Uma bomba-relógio

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1 – MAL recebe a bola, Rafael vai direito ao assunto: abre a porta e entra sem pedir licença. Chega a parecer uma irresponsabilidade fazê-lo daquela forma apressada e pouco solene, correndo riscos desnecessários para os benefícios aparentemente escassos de lançar os dados da discussão tão longe da baliza contrária; há indícios até de transgressão merecedora de multa pesada mas tudo não passa do processo automático, controlado e legal de quem só abre os olhos e começa a pensar depois de conquistar o espaço existente nas costas do adversário mais próximo. Este fica desde logo embaraçado pela surpresa do gesto, perplexo com a velocidade do arranque, desesperado quando percebe que não consegue impor o físico.

2 – COM essa tendência de antecipar obstáculos e resolver problemas antes de existirem, Rafael ganha tempo precioso para definir melhor cada lance. Quando lhe dão a bola, e dão-lha muitas vezes, vai transmitindo por todo o campo mensagens criativas a partir de movimentos bruscos, impensados mas perfeitos, próprios de quem mede os efeitos de cada acção e acredita no sucesso do que traz em mente. Se a bomba-relógio não explodir, mina o campo e o espírito do “inimigo”. Nunca terá prejuízo total, até porque reparte a vantagem adquirida com toda a equipa – ela já conhece as regras... –, na mesma medida em que fragiliza um adversário que não mede logo o perigo do que está a acontecer.

3 – RAFAEL é daqueles futebolistas imprevisíveis cujas travessuras rompem a lógica e conduzem à loucura os arautos da disciplina, essa gente em desespero quando não encontra enquadramento científico para o estilo e sobretudo para a eficácia. Com ou sem explicação, Rafael já ganhou jogos através dessa arte rara de transformar infracções em obras-primas, utilizando a irreverência como método para evitar repreensões só porque faz tudo ao contrário: mete a bola na baliza e corre para o ritual do golo, neste caso em forma de bailado ali para os lados da bandeirola de canto. E porque do Paços de Ferreira se trata, perdoem-me a fraqueza, nada mais justo que repartir os louros do grande momento.

4 – NESTA equipa solidária e inteligente, o peso da táctica e do músculo não fere a sensibilidade – é apenas um meio para atingir um fim. Todos reconhecem que para concretizar a obra precisam da assinatura dos artistas e apesar de o itinerário da bola não estar definido à partida cada elemento sabe de cor o seu papel na grande peça. A ordem é tão perfeita que o erro não é encarado como um drama colectivo, pelo que o risco faz parte da estratégia: se dá certo, acaba em apoteose; se falha, falará mais alto a estrutura primorosa levada a cabo por jogadores de decisão rápida, bem armados fisicamente e que em último caso ainda têm a segurança de um dos melhores e talvez menos reconhecidos guarda-redes da I Liga, Pedro de seu nome.

A figura: Elpídeo Silva

GUERRA FRIA – Em entrevista concedida em Dezembro de 1972, ou seja, poucos meses depois de ter ganho o Mundial de xadrez a Boris Spassky, Bobby Fischer afirmou que a partir daquele momento só faria publicidade da Rolls Royce para cima. Aproveitava, com a loucura que o tempo acentuaria, uma histórica vitória da América sobre a União Soviética em plena guerra fria.

NA LUA – Não sei muito bem como irão reagir treinador e jogadores do Boavista no caso de confirmarem o triunfo na I Liga. Não estamos na guerra fria, muito menos caminhamos para a loucura, mas vivemos um momento histórico do futebol em Portugal. Se disserem que nos tempos mais próximos só fazem publicidade na Lua ou em Marte, reconheçamos todos: é mais que justo.

SER FELIZ – Como o pintor que se expressa através de cores e formas ou o músico na harmonização de sons, o ponta-de-lança alimenta-se de golos. Pode fazer exibições inesquecíveis, mas se não meter a bola na baliza dificilmente sorri. Neste momento de euforia colectiva, Silva tem razões suficientes para ser um homem feliz.

AFINADO – No jogo em Paranhos, considerado o último grande obstáculo para o título, marcou três golos na inequívoca e sensacional vitória por 5-1. Numa época aos soluços, em que repartiu a titularidade com Whelliton, o brasileiro que veio de Braga chegou à fase decisiva de pontaria afinada, preparadíssimo para tirar a pistola e disparar as vezes necessárias para atingir a glória.

TALENTO E GOLOS – Seis golos nas últimas seis jornadas confirmam estarmos perante avançado que só a espaços concilia a capacidade que tem e aquilo que demonstra. Poucas dúvidas de que é, potencialmente, o melhor ponta-de-lança do Boavista, o mais hábil com a bola, o mais talentoso e goleador. Quando assim for durante uma época inteira será um caso mais sério ainda.

Passe curto

“A primeira vítima da urgência e do ruído é a memória”, escreveu um dia Jorge Valdano. Depois da derrota em Barcelos (a sexta nos dez jogos que se seguiram ao embate com o Boavista), Toni parece ser o único que não foi afectado: sabe onde está, mesmo ao cabo de dois meses a ouvir falar em cimento, em acordos com a Câmara, em estádios novos ou municipais e em subscrições da SAD.

Que altura tem? Quanto pesa? É forte, rápido e resistente? As respostas a estas questões têm levado Nuno Assis a peregrinação pelo País, travando o desejo legítimo de se fixar por Alvalade. Fez extraordinária exibição frente ao Benfica, mais um argumento a juntar à causa deste tipo de jogadores que não cumpre as medidas certas e comete o pecado de apenas jogar muito bem futebol.

Everaldo entrava à bola e ouvia-se um apito. Nem valia a pena olhar: era mesmo do árbitro, para assinalar faltas ao brasileiro. Foi quase sempre assim. Fezada, embirração ou inaptidão? Nesta jornada, Luís Miranda, Martins dos Santos, Isidoro Rodrigues, Lucílio Baptista e Mário Mendes confirmaram, no mínimo, que andam com ideias baralhadas. O que não é bom sinal.

Spehar assumiu estranho protagonismo no jogo com o Paços de Ferreira: esteve sempre no sítio certo, prova de que possui apurada percepção dos lances (o que é bom); marcou um golo (o que está longe de ser mau); falhou, à vontade, meia dúzia deles, contando com remates à barra e ao poste, mais o talento do guarda-redes do Paços de Ferreira (nem sei o que lhes diga...).

Lá por fora

Michael Owen decidiu a favor do Liverpool a final da Taça de Inglaterra. No fim de uma partida com sinal mais do Arsenal, que esteve à frente do marcador, o avançado de Anfield, com aquele ar de quem não faz mal a uma mosca, marcou dois golos e devolveu a glória ao clube, em vésperas da final da Taça UEFA.

Owen é, salvo melhor opinião, o melhor representante de uma geração inglesa que cresceu em contacto com jogadores oriundos de outras partes da Europa. E o Liverpool será, muito provavelmente, a equipa com melhor margem para dentro de dois/três anos ameaçar a hegemonia do Manchester United.

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