O trono de Maradona
1- O FUTEBOL chega ao século XXI mergulhado em conceitos globais (disciplina, profissionalismo, contenção), a caminho da uniformização física (resistência, potência e velocidade), envolto em cenários bélicos geridos jogo a jogo, isto é, batalha a batalha. É tempo de trabalho, muito trabalho, como se o importante não fosse trabalhar bem - Helenio Herrera referenciou a diferença e teorizou sobre o assunto há mais de 40 anos.
O futebol chega ao século XXI estupidamente tentado a transformar o jogador num funcionário público, bem pago para abdicar da rebeldia e do sonho, para moderar instintos criativos e controlar a paixão. O futebol chega ao século XXI sem ter encontrado, em dez anos, alguém que mereça ocupar o trono de Maradona. E não se pode queixar.
2- MARADONA nunca foi exemplo, porque foi sempre excepção. É um transgressor nato. Transgrediu genialmente toda a lógica do futebol e estupidamente algumas das mais elementares regras da vida. Foi “anjo na terra”, mandado não me perguntem por quem, para dar felicidade às pessoas, mas nunca passou de um homem igual a tantos outros, frágil, fútil, à mercê dos traficantes de imoralidades, dos assaltantes de consciências, dos canalhas que minam existências e matam por dinheiro. Seja como for, é “o jogador” da geração que não tem referências claras de Pelé e Eusébio, que nunca viu Di Stefano e Puskas e que, apesar de tudo, o considera um degrau acima de Johan Cruyff, o mais brilhante chefe de orquestra que o futebol conheceu.
3- MANÉ Garrincha é a sua alma gémea. Foram campeões do Mundo quase sozinhos, um em 1962 o outro em 1986, ambos foram mágicos e “alegria do povo”, semelhanças que prosseguem na ténue fronteira entre a droga e o álcool, entre a vida e a morte. Mas Diego, sozinho (ou quase), ainda levou o modesto Nápoles a dois títulos italianos absolutamente impensáveis. E entrou no nosso coração. Desde 1990 passou a vida a cair e a levantar-se: da rusga policial que o caçou em directo, do “doping” no “calcio”, da armadilha do Mundial de 1994, da recente “overdose” de cocaína que o deixou às portas da morte. Meras provas de que vive há muito entre o Céu e o Inferno. Mas sempre no nosso coração.
4- O CRIADOR que resolva o problema, porque na Terra a sua única condenação unânime e definitiva é a imortalidade. Foi essa a sentença de um povo que o ama, de uma geração que o venera, de gente que lhe agradece por ter existido e da bola que na hora do juízo final dirá sem mentir que nunca foi tão feliz e bem tratada como naquele pé esquerdo. É essa também, por motivações distintas, a convicção da “grande família da FIFA”, da Casa Branca, do Vaticano e dos moralistas do Mundo. Presumo que não seja uma decisão fácil de tomar. Lá em cima, de facto, devem acontecer situações embaraçosas com regularidade. Einstein, Picasso, Marilyn Monroe e Charlie Chaplin, por exemplo, já conhecem a complicação que isso é para os símbolos eternos e os génios canhotos do século XX. Diego Armando Maradona que se cuide.
Figura - Romário
PONTARIA - Todos os grandes fenómenos colectivos do futebol precisaram de quem lhes desse pontaria. Nenhuma equipa atingiu a glória sem um grande marcador de golos, o que não quer dizer que um grande marcador de golos seja suficiente para fazer uma grande equipa. Confuso? Perguntem a um senhor chamado Gabriel Omar Batistuta, que ele explica tudo...
MEMÓRIA PRODIGIOSA - Se Batistuta venceu o destino, Romário aproveitou a generosidade e compensou as falhas com malandrice, inteligência e uma memória prodigiosa - era menino de rua e já tinha decorado as enciclopédias que ensinavam a andar na área, a fugir às marcações e a meter a bola dentro da baliza.
TRÊS LIÇÕES - Primeira lição: para um “baixinho”, a bola tem de ser jogada pelo chão. Segunda lição: se os defesas são mais fortes, é preciso fugir deles, depressa e na direcção do golo. Terceira lição (e a sua preferida): para todos os casos que não venham nos compêndios cada um inventa uma solução.
TRÊS NOMES - Romário de Sousa Faria (o leitor já se deu conta de que o clube dos jogadores conhecidos por todos os nomes é muito restrito?) é o melhor jogador da década de 90. Deu pontaria ao Vasco, ao PSV, ao Barcelona, ao Flamengo e à selecção do Brasil - marcou um total próximo dos 700 golos -, e apesar dos altos e baixos confirma ainda hoje a ideia de sempre: é um génio.
PERTO DO TRONO - Ninguém como Romário esteve tão próximo do trono de Maradona. Quase certo que o teria alcançado com mais Barcelona e menos PSV, seguramente que lá chegaria se o Mundial de 1994 não fosse momento único na sua carreira. Mas, pelo andar da carruagem, em 2002 tudo pode ainda acontecer, apesar dos 36 anos que terá nessa altura.
Passe Curto
Diz a “Gazzetta dello Sport” em artigo de primeira página: “Rui Costa, permitam-me Figo e Zidane, é neste momento o melhor jogador deste continente. O português não perdeu tempo a chorar a saída de Batistuta. Simplesmente duplicou-se, tornando-se imenso. Com um exemplo vivo deste tipo tudo é possível.”
Primeiro a fantástica coroação de Figo como melhor da Europa, agora Rui Costa eleito melhor “10” de Itália e segundo melhor jogador do “calcio”, atrás de Shevchenko. O futebol português dobra o século com dois representantes entre os deuses maiores do jogo. A gente já sabia mas é bom ver os outros reconhecê-lo.
Romário (o craque dos anos 90), Michael Laudrup, Hagi, Stoitchkov e Ronaldo têm dois pontos em comum: são os melhores da década e passaram todos por Camp Nou. Já agora, e por falar em Camp Nou, o Dream Team de Cruyff em Barcelona foi o maior fenómeno colectivo dos últimos dez anos. Alguém duvida?
Johan Cruyff chega ao final do século como a maior personalidade do futebol mundial, o único génio que é um treinador para a eternidade. Só ele inovou desde o “futebol total” de Michels e Kovacs (apesar do Milan de Sacchi). E fê-lo recuperando uma verdade elementar do jogo: ter a bola é uma vantagem.
Lothar Matthaeus foi eleito jogador da década na Alemanha. É justo. Nenhum outro futebolista na história do futebol chegou tão longe com tão pouco talento - significa isso que teve de trabalhar muito mais. Matthaeus foi um produto dos novos tempos: de profissionalismo, disciplina e dedicação. Ainda bem para ele.
Lá por fora
Martin Palermo é o melhor ponta-de-lança argentino a jogar na Argentina. A frase, a despeito da veracidade, encerra em si mesma a carga depreciativa habitual utilizada pelos europeus quando se referem a jogadores que não conhecem bem. Temos essa mania: podemos falar de génios (e não é esse o caso) que só lhes atribuímos o talento que têm quando jogam na Europa. Sendo já um dos melhores do Mundo da actualidade, Palermo só será reconhecido como tal quando vier mesmo para a Lazio. Ou então através da selecção argentina, que a ano e meio de distância parece ser uma das grandes favoritas (a maior?) ao título mundial de 2002.
