Uma ave raríssima

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1 - TEM pinta de corredor de 400 metros mas as pernas arqueadas e o estilo gingão de jogador da bola desmascaram-no logo no aquecimento; a camisa fora dos calções, as meias em baixo e o ar disperso funcionam como primeiro aviso, quase solene, de que está ali um homem livre, desalinhado que não pisa o risco, mas que é um mundo à parte dentro da equipa.

A sua figura musculada remete-nos para o típico futebolista dos anos 70, que utiliza o corpo para segurar a bola e prefere receber no pé para só depois ganhar o espaço à custa da acção individual.

Nessa altura, Capucho deixa claro que tem uma ideia e está obstinado em concretizá-la. Um processo de cujo êxito ninguém duvida porque os efeitos do primeiro arranque são normalmente devastadores.

2 - PORQUE tem medo de perder o sentido de orientação, pega na bola e utiliza a linha lateral como bússola, elegendo aquele espaço sobre a direita como palco para todas as acções.

Como parece ver mal ao longe (ao contrário de Drulovic), só consegue focar o alvo do passe aproximando-se. A mudança de velocidade é subtil, quase imperceptível e o segredo para deixar tanta gente pregada é a surpresa da travagem, a mudança da direcção e a forma como utiliza o corpo para esconder a bola e resistir aos adversários – ninguém em Portugal o faz como ele.

Não tem uma gama de dribles muito variada, leva a bola vezes em demasia com a cabeça no chão, mas a eficácia prova que não precisa do estilo ideal para semear o pânico e ser decisivo.

3 - NUMA altura em que muitas equipas funcionam com o rigor de fábricas gigantescas, o funcionário Capucho é um subversivo assumido que comete a transgressão de acrescentar ideias a hábitos mecanizados.

Mesmo quando se esforça por cumprir o que lhe pedem não consegue ser apenas mais um. É extremo, o que hoje em dia é espantoso, e gosta de o ser, o que o transforma numa ave raríssima, de valor incalculável.

Mas todo ele treme quando as limitações ao processo criativo são maiores que o espaço de manobra para inventar. Em nome da liberdade e da paixão pela aventura não suporta quando a burocracia o impede de cumprir o duplo objectivo de cada jogo: entrar em campo para ganhar e divertir-se.

4 – A SOCIEDADE ensinou-nos que a obediência estimula a tirania, lição da vida que o futebol transformou em lei nos últimos dez anos. Capucho continua a ter motivos para não se render, porque a rebeldia já lhe permitiu encarar com indiferença os gritos do banco e vencer claramente a mediocridade.

Há meia dúzia de anos, no Sporting, por falta de imaginação e de lugar na equipa, Carlos Queiroz tentou convencê-lo de que era ponta-de-lança. Porque não é obediente, não acredita em tudo o que lhe dizem e tem o hábito de pensar pela sua cabeça, é hoje o melhor extremo-direito do campeonato.

No fim de contas, a mesma linha de raciocínio que segue para não perceber a razão pela qual quanto mais feliz chega ao fim de cada jogo menos agrada ao treinador. E vice-versa.

A figura - Edmilson

VAN BASTEN SOBRE RIVERA – Quando chegou a S. Siro, contratado pelo Milan ao Ajax, Van Basten revelou de imediato alguns traços do seu temperamento. Quando lhe perguntaram que opinião tinha de Gianni Rivera, o maior símbolo da história milanista, respondeu secamente que não conhecia. Pior, que nunca tinha ouvido falar em tal nome.

MODO DE ESTAR – Convenhamos que é uma forma de entrar num clube com o pé esquerdo. O percurso que levou Van Basten (um dos mais excepcionais pontas-de-lança da história do futebol) a abandonar o Milan e o futebol numa festa de estádio cheio com o único objectivo de lhe dizer adeus e obrigado, prova que o importante não é a entrada mas o modo de estar.

NÃO CAIR NO GOTO – Por razões distintas, Edmilson não caiu no goto dos adeptos sportinguistas. Antes dos problemas pessoais que o afectaram e lhe diminuíram o rendimento em campo já os adeptos verdes e brancos o olhavam desconfiados e com impaciência que alastrava ao relvado e se ouvia por todo o lado.

VERSÁTIL – Edmilson é um dos mais versáteis atacantes do futebol português. No passado Sábado, em Paranhos, recuperou repentinamente a memória e assinou uma exibição de grande nível. Marcou um golo de talento puro, em espaço curto (poucos o conseguiriam), outro de cabeça (na cara do guarda-redes) e outro ainda em contra-ataque de muitos metros.

58 GOLOS – Vai na sétima época na I Liga e tem 58 golos marcados. Como se viu em 90’ frente ao Salgueiros, sabe jogar na área, tem talento para funcionar como segundo ponta-de-lança e velocidade para descair para qualquer dos flancos. Se reconquistar confiança há poucos avançados no campeonato capazes de oferecer tantas e tão válidas soluções como ele.

Passe curto

Esta coisa dos pontas-de-lança é como a Bolsa: tão depressa estão em alta como de um dia para o outro descem, sem razões que o justifiquem. Pena foi herói e vilão. Nos últimos dois jogos pôs o FC Porto nos quartos-de-final da Taça UEFA e selou a vitória sobre o Farense. É bom não subestimar os argumentos dos goleadores.

Perante a escassez de defesas-laterais portugueses (Erivan, César Prates, Esquerdinha, Dudic, Escalona...) quem pode ficar indiferente à exibição de Bilro (U. Leiria), no jogo com o Campomaiorense? Para além de ter jogado enormidades ainda marcou dois golos. Rezam as crónicas que não era preciso tanto.

Gilmar, o guarda-redes do Marítimo, deve ter ficado branco: como foi possível sair aos pés do avançado, roubar a bola e ver o árbitro marcar um “penalty” patético? Foi tudo tão claro que até os adeptos da equipa beneficiada ficaram incomodados com a decisão de Paulo Paraty. E nós sem palavras para a qualificar.

Não é de agora: Luís Filipe é uma das maiores esperanças do futebol português. Trocou a Académica pelo Atlético Madrid, regressou à terra e foi para Braga, onde já fez o suficiente para mostrar que é uma espécie de Brian Laudrup à portuguesa. Os dois golos ao Benfica foram apenas a cereja em cima do bolo.

Augusto Inácio estreou-se no banco ao serviço do V. Guimarães. No regresso à I Liga conseguiu importante vitória, conquistando os três pontos na deslocação a Aves, que tiveram uma primeira utilidade prática: afastou, para já, o espectro da descida à II Liga. A guerra não está ganha mas os 3-0 devolveram a esperança.

Lá por fora

Rivaldo cumpriu no Sábado, num Santiago Bernabéu a rebentar pelas costuras, o destino dos grandes génios do futebol: aparecer em grande quando menos se espera. Se o Barcelona estava em queda, a visita ao terreno do líder constituía um risco de enormes proporções.

Perante o cenário, o brasileiro juntou-se a Guardiola e assumiu a sua parte na luta de gigantes de Chamartin. Marcou dois golos (tal como Raul), fez ainda outro mal anulado e transformou-se na referência máxima de uma partida electrizante em que Luís Figo não conseguiu esconder a fadiga provocada pela partida com Andorra, a meio da semana.

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