Por força da lei

Ricardo Costa
Ricardo Costa Prof. Direito Univ. Coimbra

Um certo modo de viver

Mais uma vez esta semana se falou muito de julgamentos, responsabilidades e tutelas no desporto. E dá que pensar. Claro que o futebol é a hiperbolização, tendo em conta a massificação de conteúdos, exposições, comentários, extrapolações e insinuações de que este particular microcosmos é feito. Quando tal se fala, claro que a falta de conhecimento é forte e, quase sempre, induz ao engano o público interessado e ávido de informação. É no défice de conhecimento e no excesso de fanatismo dos adeptos que campeiam muitos dos que tratam destes assuntos e (tantas vezes) manipulam os discursos. E quando tal se fala, é inevitável que se trate da fiscalização e de justiça, de quem averigua e julga, de quem absolve ou pune. Ou seja, o tema está sempre enviesadamente integrado no momento "repressivo". Nunca está focado na antecâmara preventiva da formação e da seleção dos recursos humanos e da criação de barreiras à entrada. Não que a repressão não tenha que haver depois de detetados os comportamentos (digamos) "desviantes". Não que se não tenha que apreciar os atores dos processos de decisão. Mas a conflitualidade e a suspeição, a criação de "factos" e as "constrições" psicológicas, as comunicações implícitas e as batalhas por trás do pano seriam residuais se o "meio" não se rendesse a um certo "modo de viver". E este "modo" apenas se alteraria com outra cultura, outra visão, outro carácter. Não é com leis e regulamentos que lá vamos. Elas sempre ajudam mas já vimos que não são panaceia. As pessoas mudam mas altera-se o "tipo médio"?

Serei injusto, desde logo porque os "sound bites" e os atentados "ad hominem" abafam as virtudes existentes e as transformações manifestas. As estruturas profissionalizaram-se, as contabilidades apertaram-se, os códigos entraram pelas salas e corredores. Os jogadores e os treinadores converteram-se da noite para o dia. As especializações científicas e a troca de saberes transformaram um sector hoje reconhecidamente evoluído e cada vez mais portador de valor. Os instrumentos de gestão nem se podem comparar com o passado. Houve erros, desvios e omissões, mas também sanações, correções e imposições. O futebol é negócio e mais-valia e antes era muita coisa sem ser isso. Mas falta ser ainda um domínio de efetivação de princípios, valores e práticas, em que a censura póstuma não faça sentido. Quando assim for, estou certo que é possível termos muito menos "shares" de TV e cores bem mais preenchidas nas bancadas. Ou seja, apenas e só mais desporto.

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