Ângulo inverso

Nuno Santos
Nuno Santos

O eterno Portugal dos pequeninos?

Portugal está na moda, lê-nos jornais, descobre-se online. Multiplicam-se os artigos elogiosos sobre o país, que não é só Lisboa nem o Porto, apesar de as duas cidades estarem muito bem cotadas. Portugal está na moda, os nossos destinos de praia são procurados, a gastronomia é o que sabemos, a paisagem contrastante surpreende, os nossos festivais de música são elogiados, a nossa velha forma de receber sublinhada. É um tempo bom, com a economia a recuperar – devagar é certo, o espectro da crise esbatido, Marcelo na Presidência a espalhar afeto.

E até no futebol Portugal ganha terreno. Afinal somos campeões da Europa, há bom trabalho e títulos no futebol jovem, cresce o futebol feminino, o futebol de praia, a Federação organiza já nos próximos dias o maior e mais importante encontro, à escala mundial, sobre esta indústria, o seu impacto, a sua importância.

Neste país das maravilhas, sem ironia, só o futebol dos clubes anda no ritmo de sempre para pior. Organização profissional, existe e já há uns anos, mas a incapacidade para gerar mais receita, para atrair investidores, para contratar jogadores de melhor qualidade, para reter talento mais algum tempo é problema crónico. É a dimensão do mercado, dizem. E, no entanto, nos últimos anos – só para dar um exemplo – os nossos clubes foram rápidos a vender algum do talento gerado nas academias, mas menos hábeis na identificação de jogadores estrangeiros com verdadeiro potencial.

O resultado está à vista. Se as equipas nacionais, mesmo as melhores, como Benfica e FC Porto, encontram adversários na Europa que sendo da primeira linha não são exatamente os gigantes , a condenação é inevitável. Benfica e FC Porto foram eliminados porque foram inferiores, pareceram sempre inferiores e completamente incapazes de gerarem um plano para inverter a situação. Já entraram derrotados.

Só se podem queixar de si próprios. Esta nossa pequenez levanta uma questão de fundo: estão os clubes portugueses condenados a ficarem para sempre na segunda divisão da Europa? E, cada vez, com menor visibilidade e receitas mais baixas. Não há outra forma de gestão, outra visão? Sendo globalmente uma área de atividade onde temos talento, não apenas a jogar, não será possível inverter o estado das coisas?

Julgo que é, mas para que isso suceda é necessário, como está a acontecer na Federação Portuguesa de Futebol, que haja uma ideia, uma liderança e uma equipa para a executar.



Sempre especial

Na vida em geral não há gratidão. No futebol, território de emoções à flor da pele, a memória é ainda mais curta. Se apareces com outra camisola vestida é o Diabo. Nos países latinos tudo é mais exacerbado por razões ditas ‘culturais’, mas o futebol estimula, seja qual for a latitude, os sentimentos mais primários. Ninguém se espanta que uns quantos adeptos do Chelsea, não a maioria, tenha chamado Judas a José Mourinho, insinuando uma traição ao clube que eles sabem, se forem racionais, que nunca aconteceu, porque o português, tendo saído pela porta pequena, não o fez por sua iniciativa, não foi hostil com o emblema, nem sequer com os jogadores e estes não se terão portado exatamente bem. Todos sabem o que aconteceu no Inverno passado. Mourinho perdeu mas fez, em circunstâncias difíceis, o que poderia ser feito para travar o Chelsea e, mais relevante, deu um novo passo num trabalho muito importante: criar um espírito de grupo blindado e uma sólida relação com os adeptos do United. No fim sabia bem o que estava a fazer, quando lhes foi agradecer, levando a equipa com ele.

Casillas. Iker Casillas gosta do FC Porto, gosta da cidade do Porto – basta segui-lo na sua consta de Instagram –, sente-se respeitado e quer continuar. Depois dos anos finais tão turbulentos no Real Madrid, aquele que é talvez o maior ícone do futebol espanhol, reencontrou a paz de espírito em Portugal. O Porto sempre foi bom a acolher as pessoas. Voltou a jogar em bom plano, a inspirar confiança, a não ver o seu valor e, sobretudo, o seu profissionalismo questionados. Iker não está acima da crítica e não esteve inocente no processo da sua queda em Madrid, mas um atleta com o seu percurso merece sair de cena perante o aplauso geral.

De Gea. O sucessor de Casillas na seleção espanhola, já não restam dúvidas, é David de Gea, o extraordinário guardaredes do Manchester United, que volta a estar na calha para ser também o sucessor efetivo em Madrid. Com Keylor Navas sempre visto como um patinho feio, De Gea esteve há dois anos com os dois pés no Real, tendo a transferência sido abortada pelo que pareceu ser um lamentável erro administrativo. Ou pior, um ato de amadorismo. E agora? Quererá ele ir? Irá o Real Madrid gastar uma verba nunca vista por um guarda-redes? E o que fará Mourinho entre a defesa dos interesses do Manchester e as ligações com Florentino Pérez? Em Espanha todos sabem que uma eventual contratação resolve um problema com vários anos e para vários anos. 




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