O novo imperador

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1 - NOTA-SE à primeira vista: quase 1,90 m de altura, elegância na corrida, inteligência nos caminhos que percorre em campo, astúcia na utilização do corpo, solidez absoluta no compromisso com a equipa. Não custa reconhecer nele a figura do novo imperador da Luz e não apenas pela imponência do físico. Disse Angel Cappa, treinador argentino, em tempos adjunto de César Luís Menotti e Jorge Valdano: “O atleta quando chega acaba, o jogador quando chega começa.” Um conceito que não atrapalha Fernando Meira, que tem pulmão e cabeça, corrida e muito jogo; que junta músculo aos lançamentos longos, autoridade à forma como ganha os duelos individuais e visão ao talento de chegar-se à frente levando a bola.

2 - MEIRA é um líder silencioso, sempre no limite da concentração, a quem é raro ver um sorriso. É um líder técnico com influência no jogo, pelo reconhecimento do adversário e pelo instintivo sinal de respeito dos companheiros. Mas não é ainda, no Benfica, um líder ideológico, o símbolo que define o estilo e o comportamento da equipa. É essa diferença filosófica que o separa do peso institucional e futebolístico de Guardiola e da voz de Paulo Sousa e Deschamps. Mas é essa diferença que lhe permite ser líder em qualquer circunstância, quer seja capitão de uma equipa construída à sua volta (como Quinito teve a coragem de fazer em Guimarães) quer esteja apenas integrado noutra realidade. E o Benfica sendo um só, Heynckes, Mourinho e Toni, se bem os contaram, são três - três treinadores em sete meses, se é que me faço entender...

3 - PELO espaço que abrange, Fernando Meira (que nunca terá boa relação com o golo) é uma espécie de Patrick Vieira (que nunca será central), da mesma forma que recorda Matias Almeyda pela dinâmica e Redondo pelo tipo de participação no jogo. Se cumprir o trajecto normal acabará a líbero. Aliás, ser médio ou defesa é a grande questão que se levanta sobre as suas características. Bobby Moore (central que acabou a médio) é excepção a uma regra cujo exemplo mais eloquente é Franz Beckenbauer, o melhor defesa da história do futebol, que veio da frente para trás, para aí conhecer as maiores glórias da sua carreira. Matthaeus, Rijkaard, Desailly e Hierro são bons exemplos, embora subjacente ao recuo de todos eles estivessem argumentos físicos e não técnicos.

4 - PORQUE é jovem e gosta de participar; porque ainda tem dinâmica e prazer em tocar a bola; porque sendo paciente tem a natural ansiedade da acção, Meira é hoje mais médio que defesa. Mas já tem todas as qualidades para jogar atrás: físico, carácter, inteligência, noção do espaço, tempo de entrada aos lances, bom jogo de cabeça. E joga em pé - o leitor já se apercebeu que é muito raro ver os grandes centrais andar pelo chão? Apesar de não ser rápido, chega quase sempre primeiro. Nisso como no resto, já aprendeu que o melhor é mesmo não ter pressa e que às vezes para chegar bem até é preferível ir mais devagar. E o resto, neste caso, é a inevitabilidade de marcar uma época e as condições para, se a Europa permitir, entrar na história do Benfica.

A figura - Wilson

DISSE CRUYFF - No auge do Milan, no início dos anos 90, Johan Cruyff escreveu que o perigo de oscilação da potência italiana não estava na perspectiva de perder o trio dourado - Van Basten, Gullit e Rijkaard. Passo a citar: “A dificuldade estará em substituir Baresi, porque é praticamente impossível encontrar outro como ele.”

RARIDADES - É curioso que esta ideia parta do único treinador de futebol que inovou nos últimos 30 anos e sempre a partir de uma tendência ofensiva. Então os avançados não são mais importantes e valiosos que os defesas? O que se entende das palavras de Cruyff é que tudo depende da qualidade dos defesas. Se são excepcionais têm ainda um valor acrescido: o da raridade.

DISFARÇADO DE VULGAR - Disfarçado de jogador vulgar, vive no Restelo, quase em segredo, um dos mais brilhantes jogadores da I Liga - e o melhor líbero da prova. Chama-se Wilson, é defesa e por incrível que pareça caminha para os 32 anos. No sábado, nas Antas, fez um jogo a rondar a perfeição, adensando o mistério de mais de dez anos de carreira: o mistério da invisibilidade.

SEMPRE ATRASADO - Aos 20 anos jogava no Olhanense (II B) e só cinco anos depois se estreou na I Liga, na sequência de passagens por Elvas e Caldas. Esteve cinco épocas em Barcelos, duas das quais na II Liga. Sempre atrasado, chegou ao Belenenses com 30 anos, provavelmente para ali acabar a carreira.

SEMPRE À FRENTE - Reconhecido como talento superior apenas pelo seu treinador (seja ele quem for), pelos companheiros e por alguns adversários, Wilson está sempre um centésimo de segundo à frente de todos os atacantes adversários. Antecipa o passe, adivinha o movimento, prevê a intenção, limpa a zona e sai a jogar. Ironia do destino para quem percorreu o caminho tão devagar.

Passe curto

Marco Aurélio defende o “penalty” e agradece ao Senhor. Ou porque se mexeu, ou porque três belenenses e dois portistas entraram na grande área antes do remate, ou pelas duas coisas, o assistente de José Leirós indica a repetição do castigo e assina um grande momento de arbitragem - onde é que eu já ouvi isto?

Alenitchev parte para a bola e remata por cima. O guarda-redes volta a mexer-se e repete-se a violação da área antes do remate. Mas agora está tudo certo. Afinal o que víramos antes tinha sido um pequeno momento de diversão. Devo lembrar ao senhor da bandeira que o futebol é sério de mais para se brincar com ele.

Acosta não está assim tão velho, melhorou muito fisicamente, tem até menos cabelos brancos. E os disparates podiam prosseguir até à única conclusão séria: Acosta simplesmente marcou três golos. É hoje o mesmo jogador de há quatro meses. Com uma diferença: percebeu que voltou a ter total confiança do treinador.

Van Hooijdonk tem uma história portuguesa curiosa: 1) não tinha qualidade; 2) a equipa não sabia jogar com ele; 3) ele não sabia jogar com a equipa; 4) não estava cá a fazer nada; 5) vem aí o Jardel; 6) disse que era melhor que o João Tomás; 7) apanhou Pena e Hassan na lista dos melhores marcadores do campeonato.

As equipas que valem por organização, disciplina, coesão e físico, não costumam ir longe. O Paços de Ferreira, até certa altura, era fruto do trabalho de um treinador (José Mota). A ideia continua a ter validade, mesmo que tenhamos de acrescentar mais alguma coisa: tem o brasileiro Rafael, um dos melhores jogadores da I Liga.

Lá por fora

Pavel Nedved, o médio checo da Lazio, explicou o excelente golo que marcou à Fiorentina. Afirmou o companheiro de Fernando Couto que tudo agora está mais fácil para ele. “Vejo melhor a baliza”, afirmou no final da partida em Florença, como explicação para o grande remate que efectuou na sequência do cruzamento de Marcelo Salas. Ora, se vê bem agora é porque via mal antes. E o raciocínio está correcto, continuando a fazer fé nas palavras de Nedved: “Antes usava lentes de contacto, que às vezes me faziam confusão.” Antes de quê? Antes da operação a que se submeteu, através de raios laser, para debelar a miopia.

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