O crime do talento

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1- A EXPRESSÃO do rosto denuncia angústia, o ar assustado é a testemunha mais consistente do sofrimento que abalou o capital de confiança comum a todos os artistas. Hoje, Deco não acredita na diferença feita de talento superior, evita o requinte no toque e receia que a magia do drible se vire contra ele e o faça desaparecer da circulação. Por falta de experiência, por ser genuíno, deixa transparecer de imediato o estado de espírito agitado e já substituiu o dom das vistas largas pela falsa miopia, quando não pela cegueira mais falsa ainda. Só tem 23 anos mas aprendeu que, em tempo de urgências, errar é crime e nem vale a pena equacionar se é preferível a segurança de um passe para o lado, ou arriscar outro mais longo e susceptível de dar golo.

2- PARA Deco o futebol é um espaço de liberdade, a bola um objecto de rebeldia e o campo o palco predilecto para a expressão criativa. Há cerca de dois meses pisa a relva e encara o Mundo com um manual de sobrevivência debaixo do braço, concebido a partir de um plano de defesa nacional nascido e imposto pelo topo da hierarquia. Vive com a sufocante preocupação de ocupar o espaço, de não deixar o adversário fugir, de correr atrás dele, de o derrubar se for preciso, de compensar a hipótese remota de devaneios que outros possam ter. É a pressão do silêncio, das portas fechadas, da cara de maus rapazes no fim dos treinos e do rigoroso cumprimento de um guião capaz de matar de medo qualquer espírito sensível e delicado.

3- OS MILITARES há séculos que o descobriram mas guardaram segredo por pudor. O ministério de defesa espanhol apenas teve o mérito de o assumir há relativamente pouco tempo: “O soldado menos inteligente obedece melhor.” Como o futebol se transformou em guerra permanente e os jogos são batalhas, os melhores ou desaparecem ou entram em campo mascarados de vulgares. Esta linguagem bélica, que nasce nas bancadas, entra nos gabinetes e alastra ao relvado, num misto de ansiedade, revolta e cobardia, é um vírus capaz de contaminar as mais nobres convicções estéticas dos seres superiores que jogam à bola. Esses, como preferem a acção ao banco, não têm saída e fazem como os soldados do sr. Aznar: obedecem. Adulteram o princípio da fantasia e violentam-se jogando como não sabem.

4- NO BOAVISTA, Sanchez é o primeiro a sair e Jorge Couto é o último extremo do plantel; no Benfica, Poborsky já não está, Sabry tem estado pouco e Roger acabou de chegar; no Sporting, Pedro Barbosa é um capitão à beira do custo zero, Rodrigo Fabri foi um equívoco durante quatro meses e Tello está ainda a definir-se; no FC Porto, Alenitchev joga a conta-gotas, Capucho é um indiscutível recente e Drulovic sofreu acidente em combate. Não é de estranhar, pois, que se jogue cada vez pior em Portugal. E o problema não está nas pernas mas na cabeça das grandes estrelas: são as ideias baralhadas de Deco e não as debilidades do físico que explicam a anormalidade de, sendo um artista, ter nove (!) cartões amarelos e um vermelho nos últimos nove jogos que fez.

Figura - Zé Roberto

VENERAÇÃO – Em 1971, antes de um Ajax-Feyenoord, Stefan Kovacs seguiu o conselho de não destacar o então jovem Neeskens para marcar o já consagrado Van Hanegen. É que tinham sido companheiros de quarto num estágio da Laranja Mecânica e desde então Neeskens venerava o grande craque, pelo que não dispunha de condições psicológicas para o marcar.

MARCAR O “10” – Diferente é uma história dos anos 90, toda ela argentina, que começa em Jorge Valdano, que a contou, e prossegue num jogo da liga espanhola. Redondo, então no Tenerife, frente ao Sevilha de Billardo, gritava aos companheiros com indiferença a rondar o desprezo: “Marquem o ‘10’!” O “10” era só Diego Armando Maradona.

AUTÓGRAFOS? – Zé Roberto inspirou-se em Redondo. Entrou, olhou à volta e terá dito que o “goleiro” era grande e que o “50” era canhoto e tinha o sotaque lá da terra. Enquanto isso estudou a forma de os enganar. No fim pode até ter pedido autógrafos a Schmeichel e André Cruz, mas antes marcou-lhes dois golos e ganhou o jogo.

“CHIU” – Só que a “provocação” foi mais longe. Na saudável inconsciência revelada, ainda teve disponibilidade para festejar o primeiro golo mandando calar os adeptos sportinguistas, em Alvalade. Parecia que tinham contas a ajustar, como se isso fosse possível a quem fez o quarto jogo pelo Sp. Braga...

MOSTRAR SERVIÇO – Enquanto a análise aos reforços leoninos gira à volta do estilo de Tello e Cáceres, Zé Roberto sugere o recurso a outro tipo de argumentos. Ninguém quer saber se é mesmo ponta-de-lança, se descai para os flancos ou recua no terreno. Quem marca três golos numa semana, dois dos quais em Alvalade, é merecedor de crédito maior. Parece justo, não?

Passe curto

Porfírio já foi expulso porque tocou a bola a meio campo com o jogo parado. Agora é porque dá (punição justa) e porque leva; porque se cala e porque protesta. Quer dizer: é um alvo fácil para os árbitros que têm sede de autoridade. E para os incompetentes também, como se viu no jogo com o Salgueiros.

Nunca o filho de um treinador foi tão importante para uma equipa como Ricardo Sousa no Beira Mar. Convém acrescentar, já agora, que também não me recordo de um treinador da I Liga ter um filho com tanto talento à sua disposição. Vai em seis golos no campeonato, o último dos quais, no Restelo, simplesmente perfeito.

Em Leiria, Quevedo recebeu um centro da direita, fez a diagonal da esquerda para o meio e cabeceou à barra. Cinco dias depois, no Bessa, frente ao Est. Amadora, recebeu o mesmo cruzamento, fez a mesma diagonal, só que melhorou a eficácia do cabeceamento e marcou golo. Os treinos e o treinador servem para alguma coisa...

A jogar na Luz com nove e a perder por 3-1, Manuel José meteu Luís Vouzela, temendo o descalabro. Cinco minutos depois Nuno Valente fez o 3-2, através de um remate que queria dizer “há esperança.” Manuel José ouviu-o e lançou Paulo Alves. Não deu para empatar mas deu para pregar um susto merecido.

O Mundial de Andebol confirmou que o futebol continua a ter necessidade de encontrar referências noutras modalidades. Alimentar o diálogo quando se tem a bola; o conceito de ordem e solidariedade a defender; o descanso que só é possível a atacar; o talento para assumir o contra-ataque como arma.

Lá por fora

Gabriel Batistuta não estava particularmente inspirado em Parma, onde a Roma perdia por 1-0, um dia depois de a Juventus ter cedido em Bergamo, com a Atalanta, comprometedora derrota. O cerco à baliza de Buffon foi crescendo assustadoramente à medida que o tempo passava, numa das mais expressivas demonstrações de poder vistas no “calcio” nos últimos anos. E quando foi preciso, “Bati” lá estava para transformar o sufoco romano em números: dois golos com a assinatura do melhor avançado do Mundo, correspondentes a três pontos que cimentam a condição da Roma esta época como a mais forte candidata ao título italiano.

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