O guarda-costas

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1 - NÃO tinha o amparo de uma carreira de sucesso, nem sobre ele recaía a menor suspeita de ser um homem com sorte. À entrada para a época 2000/01, Ricardo era uma vítima comum entre os guarda-redes portugueses que percorrem o caminho da titularidade precoce até ao banco dos suplentes; um entre muitos jovens que vêem a promessa de glória transformada em esquecimento e dúvida, resultado de processos nos quais são vítimas de cálculos errados: afinal a esperança tinha sido precipitação; as qualidades imensas eram apenas indícios de um projecto para desenvolver mais tarde; a convicção que parecia definitiva não resistiu ao primeiro erro e derreteu-se no momento de concluir a busca para encontrar alternativa mais experiente.

2 - RICARDO é fiel intérprete do espírito competitivo da sua equipa. Sóbrio e eficaz, distante e frio, indiferente à pulsação e ruído da bancada; domina cada vez melhor o papel que lhe cabe em palco e sabe que acima de tudo é fundamental o respeito pelo estilo, pela imagem e pela matéria de que é feito o novo campeão de Portugal. É discreto, domina a ânsia de participação e não fere com folclores despropositados a seriedade de uma equipa que para manter o cofre intacto se dispôs um ano inteiro a sufocar o candidato a assaltante assim que este saía de casa - para isso utilizou a sua força de comando mais avançada, nas figuras dos soldados especializados Silva, Whelliton ou Demetrios (pelo meio), Martelinho, Duda ou Jorge Couto (pelos flancos).

3 - ANTES de confirmar o talento que lhe confere o título de melhor guarda-redes da I Liga, à frente da legião estrangeira liderada por Schmeichel, Ovchinnikov e Enke, Ricardo mostrou os atributos mais raros e por isso mesmo mais procurados no futebol dos dias de hoje: qualidades físicas e sobretudo psicológicas para suportar com autoridade uma grande equipa. Ou seja, o jeito especial para passar semanas a ver pacientemente o jogo ser triturado diante dos seus olhos sem perder a concentração. Em cada hora e meia a bola chegava à sua área poucas vezes, raramente com perigo - uma ou duas, três no máximo. De qualquer modo, e sempre que tal aconteceu foi um homem sereno que entrou em acção. Um homem preparado para tudo, até para interferir na história do campeonato.

4 - SENDO apenas o guarda-costas de um conjunto para o qual a defesa das redes foi questão de honra colectiva, Ricardo passou 16 dos 28 jogos que efectuou sem sofrer golos. Tem uma história curiosa esta época: começou no banco porque perdera estatuto e não ganhara currículo; no segundo jogo a titular, em Campo Maior, foi expulso, acrescentando argumentos à convicção de que a estrelinha da sorte lhe tinha virado as costas. Uma das grandes armas do Boavista para chegar ao título foi filtrar o jogo ao adversário com sucessivas barreiras para que a onda, quando chegasse à praia, já fosse inofensiva. Ricardo aproveitou o sossego para reiniciar a escalada e enquanto Vítor Baía não recupera só Quim o perturba no caminho para a selecção nacional.

Figura - Van Hooijdonk

NÃO SUBSTIMAR - Pior classificação de sempre (6º lugar), segunda pior defesa da história (44 golos sofridos contra 47 em 1946/47) e um futuro pouco risonho para os próximos anos. Um alerta para quem acreditava que o Benfica já tinha batido no fundo em anos anteriores: é importante não subestimar a incompetência de quem o liderou nos últimos dez/quinze anos.

ESTAR A MAIS - Os demagogos, que a partir de certa altura quiseram apenas salvar a pele, passaram a mensagem segundo a qual era João Pinto o grande desestabilizador do balneário, a força do bloqueio, o homem a mais que emperrava a máquina. Despediram-no (falemos claro) com o argumento implícito de incompetente. Do que ele se safou esta época...

LIDERANÇA - Pierre van Hooijdonk chegou com currículo e sorriu; recebeu o carimbo de tosco e sofreu; falou com razão e não foi bem entendido; começou a marcar golos e tornou-se a grande referência do ataque benfiquista. Quando o barco começou a meter água por todos lados, assumiu a liderança numa equipa sem voz. E voltou a não ser entendido.

ABISMO - Não passa de suspeita mas o holandês, à semelhança de outros jogadores da I Liga, tem agido como se estivesse de saída. Se partir pode fazê-lo descansado: confirmou os argumentos de goleador, mostrou ser um líder e não tem culpa de estar num grupo que foi esvaziado aos poucos, até perder totalmente a força e o estatuto, factores que apressaram a queda no abismo.

MÍSTICA - Recorrendo ao discurso de van Hooijdonk no final do jogo de Alvalade, por exemplo: é normal que seja um estrangeiro com meia dúzia de meses de casa a defender, por profissionalismo, a honra e a dignidade do maior clube português? Discretamente, foi o grande aliado de Toni, um perfeito conhecedor de palavra que o holandês nem sonha que existe: mística.

Passe curto

Acosta despediu-se dos sportinguistas e vice-versa. Alvalade viveu momento emocionante no adeus ao matador que deu rosto e golos à caminhada vitoriosa da época 1999/00. O ponta-de-lança parte vergado aos interesses do clube, mas sai convencido de que devia ficar. Os leões verdadeiros nunca se dão por vencidos.

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Se para Acosta o fim da época foi “até um dia”, Deco vai de férias com um surpreendente “hat-trick” na vitória sobre o Boavista, isto é, o senhor campeão nacional. O brasileiro confirmou ser um amigo do golo, um fora-de-série que não sendo finalizador conhece bem os caminhos que vão dar à baliza contrária. Tenha ele confiança...

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Há casos de jogadores para quem o fim do campeonato foi uma fatalidade. Tozé é um excelente exemplo: tinha feito três jogos em toda a época, num total de 29’. Na última jornada, em Braga, entrou aos 73’, marcou aos 74’ e aos 90’, transformando-se na última grande figura da notável U. Leiria 2000/01, de Manuel José.

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Luís Campos, o homem que salvou o Gil Vicente, está entre os grandes vencedores da época. Pegou numa equipa destroçada psicologicamente, sem esperança de sair do fundo da tabela mas conseguiu a manutenção. Assim de repente, parece claro que o futebol português ganhou um treinador a ter em conta.

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“Há homens que lutam um dia e são bons/ Há outros que lutam um ano e são melhores/ Há aqueles que lutam muitos anos e são muito bons/ Mas há os que lutam toda a vida/ Esses são os imprescindíveis” (Bertold Brecht). Faleceu Joaquim Ribeiro Meirim. Talvez um dia o País perceba as razões por que ficou mais pobre.

Lá por fora

Luís Figo sagrou-se campeão espanhol ao serviço do Real Madrid. Não é apenas mais uma grande conquista do mais famoso e credenciado jogador português da era pós-Eusébio, é o momento de resgatar a dignidade posta em causa quando saiu de Barcelona trocando-o pelo grande rival. Figo tornou-se ídolo em Chamartin, manteve-se imperturbável, fez uma época simplesmente irrepreensível, sempre ao seu nível e àqueles que o obrigaram a passar os momentos delicados da visita a Camp Nou responde agora com o título nacional e uma diferença em relação aos catalães que vai em 17 pontos. A Liga dos Campeões fica para o ano.

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