Ângulo inverso

Nuno Santos
Nuno Santos

Jorge Jesus: o futuro começa hoje

Após a derrota em Braga a discussão sobre o futuro de Jorge Jesus era inevitável. Há de tudo na catadupa de opiniões, debates e trabalhos de ‘investigação’ dos últimos dias. Artigos consistentes, concordemos ou discordemos deles, discussões acaloradas ou simples lama na ventoinha lançada por aqueles que têm saudades do Sporting pré-Jesus, quando a equipa era menos competitiva e o futebol em Portugal se jogava a dois. Bons tempos!

Mesmo que Bruno de Carvalho tivesse feito uma declaração pública a assegurar a manutenção do treinador, tal não impediria a discussão, porque é assim a natureza humana. A época do Sporting parece hoje quase perdida, negra, acham os mais exagerados, já que ganhar ao Atlético de Madrid é o equivalente a ir à Lua e mesmo uma vitória sobre o FC Porto, na meia-final da Taça, com respectivo bilhete para o Jamor. não se afigura uma tarefa nada simples.

Eu também consigo identificar – são matéria de facto e não de opinião – vários problemas do futebol do Sporting e parece-me certo que Jesus tem responsabilidade direta em várias dessas questões, a começar pelo mercado de inverno, onde as desejadas ‘prendas’ se revelaram afinal umas belas encomendas que parecem complicar em vez de ajudar uma equipa onde o desgaste físico é uma evidência. O número de jogos feito pelo Sporting, se fizermos por exemplo uma comparação com o Benfica, explica porque em muitas ocasiões a equipa pura e simplesmente se eclipsa.

No entanto, e apesar de estarmos a pouco mais de um mês do final da época, é ainda cedo para, não só fazer um balanço, como projetar a próxima temporada. Um mês e meio pode ser o tempo para chegar do anunciado inferno ao agora distante céu.

Trata-se de uma realidade também para Benfica e FC Porto (e respetivos treinadores), mas que atinge de forma mais incisiva o Sporting, em grande medida porque estamos a falar de Jorge Jesus e, com ele, nunca há meias medidas. É tudo ou nada.

Se o Sporting ultrapassar o Atlético de Madrid e o FC Porto e encurtar distâncias na Liga (onde tudo, mas tudo está em aberto), o clima psicológico muda radicalmente e o foco também. Neste caminho, Madrid é o primeiro passo. Esta sexta-feira, a discussão em torno do futebol leonino pode continuar no tom em que tem estado – e com novos argumentos – ou começar a mudar como o vento. A 18 de abril, no fim da meia-final da Taça, as contas serão feitas. E talvez mesmo alguns ajustes de contas, porque, se correr mal, os inimigos de Jesus não hesitarão em anunciar o fim dos seus dias sugerindo-lhe uma reforma imediata.

Bruno de Carvalho, que sempre se mostrou hábil na escolha dos treinadores, terá com toda a certeza um plano alternativo. E deve tê-lo se for, como considero que é, um gestor prevenido. Não será fácil encontrar alguém com as qualificações de Jesus, mas há outros caminhos e nomes a explorar.

Ter um plano alternativo, ou plano B, não significa que, mesmo que o Sporting seja derrotado nas várias frentes, alguma solução seja mais consistente que a manutenção de Jorge Jesus. Na minha opinião não será, mesmo tendo em conta na equação o investimento feito e as expectativas que sejam defraudadas, mas a minha opinião – como as opiniões em geral – conta pouco.

A comparação com o que Luís Filipe Vieira fez no ano em que Jesus perdeu tudo é também abusiva: nem a situação é (ou será igual) nem o clube e o ecossistema que o envolve é o mesmo. Sempre o Homem e a sua circunstância. Nesse sentido é, pois, preciso dar tempo ao tempo – estamos a falar de semanas – e considerar as várias possibilidades. Bruno de Carvalho saberá o que é melhor para o Sporting. Jesus também. E ambos deverão ter a grandeza de colocar a instituição acima dos seus interesses particulares.



O negócio da televisão

Os media em geral (e a televisão em particular) têm as costas largas e é fácil atribuir -hes uma elevada quota de responsabilidade pelo estado atual do futebol em Portugal. Os programas, dizem muitos, incitam ao ódio e à violência em vez de exercerem um papel pedagógico ou de discutirem simplesmente o "belo jogo". Ora, a questão não pode ser posta exactamente nestes termos. O grande problema dos programas de televisão sobre futebol não é o facto de serem polémicos, de discutirem os casos, de tocarem nas feridas. A televisão, com exceção da pública, é um negócio e vive da audiência e da receita que gera. A controvérsia atrai os públicos. O problema é que muitos dos debates foram capturados pelos clubes, que direta ou indiretamente, os utilizam para passar as suas mensagens e denegrir os rivais, recorrendo mesmo à reles mentira. Mais: usam pessoas que ali aparecem com o estatuto de adeptos ou, pior, de comentadores independentes. Aí, sim, os responsáveis editoriais têm uma palavra a dizer. Sendo coniventes com este estado de coisas podem ganhar hoje, mas vão perder a prazo. Mais cedo ou mais tarde chegará a fatura.


Ronaldo. Cristiano Ronaldo, o jogador que ganhou tudo, em termos coletivos e individuais, entrou – enfim – no Olimpo do futebol, porque, com ele, os Deuses sempre foram mais exigentes. A ‘bicicleta’ que Turim aplaudiu e que deu, à velocidade dos dias de hoje, imediata volta ao Mundo, sintetiza, naquele gesto perfeito tudo o que Ronaldo é. Foi o golo do talento, mas também da perseverança. Mil vezes nos treinos, e algumas em jogo, ele procurara o seu encontro com a história. Conseguiu, uma vez mais.

Ibrahimovic. Uma das mais célebres ‘bicicletas’ da história pertence a Ibrahimovic, num remate a quase 40 metros da baliza. Zlatan, que também foi ouvido, elogiou o português mas, ao seu estilo, disse que de longe era mais difícil. Agora, nos Estados Unidos, onde vai fechar uma carreira sensacional, o indomável sueco ainda tem algum perfume do seu futebol para espalhar. Dois golos na estreia – um deles extraordinário – mostram que vai querer acabar como uma estrela.





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