevedo (Portugal) e Grocsis (Hungria) viveram entre os anos 30 e 50 e ainda hoje são mitos eternos.

2- DISSE Johan Cruyff já na década de 90: “Quando o guarda-redes joga bem é porque a equipa o fez mal e isso, hoje, na minha perspectiva de treinador, é coisa má.” A consagração da táctica (anos 60) e a evolução física (anos 70) alteraram o tipo de intervenção do guarda-redes, que continua na baliza para defender, mas acima de tudo está em campo para jogar. O Real Madrid de Di Stefano (Alonzo e Dominguez), o Brasil-70 de Pelé (Félix), o Ajax de Cruyff (Stuy), a Laranja Mecânica (Jongbloed), o Milan de Sacchi e Capello (Galli e Rossi), o Dream Team do Barcelona (Zubizarreta), maiores fenómenos colectivos dos últimos 40 anos, eram civilizações tão perfeitas que não precisaram de figuras lendárias a guardar-lhes as costas.

3- EM PORTUGAL a dinastia tem cinco nomes: Azevedo, Carlos Gomes, Damas, Bento e Vítor Baía (o primeiro na história a viver na selecção como grande guarda-redes de uma grande equipa). Nas últimas quatro décadas, o Mundo viu fenómenos como Yashine (o maior de todos, único bola-de-ouro), Banks, Maier, Zoff, Preud’homme... O grande guarda-redes assenta nos pressupostos de sempre: na confiança e respeito dos companheiros, na admiração espalhada pelas bancadas, no estatuto que intimida o adversário. O grande guarda-redes continua a ser o que através da presença entre os postes consegue, só por isso, atemorizar o avançado e conduzi-lo ao erro. O grande guarda-redes no futebol de hoje, digam o que disserem, tem nome: Peter Schmeichel.

4- SENDO feito de talento, condições físicas naturais e treino, o guarda-redes pode colmatar com outros argumentos a luz que, nalguns casos, nunca terá. Nélson dispõe sobre Schmeichel da vantagem da idade (menos doze anos) e da motivação; pode responder com mais empenho, com mais trabalho e até com uma corrente de simpatia generalizada que alimente a ilusão. Nélson pode até salvar um golo utilizando os reflexos que o mestre já não tem, ou adornar uma intervenção com argumentos físicos que faltam ao parceiro. Mas não pode competir no resto. É apenas um oficial superior (um bom guarda-redes) ao lado de um dos marechais mais condecorados da história do futebol. E o lugar dos marechais, enquanto não passam à reserva, é o seu velho posto de comando. A baliza, pois claro, onde é que havia de ser?

Figura - Jesus Seba

NÃO DEU JEITO - Guga pega na bola e tira um adversário da frente. Prossegue a rota que o leva à baliza contrária, passa por um e finta outro até chegar ao encontro final com o guarda-redes. Dribla-o, como é evidente, e não entra com a bola pela baliza dentro por razões que só ele poderá explicar. Se disser que não lhe deu jeito, a gente aceita porque deve ter sido isso mesmo.

ÚLTIMO TOQUE - Na caminhada, Guga teve sempre motivos para prosseguir. Foi ele, a bola, os adversários e a baliza. A única voz que ouviu foi a de alguém a dizer-lhe “vais fazer golo”, mesmo que o grito por todos escutado fosse o de um companheiro que, ao lado, pedia o último toque. Esse companheiro era Jesus Seba.

HISTÓRIA - Oito meses depois, Seba voltou aos relvados. Considerado inapto para a prática desportiva, submeteu-se a delicada cirurgia cardíaca e regressou anteontem à competição, cumprindo a derradeira e feliz etapa de uma das mais belas histórias de sempre do futebol português.

SUGESTÃO REJEITADA - Na tarde do regresso, Seba ofereceu o golo a Marcão e sugeriu a Guga a possibilidade de assinar o 4-0. Sugestão rejeitada. E se calhar bem. Porque depois de um lance daqueles todo o jogador vai direitinho ao golo e porque se não o fizesse ainda podia dar a imagem errada de uma festa de homenagem que não era, de todo, o espírito do jogo.

ATLETA E JOGADOR - Seba estava ali porque é notável atleta e um dos melhores jogadores da I Liga, porque tem a orientá-lo um grande senhor do futebol (Marinho Peres) e está num clube, o Belenenses, que, de momento, é gerido por pessoas de bem. Diz-se que os homens passam e as instituições ficam, ao que convém acrescentar: são os homens que dão prestígio às instituições.

Passe curto

Pedro Barbosa é um dos casos mais intrigantes do futebol português: não há memória nos últimos anos de alguém com tanto talento ser tão contestado. Ciclicamente, o “capitão” dá respostas em campo, como aconteceu frente ao Nacional. Presumo que, ciclicamente, deixe muita gente a falar sozinha.

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O Boavista já tem as armas das grandes equipas: ganha porque joga mais e (às vezes) melhor, mas também já ganha sem jogar bem. Depois das virtudes do “pressing”, dos bons extremos e da qualidade dos avançados, só faltavam mesmo os providenciais tiros de Sanchez que pareciam ter entrado no esquecimento.

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No Salgueiros, até Novembro, todos eram melhores do que são na realidade. Nesse período, Vítor Manuel estalava os dedos e alguém inventava um golo. Se fossem precisos dois, estalava duas vezes. E por aí fora. Até chegar à altura em que, fazendo as mesmíssimas coisas cem vezes, só via a bola entrar na sua baliza.

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Em Paços de Ferreira, João Pedro recuperou repentinamente a memória quando fez uma pergunta a si próprio: “Não me chamava Romário há dois meses?” Acto contínuo, com a velocidade de uma flecha tirou dois adversários da frente e com a potência de uma bomba fez o golo da jornada.

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Ednilson foi convocado para o jogo com o FC Porto - “bom”, terá pensado. Dias depois, Toni disse-lhe que ia jogar - “ainda bem, ‘mister’”, terá respondido tranquilamente. No fim foi dos melhores em campo - “isto não custa nada”, reagiu com os seus “botões”. É uma maravilha ver alguém fazer do futebol uma coisa simples.

Lá por fora

Ivica Kralj regressou ao Partizan Belgrado, colocando ponto final numa experiência mal sucedida no estrangeiro, primeiro no FC Porto, depois no PSV Eindhoven. Em Belgrado foi recebido como herói pelos adeptos e ouviu dos responsáveis as primeiras palavras em relação ao futuro imediato: “Com Ivica voltamos a sonhar com o título e com a Taça.” Ou seja, o mesmo homem que deixou milhares com pesadelos serve para pôr outros tantos a sonhar. Partindo do princípio que Kralj não é tão mau como mostrou nas Antas (e pelos vistos em Eindhoven), fica provado que o estatuto num guarda-redes é simplesmente fundamental.

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