Ângulo inverso

Nuno Santos
Nuno Santos

O Benfica e o modelo do futebol português

De uma assentada o Benfica vendeu Gonçalo Guedes pela apreciável soma de 30 milhões de euros, renovou com Pizzi, Ederson e, mais importante, anunciou o prolongamento do compromisso com Rui Vitória, o que significa a manutenção de um modelo que, no plano desportivo e no plano financeiro, está a dar bons resultados.

Será tudo como parece? O negócio de Gonçalo Guedes é, sem dúvida, bom. O avançado, com talento, não era um indiscutível e rende um excelente encaixe como outros num passado recente e que tinham até jogado menos. Mas, se o Benfica o mantivesse não teria melhores e mais diversificadas soluções numa fase decisiva da época? Seria necessário vendê-lo e, mais do que isso, vendê-lo já?

Pizzi e Ederson, dois jogadores nucleares da equipa, renovaram os contratos. Esse facto é uma garantia de que ficarão na Luz todo o tempo do vínculo? Hoje nunca se pode fazer tal afirmação. Pior, achamos – muitos de nós – que o Benfica, e de certa maneira bem, apenas quis com esta decisão preparar uma venda a prazo em especial a do guarda-redes. Mesmo que desvalorizemos muitas das informações que circulam, é um facto que Ederson é, até pela sua juventude, um dos guarda-redes mais referenciados pelos grandes clubes europeus e Luís Filipe Vieira tem aqui um negócio em perspetiva. Pizzi, menos cotado, tem sido o jogador do ano e também tem mercado. Já teve, aliás, uma experiência, mesmo frustrada, no Atletico de Madrid.

Rui Vitória, que tem gerido com mérito e resultados este entreposto, tem agora o prémio pelo trabalho realizado. Deixa de ser um treinador low cost e passa a ganhar em linha com o que faz. A questão, no entanto, que se aplica a Rui Vitória era válida para o seu antecessor, para os grandes do futebol português em geral e para o Benfica em particular. Ora, sendo o Benfica uma grande marca – maior que a liga portuguesa, como de certa maneira o FC Porto também é – está condenado a este modelo de gestão em que todos os anos tem de vender talento, seja nacional seja estrangeiro? Não há outro caminho para o futebol português? Que receitas poderia gerar o Benfica, com a força da sua marca, se, por exemplo, chegasse ciclicamente a uma fase decisiva da Liga dos Campeões ou a ganhasse mesmo?

Pode o leitor – e os dirigentes que estão no terreno – lembrar a dimensão do país e até o facto, com pouco mais de uma década, de também o Porto ter sido campeão da Europa. No futebol, no entanto, houve, neste período, uma grande transformação. Há hoje, como provam os acordos televisivos ou o contrato com a Emirates, novas fontes de receita. Novos mercados, como a China. Os clubes portugueses, mesmo o Benfica, não estão em condições de figurar no top 5 europeu, mas deveriam ter outra ambição e outra visão. Até porque com tanta venda continuam com uma dívida altíssima.


O pior treinador do Mundo

Escrevo antes da entrevista de Jorge Jesus à Sporting TV. Não tenho dúvidas da eficácia da escolha do meio – a entrevista será amplamente replicada e se há uma mensagem para passar, é melhor que esta seja passada sem perguntas incómodas. As coisas são o que são, o Sporting não é o único a ter o ser o seu canal e, quando estão em dificuldades, os diferentes agentes jogam pelo seguro.
No futebol, como na vida, não há gratidão e não faltam neste momento os que atiram pedras a Jorge Jesus. Muitos estavam na primeira fila a tecer-lhe elogios quando entrou pela porta grande. Jesus cometeu erros esta época e é a personalidade peculiar que se conhece, mas é – de longe – o melhor treinador do futebol português. Não apenas por ser o que mais ganhou, mas pela qualidade do seu trabalho, pelos seus conhecimentos, pela sua influência no jogo. O que o Sporting tem de fazer é, sem hesitações, fazer o que o Benfica fez – criar uma estrutura que apoie o treinador, que o proteja e que o defenda. Qualquer outra ideia é asneira.


BRAVO. Quanto vale um bom guarda-redes? Raramente contratados por valores avultados, estrelas sobretudo em equipas de pequena e média dimensão, os guarda-redes são, nas equipas de topo, elementos decisivos. Estão menos em jogo, mas é-lhes exigido que façam a diferença. Um dos fatores críticos da má carreira do Manchester City é a fragilidade do guarda-redes Claudio Bravo. Depois de uma grande carreira em Espanha, Bravo aceitou o desafio de Guardiola e as muitas libras do City. Apresentado como um especialista a jogar com os pés, tem sido um flop porque a liga inglesa, com os seus cruzamentos loucos e remates constantes, é muito diferente. 


COURTOIS. Bom em qualquer latitude é o ainda jovem belga Thibaut Courtois, que esta época, uma vez mais, tem estado a grande altura, na baliza do favorito Chelsea. Courtois não está muito em jogo, mas está quase sempre bem, como sucede por exemplo com David De Gea, do Manchester United, outro guarda-redes da mesma geração. Courtois será agora o pretendido para a baliza do Real Madrid, no que seria um regresso pela porta grande à capital espanhola, depois de, durante algum tempo, ter deixado a sua marca na baliza do rival Atlético. 



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