O «fenómeno» está aí

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1 - Quando deu por ele, Ronaldo Luiz Nazário de Lima, o maior fenómeno comercial e publicitário da história do futebol, herói experimental de uma nova forma de habitar o Mundo, estava prisioneiro de um gigantesco Big Brother montado à sua volta e com a vida reduzida a permanente negócio. Uma vez, em França, eram cinco da tarde, desmaiou; acordou no hospital e disseram-lhe para repousar; às oito da noite estava a entrar em campo para jogar uma partidinha sem importância: a final do Campeonato do Mundo. Precisou de ficar com o joelho ao contrário para reencontrar a tranquilidade. Casou, foi pai e desapareceu da circulação. Mais de um ano depois, com o joelho no lugar, regressou aos treinos. E já disse que tem saudades da bola.

2 - Sendo o mais demolidor atacante dos nossos dias, visto e analisado como simples ponta-de-lança, Ronaldo está longe da perfeição. Não tem o tiro mortífero de Batistuta, nem o sentido solidário de Vieri e Crespo, muito menos a paciência de Bierhoff e Jardel, capazes de passar uma vida inteira na grande área à espera de um passe que pode até nem chegar; não procura sugerir-se de forma tão evidente como Owen e Henry, nem possui as preocupações estéticas dos gestos e dos movimentos de Kluivert e Schevchenko; falta-lhe a noção colectiva de Raul e Bergkamp e não exerce sobre o adversário o efeito-surpresa de Romário, o “baixinho” das explosões em espaços curtos, que faz de conta que anda perdido ali nas imediações da grande área e em milésimos de segundo, desmarca-se, recebe e inventa um golo.

3 - Ronaldo arranca de longe, acelera quando vê o sinal amarelo, trava ao vermelho, muda de velocidade e de direcção quando volta a cair o verde e deixa para trás um rasto de desgraça na defesa contrária. Para ele a grande área é pequena - e prisão por prisão já lhe chega a da vida. Afasta-se para ser mais perigoso e quando pega na bola, nem que seja no meio campo, todos sabem no que está a pensar. O caminho para a baliza é o mesmo que fez para vir buscar a bola, só que desta vez será percorrido a 200 à hora, com a perícia necessária para sair ileso do engarrafamento - confirmação de que também possui talento para resolver em espaços curtos. Mas o mais impressionante em Ronaldo não é a potência, a rapidez ou o talento. É a confiança quase provocatória nas suas próprias capacidades.

4 ­- Uma convicção que chega para tudo, até para vencer os profetas da desgraça. Que ficava a léguas do génio de Maradona; que Pelé, esse sim “fenómeno”, foi rei e campeão do Mundo mais cedo ainda; que pontas-de-lança a sério sempre houve melhores, porque para marcar golos nem é preciso jogar bem. Mas como não acreditar em Ronaldo se tem apenas 24 anos? Como não ter saudades de alguém que, sabemos hoje com a segurança de não termos visto nada igual em dois anos, é o mais excepcional jogador do seu tempo? E o que dizer, por fim, de um avançado temível que em vez de utilizar os dentes para meter medo aos defesas, os mostra a todos nós como expressão máxima de felicidade?

Figura - Martelinho

PERGUNTAS - Garrincha teria sido o que foi como driblador (na direita) a jogar como armador (no meio)? Puskas, só porque era canhoto, seria eterno se jogasse encostado à esquerda? O que teria sido de George Best e Gento se em vez da orientação das linhas tivessem jogado livremente por todo o campo?

FALA D. ALFREDO - Como esta não pretende ser a secção das perguntas estúpidas, vamos ao que interessa. E o que interessa agora é uma declaração de Di Stefano, primeiro jogador total da história do futebol: “Podia jogar em qualquer parte do campo, mas aprendi que a extremo quem jogava mesmo bem eram os extremos.”

DE EXTREMO PARA EXTREMO - O ponta-de-lança recuou, lançou o extremo-esquerdo, este resistiu ao defesa, aproximou-se do guarda-redes e deu o golo ao extremo-direito. Foi assim que Whelliton, Duda e Martelinho fabricaram a vitória do Boavista sobre o FC Porto e conquistaram a liderança do campeonato.

PROVOCADOR - Duda é um “provocador”. Às vezes dribla sem sentido, só pelo prazer mórbido de ganhar ascendente moral sobre o adversário. Outras dispara para a baliza, pela esquerda ou pela direita, e associa-se ao golo - outras ainda paga a ousadia com o corpo. Já jogou a defesa-direito, no sábado actuou a extremo-esquerdo. É um especialista das linhas.

SEMPRE COM PRESSA - Martelinho serpenteia menos mas está sempre com pressa e nem custa imaginar que faça tudo na vida a correr. O que não é crime desde que cumpra as regras de trânsito e do bom senso. Utilizar a velocidade pelo flanco e gostar do que faz é uma vantagem para cumprir o que lhe pedem. Ou já se esqueceram de que a extremo quem joga mesmo bem são os extremos?

Passe curto

Deco sentiu-se nu perante milhares quando o defesa adivinhou um drible mais ousado e lhe roubou a bola. Pensou no momento: “Ou me enfio num buraco, ou agarro o ladrão.” Como não havia buraco e o futebol tem regras a cumprir, foi expulso por acumulação de amarelos. Sabry em Leiria fez a mesma coisa, lembram-se?

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Secretário, Pena e Drulovic estavam lesionados; Aloísio, Deco e Alenichev sentaram-se no banco; Nélson ficou em casa. Chainho e Jorge Costa saíram em maca e Deco ainda foi expulso. Da soma destes factores resultou, no Bessa, o FC Porto mais frágil dos últimos tempos. Não lhe parece, engenheiro?

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Hassan, que joga no Farense, apanhou Pena, que joga no FC Porto, no topo da lista dos marcadores. Nesta coisa dos golos tudo é muito relativo e nem sempre tem lógica. Em meio campeonato o marroquino já marcou o dobro do que na época passada e se na segunda volta repetir a dose chega aos 100 golos na I Liga.

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Rodrigo e Van Hooijdonk tinham mesmo razão. Um queria jogar e não o deixavam (provou que é craque e marcou três golos em duas partidas), o outro teve de ser um bocado bruto para ganhar o seu espaço e continua a marcar os seus golitos - seis nos últimos três jogos, 10 na I Liga, 14 no total da época.

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A convicção de um árbitro é fundamental. Se apita em consciência, mesmo que mal, vence os protestos. Um exemplo ao contrário: Lucílio Baptista viu um “penalty” que não foi, só não viu quem o cometeu e por isso expulsou o homem errado. Rectificou a tempo mas não limpou a imagem de dúvida num lance capital. Inaceitável.

Lá por fora

Alessandro Nesta é, muito provavelmente, o melhor defesa-central do futebol contemporâneo. Porque é jovem, tem apenas 24 anos, só o futuro definirá se pode chegar ou não à grande galeria da história, para a qual o último contributo italiano foi Franco Baresi. Para já, Nesta pode orgulhar-se de ser o defesa mais valioso de todos os tempos. A Lazio acaba de receber uma proposta do Real Madrid para a venda do seu capitão de equipa. Acrescente-se que foi uma proposta de pôr os cabelos em pé: dez milhões de contos. Está tudo louco: os espanhóis que ofereceram e os italianos porque recusaram.

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