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Gaspar Ferreira
Gaspar Ferreira Ordem dos Psicólogos Portugueses

Nakajima e o futebol espectáculo

Seguindo uma tendência global, o futebol, enquanto indústria do entretenimento, vai-se aproximando de outras modalidades onde espetáculo já não se circunscreve ao desempenho atlético dos jogadores e ao drama do jogo em si, mas vem progressivamente incluindo as performances cénicas dos treinadores, dirigentes, claques, comentadores e outros agentes, todos eles promovidos à categoria de protagonistas de relevo.

No recente desafio em que o FC Porto venceu o Portimonense, o técnico da equipa do norte acabou por chamar a si todas as atenções. Como? No final, quando as equipas já se cumprimentavam e agradeciam aos adeptos, o treinador, logo após saudar o jogador Nakajima, volta e, num impulso, repreende-o com inusitada agressividade. As imagens mostram o jogador Otávio e o diretor Luís Gonçalves a intervir de imediato, protegendo o jogador asiático e isolando o treinador.

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Este gesto teria o mesmo efeito se tivesse ocorrido em privado? Se um treinador for agressivo, mas a repreensão ocorrer em particular, será aceitável ou eficaz? Levantam-se aqui questões éticas, pedagógicas e de natureza organizacional.

Com efeito, mesmo que fosse eficaz, e um atleta viesse a mudar os comportamentos indesejados, seria legítimo utilizar a agressividade e a intimidação de forma pontual ou sistemática para promover uma aprendizagem ou obter um determinado resultado? Sabemos todos que não: a ética, a deontologia profissional e a lei vigente, dão-nos orientações claras sobre este assunto.

Importa saber gerir as emoções quando se é líder ou atleta de alto rendimento. Os psicólogos(as) trabalham há décadas a competência de auto-regulação emocional em diferentes contextos desportivos.

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Daniel Goleman, um reconhecido especialista em Inteligência Emocional (IE), diz-nos que a maturidade é a capacidade de estender o intervalo entre o impulso e a ação. A IE pode ser avaliada e traduzida no QE (Quociente Emocional). O QE é flexível e, ao contrário da controversa medida do QI (Quociente Intelectual-rígido e estável), pode ser desenvolvido ao longo da vida.

Gerir as emoções de forma consciente e assegurar uma comunicação e um trabalho cooperativo eficaz, são requisitos mínimos que hoje se exigem e treinam em qualquer performer profissional. Ser autêntico e genuíno é conciliável com as necessidades e direitos dos outros. Resta-nos saber onde começa o espetáculo e termina o desporto, para melhor defender a saúde psicológica de todos.

Por Gaspar Ferreira
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