O Lado Psicológico

Gaspar Ferreira
Gaspar Ferreira Ordem dos Psicólogos Portugueses

O que podemos aprender com Ronaldo e Obikwelu

Com os diversos campeonatos de futebol em fase de arranque, são notórias as diferenças nos níveis de entrosamento das equipas. Tornam-se evidentes faltas de ligação entre sectores e é fácil constatar que alguns atletas descuraram a sua preparação no período de férias. Alguns não mostram velocidade ou apresentam mesmo peso a mais. Outros, mostram-se intranquilos, inseguros, inadaptados ou descontentes.

Cristiano Ronaldo, por seu lado, concedeu esta semana uma entrevista em que afirmou que procura constantemente aperfeiçoar-se e aprender sempre mais. Referia-se, em concreto, ao treino que teve com o grande velocista Francis Obikwelu. O ‘mindset’ de Cristiano impulsiona-o para uma aprendizagem constante. Numa busca insaciável de desafios e recordes, assume que ainda lhe é possível alterar e melhorar o seu desempenho psicomotor. Revela espírito crítico, abertura à mudança e flexibilidade. Isto é consistente com estudos que mostram que à medida que os indivíduos amadurecem, maior é o seu empenho no aperfeiçoamento das suas habilidades. Ronaldo confirma esta regra.

A maioria dos treinadores está muito atenta à importância da dimensão mental no jogo. No entanto, o que sabemos é que dedicam pouco mais do que 5% do tempo de treino ao desenvolvimento de competências psicológicas específicas dos atletas. De facto, muitos desportistas, com frequência à margem das direções técnicas, já integram o treino psicológico na sua preparação para os jogos. Procuram resolver problemas de integração, de relacionamento com treinadores, melhorar os movimentos (habilidades motoras específicas), obter mais foco e concentração, manter a calma, dormir melhor, acreditar em si próprios.

É imperioso, por isso, que as equipas que aspiram a competir ao mais alto nível, reservem tempo suficiente no seu plano de treinos para trabalhar o amadurecimento emocional do jogador, o ajudem a definir metas, a lidar com o stress e com os desafios psicológicos próprios da sua função/lugar na equipa (sabemos, por exemplo, que os guarda-redes apresentam melhores índices de preparação psicológica do que os atacantes).

As competências cognitivas e psicológicas são treináveis. Individualmente ou em grupo, pretende-se, com a ajuda de um(a) psicólogo(a), modificar processos e comportamentos (atenção, concentração, pensamentos, motivação, atitude, disciplina, relacionamentos). Na ausência de elevadores rápidos para o sucesso, a preparação psicológica para desenvolver um ‘mindset’ competitivo deve ser sistemática e articulada, sendo crucial para conhecer e integrar os jogadores o mais rapidamente possível e aumentar o rendimento e o bem-estar da equipa e dos atletas.

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