Ângulo Inverso

Nuno Santos
Nuno Santos

Mourinho, à procura do tempo perdido

José Mourinho é, enquanto treinador, o maior fenómeno do futebol deste século. Reconheço, sem dificuldade, que ele terá mudado menos o jogo e os conceitos da organização em campo que Pep Guardiola, que tem até um ‘ratio’ global de títulos inferior, em comparação com o catalão, mas ninguém como ele foi tão inovador não apenas numa certa globalização do jogo – que começava muito antes e acabava muito depois – como no controlo de todo o processo, a começar na relação extrema criada com os jogadores e com os adeptos. Foi assim no Porto, em Londres, em Milão, em Madrid (mesmo a contragosto) e de novo em Londres, antes da fatal época de 2015/16, que está ainda hoje por contar.

O futebol das suas equipas terá, com o tempo, perdido brilho, nunca eficácia. Mesmo isso é discutível, se nos lembrarmos do Real Madrid dos 100 pontos que ganhou ao melhor Barcelona da história.

O facto de o Manchester United, um colosso em dificuldades, lhe ter confiado a liderança do clube responde às dúvidas que existiram sobre a sua reputação após o trauma da segunda vida no Chelsea.

Dizem também bastante sobre a sua autoconfiança e ambição. Para Mourinho, seria mais fácil sair de Inglaterra, ganhar noutro país e reentrar mais tarde com uma aura reforçada. A pergunta é, no entanto, evidente: voltaria o comboio do United a passar uma segunda vez?

O que sucede neste difícil arranque de época é que 12 anos depois de como um furacão ter mudado o futebol em Inglaterra, o português precisa agora de ter sucesso em dois planos: um mais elaborado – o de se reinventar, incluindo o discurso e a abordagem numa fase em que há outros protagonistas; outro bem mais simples: ganhar. De preferência jogando bem, ou um pouco melhor, mas se tal não suceder, pelo menos marcando mais um golo do que o adversário. Num plano de médio prazo tal não chegará para a cultura de exigência do United, nem restituirá em pleno o prestígio abalado do treinador português, mas permite-lhe ter uma base, o que neste momento, em alguns jogos e em muitos momentos do jogo, é difícil identificar. Doze anos depois Mourinho já não é o mais efusivo com os adeptos, chegaram Conte ou Klopp, já não é o único capaz de um bate-boca rasgado com os jornalistas, Guardiola também o faz, ou o único capaz de transformar rapazes vulgares em jogadores de topo, até Ranieri o fez. Muito mais relevante: já não parece ser o mais inovador ou surpreendente, quando vemos o City ou o Liverpool em ação.

Mourinho é, como sempre, alguém que só vive bem quando ganha, um estudioso, obcecado com o detalhe, caloroso na intimidade, duro se for o caso, que vai até ao fim com quem for mesmo com ele, tendo aprendido que, quando querem e o vento está adverso, os jogadores comandam de facto o balneário. Uma coisa é certa: numa liga tão desgastante e fértil em surpresas como a inglesa, decretar a morte de quem quer que seja em outubro, é manifestamente um exagero. Decretar a morte de José Mourinho é uma estupidez.

Jesus e a crise

Só aqueles que têm memória curta podem julgar que Jorge Jesus está a viver agora no Sporting uma situação diferente das que viveu no Benfica. E não estou a falar do fim das épocas negras, em que tudo se perdeu, estou a evocar nalguns casos os arranques titubeantes até a equipa encontrar o passo. Talvez o Benfica tivesse uma estrutura interna mais sólida, não no apoio do presidente – porque embora diferente no estilo, Bruno de Carvalho tem estado, como Vieira esteve muito tempo, ao lado do seu treinador. O resto é igual. O futebol é muito repetitivo.

As preocupações de Jesus neste momento não podem ser com o ruído externo – que é cada vez maior porque cada vez há mais ‘especialistas’, mais programas de ‘debate’, mais gente que sabe resolver problemas, mesmo que há anos não meta um pé no relvado.

As preocupações do treinador do Sporting devem ser a reconstrução do equilíbrio da equipa, atingida no estilo e na dinâmica pela saída de Slimani, mesmo tendo em Bas Dost um concretizador e a criação, chamemos-lhe assim, de um padrão de comportamento que o Sporting não tem tido e que não se explica apenas pela inexperiência.

Renato

Renato. A escolha de Renato Sanches como melhor jovem jogador europeu do ano resulta de uma conjugação de fatores invulgar. Desde logo o enorme talento do jogador, depois a aposta de risco – porque talento não chega – que o Benfica e estamos a falar de Rui Vitória, fez. Como se isso não bastasse, Renato, o jogador nuclear da época encarnada, foi contratado ainda antes do Euro’2016 pelo Bayern Munique, que tem fama de ser rigoroso nas escolhas. Ou seja, o jogador não entrou num desses clubes que são, por regra, simples plataformas giratórias. Finalmente ganhou, porque não tinha, quando chegou a França, um lugar na Seleção e Portugal acabou campeão da Europa. Melhor era impossível.


Rui Patrício

Rui Patrício. Tal como a escolha de Renato Sanches fez os benfiquistas gritarem a plenos pulmões que têm a melhor formação do Mundo (pelo menos), a inclusão de Rui Patrício nos 30 eleitos para a Bola de Ouro deixou os rivais do Sporting eufóricos.
É um feito – raramente os guarda redes chegam a esta fase – e muito menos guarda redes de ligas menores. Patrício conseguiu-o pelas suas enormes qualidades, à qual alia hoje grande maturidade, e pelo Europeu que fez, onde foi considerado o melhor entre todos os que estiveram na baliza. É um símbolo do clube, bem remunerado como tem que ser, mas também não se lhe conhece qualquer ânsia em partir. E faria boa figura em qualquer liga de topo.

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