Príncipe do povo

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1 - EM CADA toque na bola mostra a sumptuosidade de uma técnica refinada; no passe revela o requinte da visão que abrange todo o terreno; ao ritmo certo de cada acção acrescenta a mudança de velocidade com que aumenta o veneno da aproximação à baliza. Pela potência do remate, Sanchez dispõe de uma noção de distância peculiar - o longe só começa atrás da linha de meio campo. Tem o perfil dos solistas talentosos que justificam o investimento de construir uma orquestra à sua volta. Sonha com isso, mais ainda se sente uma equipa de aço atrás de si, ou olha à volta e percebe que há um andaime seguro para lhe suportar os devaneios. Apesar de ser um artista não goza da liberdade desejada. E o segredo do êxito talvez até comece na sua prisão.

2 - AO contrário da grande poesia, que só pode ser coisa de grandes poetas, o grande futebol também pode nascer na defesa de uma ideia considerada acima da qualidade dos jogadores. Essa é a primeira lição do Boavista, que prossegue na solidária repartição das tarefas; na generosa aplicação do esforço; na opção por um tipo de jogo directo; no cultivar de conceitos como ordem, segurança e coragem. Que o orçamento mais baixo dos candidatos ao título utilize armas diferentes é lícito. Que esteja à frente do campeonato é notável. Os jogadores do Boavista não são os melhores do Mundo, podem até não ser os melhores de Portugal, mas têm um vocabulário próprio, no qual, por exemplo, não existem palavras como desconcentração, desânimo e cansaço.

3 - NUMA equipa que joga em voltagem máxima e descarrega em cada jogo energia física extraordinária, Sanchez introduz pausa, desaceleração e serenidade; numa equipa que nem sempre consegue acabar o que começou, Sanchez fornece classe e a magia imprevisível que equilibra a honestidade do estilo sem rodeios. Seja qual for a circunstância, o Boavista é um adversário assustador: demolidor e ambicioso quando não tem a bola - o seu “pressing” é sufocante -, persistente e bem armado quando a conquista. Ali nada acontece por acaso. Em termos conceptuais cumpre sempre o objectivo de reduzir a insegurança e atenuar o mais possível os efeitos da incerteza, para no fim confirmar um grupo com força mental à altura dos grandes campeões.

4 - NESTA época de emoções e expectativas, o Boavista representa a vitória de uma classe operária organizada e feliz sobre uma aristocracia decadente e nervosa; desperta a sensação de êxito de quem está a fazer história no presente sobre quem vive hoje com as memórias do passado e não encontra solução para ultrapassar crises de confiança (FC Porto), abundância (Sporting) e identidade (Benfica). Jaime Pacheco pôs o Boavista a funcionar como cooperativa sem privilegiados, na qual o sacrifício é uma inevitabilidade repartida por todos em parcelas iguais. Podemos alimentar a dúvida se Erwin Sanchez, transformado assim em príncipe do povo, vive totalmente feliz. Mas também só temos o direito de lhe fazer a pergunta quando o campeonato acabar.

Passe curto

Marchena foi um zero à esquerda com o Paços de Ferreira. Ao cabo de 45’ de inacreditável passividade perante o jogo, concentrou energias em discussão acesa com o árbitro Paulo Paraty, que lhe mostrou o amarelo. Toni tirou-o antes do intervalo. Se soubesse o que sabe hoje nem o teria posto em campo.

A pouco mais de uma semana do jogo com a Holanda, Quim tranquilizou ao efectuar uma exibição quase perfeita frente ao Belenenses: defendeu uma grande penalidade e foi decisivo ao travar uma cabeçada do mesmo Marcão, já na pequena área, quando o resultado ainda estava a zero. Temos guarda-redes.

O terceiro golo do Beira Mar ao V. Guimarães foi espectacular. O autor pegou na bola na zona do meio campo, progrediu uns metros e disparou de muito longe levando a bola a bater na barra antes de entrar. Numa equipa em estado de graça até Fernando Aguiar tem autorização para marcar um golo “à Eusébio”.

A televisão atenuou a distância em relação a muitos emigrantes portugueses. Mas ainda há excepções. Luís Boa Morte é uma delas. A jogar no Fulham, que se prepara para subir à Premier League, está a fazer grande época. Não sendo um goleador, com os dois golos deste fim-de-semana já leva 16 no campeonato.

Quando Secretário estava no chão a contorcer-se com dores, no relvado de Anfield, o sr. Nielsen decidiu por sua conta e risco que o jogador português não receberia assistência. Resultado: perdeu tempo; fez perder a paciência; mostrou que não presta como médico e mais grave confirmou que é um árbitro incompetente.

Figura - Rafael

ESPAÇO - Quando entram em campo, todos os grandes jogadores se debatem com o mesmo problema no futebol actual: a falta de espaço. O adversário identifica os craques e monta estratégia que passa quase invariavelmente por diminuir-lhes o campo de acção - de preferência para que não toquem sequer na bola.

LATIFÚNDIO - Johan Cruyff costuma dizer que “toda a gente sabe jogar futebol se lhe dermos cinco metros”. Pois bem, cinco metros teve Roger no jogo da Luz, que aproveitou para se reabilitar diante dos adeptos e assinar uma grande exibição. Mas a Rafael o Benfica ofereceu um latifúndio inteiro, que o brasileiro explorou de duas maneiras: confirmando talento e ganhando o jogo.

FENÓMENO - Rafael é um fenómeno na linha daqueles que periodicamente acontecem no futebol português: um desconhecido descoberto por quem não tem dinheiro para gastar à larga e compensa com atenção e critério a necessidade de contar tostões e não falhar. O jogador aceita a experiência, na esperança de viver apenas uma etapa de transição para metas mais ambiciosas.

CRAQUE - Só se toda a gente estiver a dormir nesta terra é que Rafael vai continuar em Paços de Ferreira. É um atacante extraordinário: possante, rápido (sobretudo com a bola nos pés), bom driblador e senhor de um remate forte e certeiro. Tem engodo pela baliza e um raio de acção suficientemente amplo para procurar os tais espaços que rareiam cada vez mais.

DA PRAIA - O estilo faz lembrar Isaías - lembram-se? Enche o peito, põe a bola no chão bem à sua frente (há lances em que até dá ideia que a vai perder) e vai ganhando terreno. Agora que Portugal lhe roubou o título mundial, do futebol de praia brasileiro veio uma das principais figuras da I Liga portuguesa. Vá lá a gente perceber alguma coisa “disto”.

Lá por fora

Schevchenko é o que resta do grande Milan de outros tempos. O ucraniano confirma em cada jogo tratar-se de uma das figuras de referência do futebol europeu actual, um avançado fantástico que não esgota os atributos na arte de marcar golos. No final da semana que ditou o afastamento da Liga dos Campeões e em consequência disso do treinador Zacheronni do comando da equipa, Schevchenko aumentou para 17 os tentos apontados na liga italiana e que lhe dão a liderança da lista dos melhores marcadores. Há estrelas que para brilhar precisam de harmonia à volta. Definitivamente, não é o caso desta.

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