O sábio genuíno
1 – APRESENTA o olhar sereno e imperturbável dos felinos mais perigosos. Nunca tem pressa e mesmo quando se excita com a iminência do golo não desfaz a harmonia dos movimentos nem altera a elegância dos gestos; é forte, rápido e surpreende a cada instante pela inteligência sublime como acrescenta argumentos ao talento que possui.
No fim de contas é a súmula perfeita de qualidades com origem no refinado instinto de sobrevivência e que terminam em impulsos criativos absolutamente geniais. Pedro Mantorras transporta ainda o ritmo e a magia do lugar onde nasceu, a África de todos os amores, mas também de todas as lágrimas e sofrimento, terra de paixões eternas que suporta a pesada cruz de muitas das tragédias do Mundo.
2 – COMO desporto primitivo e simples, que tem na pobreza e nas dificuldades da vida aliados mais fiéis que a riqueza e o bem-estar; como actividade mais sensível aos diamantes em bruto que à educação formal; como jogo que desde sempre teve melhor relação com a miséria, o futebol no seu estado mais puro reconhece e em certos casos venera todos os sábios inconscientes.
Para Mantorras, entrar em campo é uma aventura, momento ansiosamente aguardado para celebrar o ritual que o devolve à origem. Mais: é a expressão plena de uma arte silvestre levada a cabo através de conceitos estéticos perfeitos e do domínio de uma ciência que não aprendeu – essa matéria abstracta incorporada no seu código genético e cuja existência pura e simplesmente ignora.
3 – NO SEU jogo há sinais ambíguos de fome e luxo; mentira e honestidade máxima; bailado e sentido de eficácia; leveza perante aquilo que o rodeia e responsabilidade traduzida na solidariedade com a equipa.
À semelhança de Garrincha, Mantorras começa por aniquilar os adversários quando os despreza ostensivamente. Se para o inesquecível Mané todos os marcadores se chamavam João, também ele não faz distinções – já teve pela frente Schmeichel, Beto e André Cruz e nem vale a pena lembrar-vos o que aconteceu. Joga como respira.
Há meses que ouve falar, com perplexidade, em fama, aprendizagem rápida, ordem, disciplina, profissionalismo, contratos milionários. Mas todos desconfiamos de que o seu conceito de felicidade não passa por aí.
4 – MANTORRAS é excepção numa altura em que o futebol adopta o modelo em vigor na sociedade: apropriação das coisas e dos homens apenas e só como objecto de negócio.
Em Alverca reencontrou casa e família, é reconhecido pelo seu trabalho, dão-lhe carinho e confiança. Sente-se um privilegiado e não precisa de mais para ser feliz. Sendo verdade que ao ar ingénuo corresponde um comportamento infantil, a hipótese de transgredir algumas normas e ser devorado pela máquina assusta quem lhe quer bem. Mas por intuição já percebeu que dinheiro, glória e disciplina nem sempre andam de mãos dadas. E quando lhe falaram há dias da cobiça de outra galáxia respondeu genialmente, como sábio genuíno, que ainda não está preparado para entrar na selva.
A figura: Bilro
ESTÉTICA – O Sporting escolheu uma forma de se afastar do título: escapar sem glória pela porta dos fundos. No fim do jogo até deu a ideia de que era mais que afastamento, era despedida dolorosa e violenta, como depois se viu no exterior do estádio. A questão para as grandes equipas não é perder um jogo, mas como o perde, prova inequívoca da importância da estética na derrota.
DESLEIXO – Em Leiria, o campeão começou por sofrer um golo justificado pela forma leve como encarou um lance aparentemente inofensivo, prosseguiu sem alma, indiferente ao forte apoio que tinha nas bancadas, acabando por sofrer segundo e decisivo golo que tornou evidente a forma desleixada com que esteve em campo durante hora e meia.
HERÓI – O maior responsável pela desgraça leonina foi Bilro, um dos bravos do pelotão da I Liga, alentejano de Borba, 30 anos acabados de fazer, sétima época ao serviço do U. Leiria. Não foi de propósito, a gente acredita: ele foi ali apenas para marcar um canto e saiu de lá como herói da tarde, com a cumplicidade adversária.
REFINADO – Para quem ainda não percebeu, Bilro é um dos melhores laterais-direitos do campeonato. Com as capacidades naturais refinadas pela idade, chega a esta fase da carreira cada vez mais sólido a defender, com o posicionamento em campo mais correcto, mais confiante e atrevido a subir no terreno, concentrado em todas as acções e mais seguro do estatuto que possui.
SEGREDO – Como que não quer a coisa, quase em silêncio, diria até que, em segredo, o U. Leiria assumiu o 7º lugar da tabela a um ponto do 6º (o Belenenses). É curioso que o único dado definido para a próxima época de toda a I Liga tenha sido fornecido pela SAD leiriense, que já anunciou a saída de Manuel José. Quem lhe mandou a ele exceder as expectativas de quem queria apenas não descer?
Passe curto
Quando a resignação assaltava as bancadas, Silva resolveu a partida para o Boavista, apontando o quarto golo da época. Pela primeira vez, à excepção dos jogos com os grandes, naturalmente, o Bessa apresentou uma moldura humana digna de um candidato. Pela primeira vez também se sentiu, agora sim, o cheiro a título.
Fangueiro marcou os golos que deram ao V. Guimarães o triunfo na Amadora. Ele, como Zé Nando, Petit, Pedro Santos, Ricardo Nascimento, Guga, Carlitos, jogava no Gil Vicente e contribuiu para o 5º lugar que é a obra-prima de Álvaro Magalhães. Não vos roubo mais tempo: é só para dizer que tudo na vida tem uma explicação.
Rodrigo Tello começou por ser o jogador mais caro da história do Sporting (uma responsabilidade); prosseguiu mostrando que extremo não é (perigo de engano); começa a dar sinais de que em vez de resolver um problema veio aumentar outro (o que só será bom se for o ponto de partida para despertar o orgulho ferido).
Tudo esclarecido: um senhor investidor tinha recado para dar a um activo do clube e por isso invadiu o campo a meio de um treino – coisa tão habitual que até faz confusão por que se fez tanto barulho à volta. Enke não gostou e insurgiu-se. Vamos lá ver se não lhe põem umas orelhas de burro e o mandam treinar com os infantis...
Maniche, que seguindo o raciocínio deve ser um passivo do clube, reclamou falta de apoio dos adeptos e apenas não concordou (e bem) com a frase do presidente que elogiava a equipa de hóquei em patins comparando-a com a de futebol. Levou uns açoites e foi treinar com a equipa B – isso, sim, uma lamentável falta de respeito.
Lá por fora
Enrico Chiesa marcou dois golos na vitória da Fiorentina sobre a Roma (3-1), a primeira nas últimas onze jornadas. No dia do regresso de Batistuta a Florença, e numa equipa sob o comando de Rui Costa, o grande herói da tarde foi o avançado viola que, pelo menos segunda-feira, conseguiu fazer esquecer o bombardeiro argentino. O líder do campeonato, que perdeu pela segunda vez esta época, tem agora seis pontos de vantagem sobre a Juventus e não será pelo desaire de segunda-feira que perde o estatuto de grande candidato à vitória final.
