Há duas jornadas , o Benfica recebia o FC Porto com antecipado favoritismo. A contenda, porém, revelou uma equipa nortenha capaz de superar o campeão em título de forma categórica. Após o jogo, na conferência de imprensa, Bruno Lage assumiu com inegável fair play a justiça do resultado.
Embora a discussão desta atitude tenha produzido alguma polémica, Lage merecia que lhe fosse mostrado um cartão branco. Este cartão, para os menos atentos, é um recurso pedagógico promovido pelo PNED - Plano Nacional de Ética no Desporto (IPDJ) que, em parceria com outras entidades, Federação Portuguesa de Futebol incluída, procura enaltecer condutas corretas, praticadas por atletas, treinadores, dirigentes, público e outros agentes. A esta iniciativa podem aderir outras entidades interessadas em promover valores no âmbito desportivo.
O desenvolvimento de um ‘mindset’ competitivo, que aflorei no artigo anterior, é compatível com o desenvolvimento ético e moral dos atletas e dos treinadores. Na verdade, o autocontrolo necessário para assumir as responsabilidades e o respeito pelos adversários é um traço fundamental para se ter sucesso desportivo de forma consistente.
Psicólogos como Piaget e Kohlberg identificaram estágios de desenvolvimento psicomotor e sócio-psico-afetivo que facilitam este trabalho. Estudos mais recentes sugerem também diferenças no desenvolvimento moral entre sexos. Gilligan e Nodding, por exemplo, revelam que podemos associar ao sexo masculino uma propensão para a "voz da justiça" e ao sexo feminino uma tendência para a "voz do cuidado". Assim, enquanto os rapazes gostam de jogos com regras complexas e das múltiplas discussões acerca da sua interpretação, parecendo estas ser mais gratificantes do que o próprio jogo, as raparigas preferem jogos mais curtos e menos complexos e, quando os argumentos são seriamente discordantes, negoceiam as regras para que ninguém se sinta mal.
É importante integrar o conhecimento científico dos psicólogos(as) no desenvolvimento dos atletas e na melhoria da comunicação entre os agentes desportivos. A todos cabe cultivar quer a voz da justiça quer a voz do cuidado, pois ambas traduzem valores universais que o desporto tem por missão principal desenvolver. Incorporar o cartão branco como instrumento de modelagem e de reforço positivo de condutas corretas é uma iniciativa louvável que a ciência psicológica valida para aumentar a probabilidade de frequência das mesmas.