Clube dos Pensadores

Joaquim Jorge
Joaquim Jorge Fundador do Clube dos Pensadores

Carlos Queiroz: o mal-amado

Sinceramente, não entendo tanta animosidade em Portugal, contra Carlos Queiroz. No passado passaram-se coisas lamentáveis na FPF, em que não se pode assacar culpas à sua pessoa. Carlos Queiroz é um estudioso do futebol, a quem se deve muito da nossa evolução e mentalidade ganhadora. Em Portugal, temos muito a mania do esquecimento e da ingratidão. Fernando Santos foi correcto e cavalheiro para com Carlos Queiroz, e, é assim, que todos deveriam ter procedido.

Carlos Queiroz, licenciado em Educação Física e mestre em Metodologia do Treino Desportivo, chegando a ser assistente na Faculdade de Motricidade Humana, é um estudioso do futebol. Quanto esteve à frente das selecções jovens, foi o responsável pelo aparecimento de jogadores como Luís Figo, Rui Costa, Vítor Baía, Paulo Sousa, Abel Xavier, Fernando Couto e João Pinto.

Foi campeão do Mundo Sub-20, por duas vezes, títulos que marcaram o futebol português e a mudança de mentalidade, jogadores que passaram a ser dos melhores do Mundo, com capacidade para singrarem em equipas estrangeiras e atingirem o topo. Figo chegou a ser Bola de Ouro.

Com este excelente desempenho ascendeu a treinador principal da selecção nacional, aproveitando a qualidade e o talento do seu trabalho. Todavia não conseguiu apurar Portugal em 1994 para o Campeonato do Mundo.

Carlos Queiroz é polémico, insultou um dirigente, quis varrer a "porcaria" da Federação e trocou socos com um comentador. Mas, em muitas destas situações anómalas, teve a sua dose de razão.

Carlos Queiroz é honesto intelectualmente e percebe de futebol. A sua passagem na selecção nacional teve tanto de infeliz como de problemática.

A sua saída da selecção deveu-se à polémica dos testes anti-doping aos jogadores da selecção portuguesa. Mas toda a sua actuação foi em defesa do grupo de trabalho.

O caso, na altura, teve imenso mediatismo, sendo, que o Conselho de Disciplina afastou Carlos Queiroz. Nesse processo, Carlos Queiroz não se ficou e foi defendido por algumas reconhecidas figuras do futebol português e mundial : Alex Ferguson; Luís Figo; Pinto da Costa ; entre outros.

Foi absolvido pelo TAS (Tribunal Arbitral do Desporto) de todas as acusações que lhe foram imputadas, revelando-se estas como uma manobra do Governo da época e da FPF para arranjarem justa causa para o seu despedimento.

Todavia no estrangeiro é alguém amado e reconhecido pelo seu trabalho. Passou pela selecção dos Emirados Árabes Unidos, a apurou para o Mundial, a África do Sul em 2002, o Irão em 2014 e 2018 e chegou a apurar Portugal em 2010. Não é qualquer um, que apura uma selecção quatro vezes para o Mundial por três selecções diferentes!

Foi treinador em vários clubes como o Sporting, Real Madrid e adjunto de Alex Ferguson no Manchester United. Muita gente esquece-se que ajudou à integração de Ronaldo e Nani no Manchester.
Carlos Queiroz pode ter um feitio difícil, mas como treinador é dos melhores do mundo, na planificação e metodologia.
Os diferendos com alguns jogadores da selecção nacional em tempos idos deveriam ser sanados.

Carlos Queiroz é um líder e não gosta que se sobreponham a ele. Com ele à frente da selecção seria impensável algumas atitudes de Ronaldo para com Fernando Santos, às vezes, parece que é Ronaldo que é o treinador.
Paulo Bento também teve problemas com jogadores: Ricardo Carvalho; Bosingwa; entre outros. É normal, quem não é convocado, ou não joga mostrar insatisfação. Gerir personalidades e egos de jogadores não é fácil.
O ambiente na selecção portuguesa é bom, mas vamos ver quando começarmos a perder.

Sempre achei que tudo estava ultrapassado. Carlos Queiroz goste-se ou não contribui para a evolução do futebol português e tornou-o capaz de ombrear com os melhores do Mundo. Portugal é muito melhor ao nível de selecções do que ao nível de clubes, essa virtude deve-se ao trabalho de base desenvolvido por Carlos Queiroz.

Lamento, a forma como Carlos Queiroz foi tratado pela FPF, depois das polémicas que rodearam a selecção nacional no Mundial 2010. Carlos Queiroz é uma pessoa mal-amada e incompreendida, foi prejudicado e traído por dizer as verdades. Em Portugal não se gosta de ouvir dizer as verdades, gosta-se mais de meias-verdades ou silêncios tácticos.
Carlos Queiroz, no final do jogo contra o Irão exagerou ao desejar a expulsão de Ronaldo e mostrou ser mau perdedor ao acusar o árbitro pelo resultado. Todavia tem razão quando se mostra magoado pelos jogadores que não o cumprimentaram, ao contrário, de Fernando Santos, um senhor que sabe estar. A sua irritação tem razão de ser, só foi cumprimentado por Adrien, Bruno Alves, Cédric e Beto. Não foi bonito e não ajuda ao desanuviar este ambiente que dura há muitos anos.

Carlos Queiroz limitou-se a defender os interesses de quem representa e lhe paga – a selecção do Irão. Anteriormente Fernando Santos também foi treinador da Grécia e defendia os interesses dos gregos.

Não podemos confundir profissionalismo com nacionalidade. Nesse caso, a FIFA não deve deixar ser treinador de uma selecção alguém que é estrangeiro.

O Governo, da altura, presidido por Cavaco Silva condecorou Carlos Queiroz com a Ordem do Infante D. Henrique, que distingue personalidades que prestaram serviços relevantes a Portugal, no país ou no estrangeiro.
Está na hora da FPF fazer as pazes com Carlos Queiroz e passarem a ter uma relação normal e cordial, reconhecendo o seu contributo inestimável para a evolução do futebol português.

Fundador do Clube dos Pensadores
*escrevo ao abrigo do antigo AO
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